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MODO DE LER
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 Passo todos os dias pela livraria alfarrabista Modo de Ler, à ida para a reitoria. Na Praça Guilherme Gomes Fernandes, posso escolher entre bordejar a rua, junto aos carros, ou contornar pelo lado de cima e coser-me ao casario dos restaurantes, da Leitaria da Quinta do Paço e da Modo de Ler. Opto invariavelmente por esta última hipótese. Mesmo quando estou com pressa, olho obliquamente para a montra da livraria. Sinto-me feliz por ver aqueles livros, logo de manhã: por saber que muitos deles já pertenceram a alguém que os leu e que por eles se sentiu tocado, e que estarão em breve nas mãos de outras pessoas, que serão pessoas diferentes quando acabarem de os ler, pois cada livro que lemos acrescenta-nos alguma coisa; e por saber que este é um movimento global pois como anunciam dois papéis A4 colocados à entrada, são abundantes os livros em espanhol, francês, inglês e alemão com 70% de desconto. Confesso que a primeira vez que vi a Modo de Ler fiquei perplexa com a multiplicidade de anúncios. Como informa um letreiro na montra, a livraria promove uma “FEIRA DO LIVRO PERMANENTE”, e, por isso, lado a lado com livros novos, encontramos poesia portuguesa e estrangeira por metade do preço, exemplares únicos de diferentes autores, géneros e formatos a preços verdadeiramente promocionais, bem como os livros do Padre Américo pela quantia que “pudermos ou quisermos pagar”, revertendo essa soma para a Casa do Gaiato. Depois da surpresa inicial, contudo, fui percebendo a estratégia de José da Cruz Santos, editor, livreiro e alfarrabista, proprietário da Modo de Ler: a partir daquela loja de montra estreita, entalada entre cafés e restaurantes, sente que precisa de GRITAR para ser ouvido, e a sua mensagem é importante: tem livros em todas as línguas, novos e antigos – estes últimos a preços acessíveis –, publicações importantes porque ajudam pessoas a crescer (literariamente, mas também literalmente, no caso dos livros da Casa do Gaiato).
Há também uma outra mensagem que a Modo de Ler transmite: o amor de Cruz Santos pela poesia. Encontramos a declaração desse amor em letras vermelhas, na transcrição integral, nos vidros da montra da livraria, do poema que Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu sobre Catarina Eufémia. Releio, emocionada, os dois últimos versos sempre que por lá passo – “Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste / E a busca da justiça continua” –, renovando o meu espanto pelo poder da poesia em dizer o que sinto.
Quem passa na Modo de Ler não se apercebe, contudo, da grandeza do projeto que a livraria encerra nem do enorme prestígio e reconhecimento nacional de que José da Cruz Santos goza. E por isso é tão importante a exposição “O Editor e a Cidade: Glicínias para José da Cruz Santos”, patente na Casa dos Livros até 26 de setembro. Aí é contada a história deste homem que cresceu como editor na Portugália, em Lisboa, fundou em 1967 a Inova, no Porto, e por fim a Modo de Ler, em 2004 – uma história inteira, com fotografias, cartas, documentos, testemunhos de amizade, dezenas de depoimentos de intelectuais e figuras públicas, poemas que lhe foram dedicados (por Vasco Graça Moura, Eugénio de Andrade, Manuel Alegre, António Ramos Rosa, Maria Teresa Horta...), uma bibliografia completa das suas publicações – e livros, muitos livros (só de poesia editou mais de 380). Além do fôlego da atividade editorial de Cruz Santos, quem visitar a exposição ficará a conhecer o papel relevante que desempenhou enquanto resistente à Ditadura (em 1974, a Editorial Inova tinha 40 edições apreendidas pela PIDE) e perceberá que a Modo de Ler deve ser lida como um projeto de combate – contra a ignorância, pelo conhecimento, pelo poder e liberdade de pensamento que representam os livros.
Na passada sexta-feira, ao anoitecer, passei uma vez mais pela Modo de Ler, desta vez no regresso a casa. Com a exposição na Casa dos Livros ainda fresca na mente, detive-me frente à montra – e tudo me pareceu muito claro. “Se mais pessoas souberem da importância do projeto editorial, livreiro e alfarrabista de Cruz Santos”, pensei, “compreenderão o privilégio que é termos a Modo de Ler no centro da cidade, e a nossa responsabilidade, enquanto portuenses, de apoiar esse projeto”. Enquanto assim pensava, vários livros disputaram a minha atenção. Vim para casa a refletir sobre quais irei comprar na próxima semana.
Fátima Vieira Vice-Reitora para a Cultura e Museus
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Música francesa, poesia e vinho para acompanhar as Noites no Pátio do Museu
De 15 a 19 de julho, a terceira semana das Noites no Pátio do Museu convida a fazer um brinde a Casais Monteiro, à música francesa e às flores que unem os povos. Entrada gratuita. Poesia, música francesa, flores e vinho branco assinam o cardápio da terceira semana das Noites no Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP). As portas do Edifício Histórico da Universidade (com entrada pela Cordoaria) abrem pouco antes das 21h30 e todos os eventos são gratuitos. Deixamos um mote para o arranque: “Companheiros, vamos / Ressuscitar Casais Monteiro”… Vão ser de tenacidade e convicção, as palavras escolhidas para a noite de 15 de julho. E de luta contra “a submissão do homem livre”. Foi ensaísta, poeta e crítico literário. Figura de destaque da revista Presença, que dirigiu, Adolfo Casais Monteiro é figura incontornável do Modernismo português. Opositor da ditadura de Salazar, foi preso diversas vