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ROMANCE DE PAREDE
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O que vou contar dá-me um nó à cabeça, e receando que dê também um nó à cabeça de quem me lê, vou avançar devagarinho. Mas começo pelo fim: para que vejam onde quero chegar. O fim é a exposição Porque ninguém me pediu isso: Romance de Parede, da poeta, cineasta e docente universitária brasileira Carla Miguelote, que inaugurou na passada sexta-feira no Instituto Pernambuco – Porto. À entrada da exposição, o visitante é avisado ao que vem: acompanhar a viagem que Carla Miguelote realizou entre janeiro e fevereiro de 2024, de Paris à ilha do Pico, passando por Lisboa, Boca do Inferno e Faial. Não se tratou, contudo, de uma viagem qualquer, mas de uma viagem-performance através da qual a artista pretendeu viver a vida de uma personagem literária, descrita no texto “A viagem de Rita Malú” (2006), do escritor espanhol Enrique Vila-Matas. Carla Miguelote recriou o caminho da personagem, repetiu-lhe os movimentos, replicou os seus pensamentos, ecoou-lhe as palavras. Isto bastaria para que a exposição, cuja narrativa se divide por cinco paredes, misturando texto, fotografia e vídeo, fosse interessante. A curadoria, contudo, tornou-a ainda mais cativante ao obrigar o visitante a passar por cinco “estações” distribuídas pela grande sala do Instituto Pernambuco. Por outras palavras, para “ler” sobre a viagem que Carla Miguelote fez recriando os passos de Rita Malú, o visitante terá de, também ele, imitar o gesto viajante, peregrinando pela sala.
O conceito de um artista recriar a vida de uma personagem, desafiando, assim, as fronteiras entre o real e a ficção, é, sem dúvida, curioso. Mas aqui é que começa o nó: a personagem Rita Malú – diz-nos Vila-Matas – foi inspirada numa pessoa real: a artista conceptual francesa Sophie Calle, que se tornou famosa pela forma como, na sua obra – que inclui escrita, fotografia, instalação e cinema – misturou vida pessoal e criação artística. Mais: Segundo Vila-Matas, terá sido a artista francesa a pedir-lhe que escrevesse um texto que ela pudesse “viver”. Sophie Calle esteve, pois, na origem da criação de Rita Malú, ela própria descrita, no texto, como “a melhor imitadora de Sophie Calle”. A artista francesa não terá, contudo, chegado a concretizar o projeto, pelo que a viagem que Carla Miguelote fez é não apenas um gesto imitativo de Rita Malú (que, por sua vez, imita Sophie Calle), mas também replicante dos planos da artista francesa.
Mas o nó continua a apertar: porque, na verdade, Vila-Matas não terá sido o primeiro a inventar uma personagem inspirada em Sophie Calle: Paul Auster tê-lo-á feito anos antes em Leviathan (1992), através da personagem Maria Turner, uma artista nova-iorquina autora de projetos verdadeiramente inusitados, que, na sua grande maioria, são um decalque perfeito dos projetos de Sophie Calle (Auster agradece mesmo a Calle por o ter autorizado a utilizar episódios da sua vida). O que é interessante é a forma como a artista francesa reagiu à imitação da sua vida: passou ela a imitar a vida de Maria Turner, um processo documentado nos sete livrinhos que compõem Jogo Duplo (Double Jeux,1998) – e assim, durante uma semana, como fizera Maria Turner, Sophie Calle ingeriu, em cada dia, comida e bebida de uma mesma cor (segunda-feira, dia-do-laranja, comeu camarão e cenoura e bebeu sumo de laranja; etc.); concretizou também o projeto louco de Maria Turner de dedicar cada dia a uma só letra (no dia do W leu sobre westerns, ouve música no seu walkman, bebe whisky e aprecia fotografias de William Wegman).
O nó estreita-se mais ainda quando Sophie Calle pede a Paul Auster para ele escrever um texto que ela pudesse viver ao pé da letra, esbatendo por completo as fronteiras entre realidade e ficção. Auster terá recusado a ideia de criar uma “personagem verdadeiramente real”, mas terá cedido a escrever um texto com instruções para Sophie Calle seguir em Nova Iorque, e que a artista viria a concretizar.
Embora a exposição no Instituto de Pernambuco não mencione Paul Auster, valerá a pena visitá-la retendo na memória este jogo de duplos, repetições e espelhamentos que põem em causa o que é real e o que é ficção, o que é verdade e o que é fingimento. Pressinto que quem a vá visitar saia de lá com o mesmo nó na cabeça que ainda sinto. Mas será apenas porque a exposição nos mostra algo de muito novo. E isso é muito bom: para mim, além do importante questionamento que me suscitou sobre a relação entre a arte e a vida, Porque ninguém me pediu isso proporcionou-me a leitura do meu primeiro romance de parede.
Fátima Vieira Vice-Reitora para a Cultura e Museus
Nota: A exposição Porque ninguém me pediu isso: Romance de Parede, de Carla Miguelote, tem curadoria de Diogo Marques e Ana Sabino. É uma iniciativa do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa em parceria com o CODA. Foi inteiramente produzida pela equipa da Casa Comum. Está aberta ao público, no Instituto Pernambuco-Porto até 14 de abril. É de entrada livre, como sempre acontece com tudo na Casa Comum.
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U.Porto convida a passar um Fim-de-semana com o Ensemble
Ciclo de cinema, teatro e debates, inserido nas comemorações do Dia Mundial do Teatro, terá lugar nos dias 27, 28 e 29 de março. Entrada livre. A programação arranca a 27 de março, com as Mulheres de Shakespeare, de Fátima Vieira e Matilde Real. Foto: Ensemble – Sociedade de Actores
São três dias para celebrar o teatro na Casa Comum – à Reitoria – da Universidade do Porto! O ciclo Fim-de-semana com o Ensemble, organizado em parceria com o Ensemble – Sociedade de Actores, exibe os filmes de três espetáculos, seguidos de debates moderados por Fátima Vieira, Vice-Reitora para a Cultura e Museus da U.Porto. As sessões, sempre com entrada livre, incluem Mulheres de Shakespeare, Despe-te [Isabel] e Triedro + Atores. Com esta iniciativa, pretende-se abrir espaço à reflexão sobre o teatro contemporâneo e ao diálogo entre artistas e público. Durante três dias, ou seja, quinta, sexta e sábado, o público terá a oportunidade de assistir à exibição dos filmes de três espetáculos de teatro, acompanhados de conversas com criadores, intérpretes e encenadores.
A programação arranca no dia 27 de março, quinta-feira, às 21h30, com Mulheres de Shakespeare, de Fátima Vieira e Matilde Real, com encenação de Carlos Pimenta e realização de Tiago Sousa.
Este espetáculo explora o papel das personagens femininas na obra de Shakespeare e a respetiva influência nas narrativas masculinas. Afinal, o que representa e qual a relevância do espírito feminino na obra do poeta, dramaturgo e ator inglês, e como se define num contexto assumidamente masculino que impedia as mulheres de se apresentarem em cena? A responder a esta questão, estarão Fátima Vieira e Matilde Real, mas também Carlos Pimenta, Emília Silvestre, Sofia Faria Fernandes, Ricardo Pinto e Tiago Sousa.
No dia 28 de março, às 21h30, será exibido Despe-te [Isabel], de Ella Hickson, com encenação de Pedro Galiza e realização de Luís Porto.
Esta peça revisita a figura de uma rainha que aprendeu, bem cedo, as regras do jogo de poder. A história, sem outros códigos, batizou-a de virgem. “Sobe ao palco” Isabel I de Inglaterra, a única monarca feminina a governar o país (durante 44 anos) sem casar. A peça dará as pistas para a conversa que vai juntar Pedro Galiza, Emília Silvestre, Ricardo Pinto e Luís Porto.
Despe-te (Isabel) “passa” no Casa Comum na noite de 28 de março. Foto: Ensemble – Sociedade de Actores
O ciclo encerra no sábado, dia 29 de março, às 17h00, com Triedro + Atores, de Álvaro Garcia de Zúñiga e Francisco Luís Parreira, encenado por Jorge Pinto e realizado por Sofia Faria Fernandes. O espetáculo resulta de uma residência artística na Casa de Mateus e integra música improvisada, performance vocal e dramaturgia experimental. Juntando três músicos – que desenvolveram formas de música improvisada e de experiência sensorial – e quatro atores – em improvisação vocal com textos de Álvaro Garcia de Zúñiga e Francisco Luís Parreira, numa encenação de Jorge Pinto -, este filme realizado por Sofia Faria Fernandes é um cruzamento do registo documental feito a partir de imagens do Jardim e da Casa de Mateus. A conversa contará com Jorge Pinto, Ricardo Pinto e Sofia Faria Fernandes.
O Ensemble – Sociedade de Actores é uma unidade de investigação, produção e formação contínua de atores em três eixos fundamentais: Espetáculos, estúdio de atores e serviço educativo. Integra, atualmente, os programas Caracol, Shakespeare para o séc XXI e Sedução na Escola.
O Fim-de-semana com o Ensemble tem entrada livre, limitada à lotação da sala.
Sobre o Dia Mundial do Teatro
O Dia Mundial do Teatro foi instituído em 1962 pelo Instituto Internacional de Teatro (ITI), fundado em Praga e agora sediado em Paris. É celebrado a 27 de março através da realização de um conjunto de iniciativas nacionais e internacionais. Uma dessas iniciativas é a circulação da Mensagem Internacional do Dia Mundial do Teatro, através da qual um convidado partilha reflexões sobre o tema do Teatro e da Cultura de Paz.
A primeira Mensagem Internacional do Dia Mundial do Teatro foi escrita por Jean Cocteau, em 1962.
Fonte: Notícias U.Porto
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Histórias para Salvar – 10 Anos do Banco Português de Cérebros: os artistas
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Março e abril na U.Porto
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Para conhecer o programa da Casa Comum e outras iniciativas, consulte a Agenda Casa Comum ou clique nas imagens abaixo.
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Aula do Visível | Exposição de Obras da Coleção da Fundação Ilídio Pinho
Exposição | Edifício Abel Salazar Entrada livre. Mais informações aqui
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Histórias para Salvar – 10 Anos do Banco Português de Cérebros
Entrada Livre. Mais informações aqui
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Aula do Visível – Obras da Coleção da Fundação Ilídio Pinho | Programa de Laboratórios Artísticos
Laboratórios artísticos | Edifício Abel Salazar Entrada Livre. Mais informações e inscrições aqui
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Aula do Visível – Obras da Coleção da Fundação Ilídio Pinho | Programa de Visitas Orientadas
Visitas orientadas | Edifício Abel Salazar Entrada Livre. Mais informações e inscrições aqui
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7 contos esculturas | Exposição
Entrada Livre. Mais informações aqui
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Territórios, Brasil e Portugal | Ciclo de Cinema
28 MAR e 04 ABR'25 | 18h30 Entrada Livre. Mais informações aqui
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Global citizenship and One Asia in the 21st century, com Yoji Sato
Entrada Livre. Mais informações aqui
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Suporte Básico de Vida, de Manuel Jorge Marmelo
Apresentação de livro | Casa Comum Entrada Livre. Mais informações aqui
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What If? História Alternativa, com Sociedade de Debates da U.Porto
Entrada Livre. Mais informações aqui
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Fim-de-semana com o Ensemble
Cinema, teatro | Casa Comum Entrada Livre. Mais informações aqui
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[CON]TEXTUALIDADES | Encontros de Poetas
Literatura, poesia | Casa Comum Entrada Livre. Mais informações aqui
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Haiku: o sentir da poesia do Japão difundido no mundo
Entrada Livre. Mais informações aqui
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Club di Lettura Italiano 2025 | Clube de Leitura Italiano 2025
20 FEV, 02 ABR, 12 JUN, 17 SET, 29 OUT e 11 DEZ'25 | 19h00 Literatura | Casa Comum e ASCIPDA Entrada Livre. Mais informações e inscrição aqui
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Fim-de-semana com Agustina Bessa-Luís
Cinema, conversa | Casa Comum Entrada Livre. Mais informações aqui
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PAISAGENS CONSTRUÍDAS
Exposição | Fundação Marques da Silva
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Ciclo de Conversas à volta de Paisagens Construídas: Barragem e Complexo de Picote, com Fátima Fernandes / moderação de Valdemar Cruz
Conversa | Fundação Marques da Silva Entrada Livre. Mais informações aqui
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Heróicas | Coral de Letras da U.Porto
Concerto | Casa da Música Mais informações e bilhetes aqui
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SEIOS, 300 DESENHOS
Exposição | Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva, Museu de História Natural Entrada Livre. Mais informações aqui
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Gemas, Cristais e Minerais
Exposição | Museu de História Natural e da Ciência U.Porto Entrada Livre. Mais informações aqui
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Corredor Cultural
Condições especiais de acesso a museus, monumentos, teatros e salas de espetáculos, mediante a apresentação do Cartão U.Porto.
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Coral de Letras da U.Porto canta Abril na Casa da Música
O espetáculo Heróicas, focado na obra de Fernando Lopes-Graça, está marcado para o dia 6 de abril, na Sala Suggia da Casa da Música. O concerto será dirigido por José Luís Borges Coelho, maestro do CLUP desde a sua fundação, em 1966. Foto: DR
O Coral de Letras da Universidade do Porto (CLUP) vai subir ao palco da Sala Suggia da Casa da Música para dar um concerto que terá por base uma obra de Fernando Lopes-Graça alinhada com os ideais da revolução de Abril. O espetáculo, intitulado Heróicas, está agendado para o próximo dia 6 de abril, às 12h00. O concerto tem por base uma obra de Fernando Lopes-Graça, criada desde 1945 até já depois do 25 de Abril de 1974. As canções que “são para toda a gente” foram inicialmente compostas para coro, com poemas de autores da resistência antifascista como José Gomes Ferreira, João José Cochofel, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira e muitos outros.
Estas canções são interpretadas há mais de cinco décadas pelo Coral de Letras da U.Porto, o que acontece não só pela amizade entre o maestro fundador do Coral e o compositor, mas pela pertinência da mensagem política, social e musical. Da vontade de “devolver a música ao povo”, como pretendia Lopes-Graça, nasceu a gravação de um conjunto destas canções, que serve de mote para este concerto.
De resto, o CLUP tem três álbuns editados e um álbum em fase final de produção, integralmente dedicados à música de Fernando Lopes-Graça: Onze Encomendações das Almas e Doze Cantos de Romaria (1991) – com capa reeditada em 2023; Uma Antologia (Im)possível (2011); Primeira Cantata de Natal: Fernando Lopes-Graça (2017) e Canções Heróicas (2024)
Em Heróicas, o Coral abre a porta a novos formatos, partilha e difunde a mensagem dos 50 anos do 25 de Abril e devolve, assim, as canções ao povo. Como afirmou o maestro José Luís Borges Coelho, Lopes-Graça “foi dos que aprenderam cedo que ao mundo, mais do que tentar explicá-lo, importa é mudá-lo”.
Os bilhetes para o espetáculo varias entre os 7 e os 14 euros e podem ser adquiridos na página da Casa da Música.
Sobre o Coral de Letras
Dirigido desde a sua fundação, em 1966, por José Luís Borges Coelho, o Coral de Letras da Universidade do Porto tem como maestro adjunto, desde 2021, Pedro Guedes Marques. Premiado em festivais internacionais realizados no País de Gales, na Suíça ou na Inglaterra, o CLUP já realizou centenas de concertos em Portugal e digressões em países como Espanha, França, Bélgica, Luxemburgo, Holanda e Alemanha.
Considerado instituição de utilidade pública, o Coral – que é apoiado pela Reitoria da U.Porto – foi agraciado com a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura.
O CLUP está sempre de portas abertas à entrada de novos elementos. O processo é muito simples: basta aparecer numa sessão de técnica vocal (terça- e sexta-feira, 19h), na sede do Coral, e realizar um pequeno teste vocal com o maestro. A integração no coro é feita de forma contínua e conforme a evolução e preparação de cada coralista.
O CLUP tem quatro ensaios semanais: segunda, quarta, quinta-feira, às 21h30, aos sábados às 15h30 e ainda as duas sessões de técnica vocal, à terça e sexta-feira, às 19h00.
Fonte: Notícias U.Porto
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Artistas representados na exposição Aula do Visível – Obras da Coleção da Fundação Ilídio Pinho
Almada Negreiros
Almada Negreiros (Foto DR)
Artista polimórfico (desenhador, caricaturista, pintor, escritor, poeta, ensaísta, publicista, bailarino, cenógrafo e figurinista) e controverso, primeiro vanguardista e depois classista. Teve a sua estreia com a Exposição Livre de 1911 e a sua primeira exposição individual em 1913. Em 1914 começou também a escrever. Entre 1919 e 1920 fez uma curta e pouco consequente passagem por Paris. Nos anos seguintes esteve ligado a importantes eventos culturais e artísticos. Com uma breve e desiludida passagem por Paris entre 1919–20, participou e promoveu muitos dos acontecimentos, publicações e exposições mais relevantes do período: primeiro as ligadas à introdução do Futurismo em 1916–17, como a exposição 5 Independentes de 1923, a decoração do café A Brasileira e do Bristol Club, o I Salão dos Independentes de 1930 e, a partir de 1941, algumas das Exposições de Arte Moderna.
Em 1927 partiu para Madrid, onde permaneceu até 1932, estabelecendo relações com os arquitetos da Geração de 25 e com membros da Sociedade de Artistas Ibéricos, que lhe favoreceu exposições, decorações em edifícios públicos e uma intensa atividade no campo do desenho humorístico e da ilustração.
De regresso a Lisboa abriu novas frentes, em especial na área da decoração, desenvolvendo numerosos projetos de vitrais e pintura mural, entre os quais se destacam os painéis das Gares Marítimas de Alcântara (1943–1945) e Rocha de Conde de Óbidos (1946–1948). Uma obra marcante da arte nacional, o grande painel inciso em pedra, intitulado Começar, para a sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, assinala o encerramento do seu percurso artístico singular.
Autorretrato de Almada Negreiros (Cidade da Trindade, São Tomé e Príncipe 1893 – Lisboa, 1970), de 1948. (Papel, grafite, Inv. DP 220, Centro de Arte Moderna Gulbenkian)
Estreou-se como desenhador humorista em 1911, participando, em 1912 e 1913, nos I e II Salões dos Humoristas Portugueses. Em 1913 realizou os seus primeiros óleos, para a Alfaiataria Cunha, e a sua primeira exposição individual, na Escola Internacional de Lisboa. Em março de 1914 publicou o seu primeiro poema. Em 1915, colaborou no primeiro número da revista literária Orpheu e ilustrou o número espécimen da revista Contemporânea. Neste mesmo ano chegou a Portugal o casal Robert e Sonia Delaunay, com quem manteve um estreito contacto. Procurando, entre os movimentos de vanguarda europeus, o rumo da sua individualidade artística e literária, digna da "pátria portuguesa do século XX" (tal como a descreve no Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, 1917), Almada escreve A Cena do Ódio (1915), o Manifesto Anti-Dantas e Litoral (ambos de 1916), A Engomadeira e K4 O Quadrado Azul (publicados em 1917). Realizou a sua segunda exposição individual na Galeria das Artes de José Pacheco, em Setembro de 1916, longe já do humorismo dos Salões. O rótulo futurista que, em 1917 – ano da 1.ª Conferência Futurista e de Portugal Futurista -, assumiu com Santa Rita Pintor, foi adotado provocatoriamente como estandarte da modernidade e da luta contra o passadismo.
As representações lisboetas dos Ballets Russes, em 1917 e 1918, marcaram-no profundamente, animando sob a sua influência uma série de bailados representados por amadores e por crianças, em particular pelas jovens Lalá, Tareca, Zeca e Tatão (que formam, com Almada, o "Club das Cinco Cores"). A poética da ingenuidade almadiana, intimamente relacionada com este grupo, será desenvolvida em Paris, cidade onde viveu relativamente isolado entre 1919 e 1920, prosseguindo a sua aprendizagem fora das academias livres e dos ateliers e contactando apenas de passagem com os artistas de vanguarda.
De regresso a Lisboa, realizou a sua terceira exposição individual no Teatro de S. Carlos, apresentando desenhos feitos em Paris. Anunciou, no âmbito desta exposição, A Invenção Do Dia Claro (publicado em 1921), manifesto poético da ingenuidade.
Durante os anos vinte publicou Pierrot e Arlequim (1924) e começou a escrever Nome de Guerra (1925); colaborou nas revistas Contemporânea, Athena, e Presença, no Diário de Lisboa, e no Sempre Fixe; participou na Exposição dos Cinco Independentes (1923), e nos I e II Salões de Outono (1925 e 1926); pintou Auto-Retrato Num Grupo e Banhistas, para a Brasileira do Chiado (1925), e um Nu Feminino, para o Bristol Club (1926); integrou o grupo de artistas "novos" que José Pacheco tentou, em vão, fazer entrar na Sociedade Nacional de Belas Artes; e constatou que "é viver o que é impossível em Portugal" (Modernismo, 1926).
Partiu, então, para Madrid (1927-1932), onde participou ativamente na cena artística e literária, convivendo e colaborando com os artistas, arquitetos e escritores mais representativos da modernidade espanhola. De regresso a Lisboa, realizou a conferência Direcção Única, defendendo a unidade entre indivíduo e coletividade, "esses dois valores iguais, recíprocos, que dependem um do outro e que isoladamente se suicidam por suas próprias mãos". Relação difícil mas que Almada viu esperançado, em março de 1935, no âmbito da I Exposição Oficial de Arte Moderna, uma iniciativa de António Ferro, figura próxima da geração de Orpheu e diretor do recém-criado SPN: "Ser artista é um resultado directo da humanidade e da sociedade; é um lugar legítimo de determinadas individualidades", "aos poderes públicos compete-lhes tão-somente não ignorar e reconhecer os determinados valores que a humanidade e a sociedade lhes indicam", "é com grande respeito que vejo, pela primeira vez na minha terra, os poderes públicos ao lado da arte mais nova de Portugal".
Com uma "personalidade" artística já definida e alguma estabilidade emocional (graças ao casamento com a pintora Sarah Affonso em Março de 1934) e financeira (devido às encomendas públicas que começou a receber), Almada prosseguiu sozinho o caminho aberto com os seus antigos camaradas, rumo à consagração. Como escritor, assinou a publicação de Nome de Guerra, em 1938, que inaugura a Colecção de "Autores Modernos Portugueses" (dirigida por João Gaspar Simões, Edições Europa). Como pintor, foi premiado em 1942 (Prémio Columbano), em 1946 (Prémio Domingos Sequeira), em 1957 (Fundação Calouste Gulbenkian), e em 1966 (Prémio Diário de Notícias), e autor das decorações a fresco para as Gares Marítimas de Alcântara (1943-1945) e da Rocha do Conde de Óbidos (1946-1949), e dos Retratos de Fernando Pessoa para o Restaurante Irmãos Unidos (1954) e para a Fundação Calouste Gulbenkian (1964). Enquanto teórico de arte, distinguiu-se com os ensaios Ver (1943), Mito – Alegoria – Símbolo (1948), e A Chave Diz: Faltam Duas Tábuas e Meia no Todo da Obra de Nuno Gonçalves (1950), textos que teorizam a incessante busca do cânone, fundamento da criação universal, que explorou na série de quatro óleos abstrato-geométricos apresentados na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957), e sintetiza no painel Começar (1968-1969), realizado para a entrada da mesma Fundação.
Maternidade, 1948. Óleo sobre tela.
Natureza Morta, 1941. Óleo sobre tela.
Sem título, 1932. Desenho a lápis.
Obras de Almada Negreiros na Sala 1 da exposição, no segundo piso do renovado edifício Abel Salazar:
Auto-Retrato - Centro de Arte Moderna José de Almada Negreiros - Centro de Arte Moderna
MNAC: José de Almada Negreiros
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Há novos podcasts no espaço virtual da Casa Comum |
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145. Da Minh’alma, 1, 2, 3, Odete Costa Ferreira
“Da Minh’alma, 1, 2, 3”, de Odete Costa Ferreira, in Um cibo de Nós, fevereiro de 2020.
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No Alumni Mundus desta quinzena, estivemos com André Eiras, alumnus de um MBA da Porto Business School. André tirou um mestrado em Engenharia Biomédica com especialização em Eletrónica Médica pela Universidade de Coimbra e foi depois de iniciar a sua atividade profissional que sentiu necessidade de tirar um MBA. Depois de cofundar a Exa4Life e a EX Capita, surgiu a oportunidade de fazer parte da equipa fundadora da SWORD Health, onde é atualmente diretor-geral da internacionalização. A sua experiência permite que as organizações implementem estratégias que melhorem o bem-estar das pessoas e reduzam os custos de saúde. A SWORD Health é uma empresa que pretende revolucionar a fisioterapia convencional através do uso da inteligência artificial.
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Alunos Ilustres da U.Porto
Armindo de Sousa
Armindo de Sousa nasceu na freguesia de Lustosa, no concelho de Lousada, em 2 de junho de 1941. Era filho de Bernardino Alves de Sousa e de Ana de Sousa. Terminou, com distinção, os estudos secundários no Colégio de Singeverga, em Roriz, Santo Tirso, em 1960.
Cinco anos mais tarde concluiu com a classificação de "Bom" o Curso de Teologia no Seminário Maior da Diocese do Porto. Exerceu o sacerdócio durante cerca de sete anos, mas veio a abandoná-lo para poder formar uma família, aquela que considerava a sua verdadeira vocação.
Frequentou o curso de História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 1974 fez o bacharelato com a classificação de dezasseis valores e, no ano seguinte, concluiu a licenciatura com dezassete valores de média final.
Lecionou no Liceu Alexandre Herculano, no Porto (1967-1971), e no Grande Colégio Universal do Porto (1971-1975), as disciplinas de "Moral", "História", "História e Geografia" e "Psicologia e Filosofia". Na Escola de Educadoras de Infância "Santa Mafalda" (1974-1979) ministrou as disciplinas de "Introdução à Sociologia", "Sociologia da Educação" e "Psicologia do Desenvolvimento".
Em 1975 ingressou, como Assistente, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, a partir de 1991, assumiu a responsabilidade pela cadeira de "Antropologia Cultural" na Universidade Portucalense "Infante D. Henrique". Na Faculdade de Letras do Porto, aquela que foi "a sua casa", foi Monitor de "Arqueologia de Campo e Técnicas Laboratoriais" (1974-1975), regente das cadeiras de "Pré-História Geral I" (1975-1976), de "História da Cultura I - Grécia e Roma" (1976-1978), de "História da Cultura Portuguesa - Época Medieval" (1977-1978) e de "História Cultural e das Mentalidades (Séculos III-IXV)" (1978-1988) que, em 1988, passou a designar-se "Cultura e Mentalidades na Época Medieval", e ensinou até 1997. De 1979 a 1981 foi responsável pelas aulas práticas de "Paleografia e Diplomática". No Mestrado de História Medieval teve a seu cargo a disciplina de "Crítica Textual" e o seminário "Assembleias Representativas Medievais". Mas foi muito mais do que isso: foi um sábio interessado que nunca negou ajuda a quem lha solicitou.
Na Faculdade de Letras do Porto desempenhou, ainda, outras atividades. Foi dirigente da Pró-Associação dos Estudantes de Letras (1970-1971), participou no Coral de Letras (1970-1974), representou os docentes de História no Conselho Pedagógico (1976-1977), foi Vice-Presidente do Conselho Científico (1990-1992), e integrou a Assembleia de Representantes da Faculdade, tendo sido eleito Presidente da Mesa entre 1976 e 1981 e 1982 e 1990.
No início da sua carreira de docente universitário trabalhou na área de Arqueologia, que veio a trocar pela de História Medieval, para cuja renovação em muito contribuiu, tendo-se dedicado, sobretudo, ao estudo das Cortes em Portugal (tema da tese de doutoramento, defendida em 1989, e de vários artigos).
Entre os seus trabalhos, destacam-se: o capítulo dedicado aos "Tempos Medievais" da História da Cidade do Porto, dirigida por Luís de Oliveira Ramos, cerca de metade do segundo volume "A Monarquia Feudal - 1325-1480" da História de Portugal, do Círculo de Leitores, dirigida por José Mattoso, e o artigo sobre "Portugal" na The New Cambridge Medieval History (1998).
Outros trabalhos relevantes, verdadeiros marcos na historiografia portuguesa, pelos temas abordados, são: O Mosteiro de Santo Tirso no Século XV - (1981); A Morte de D. João I (um tema de propaganda dinástica) (1984); Conflitos entre o Bispo e a Câmara do Porto nos Meados do Século XVI (1983); Estado e Comunidade: Representações e Resistências (1999).
Homem de uma cultura superior, dotado do dom da palavra e da escrita, marcou indelevelmente todos os que puderam acompanhar o seu percurso académico.
Enquanto docente, legou à posteridade a exigência intelectual, a liberdade de pensamento e o orgulho de ser professor universitário. Como homem, o seu melhor legado foram os três filhos que deixou, quando morreu no Porto, no dia 25 de outubro de 1998.
Sobre Armindo de Sousa (up.pt)
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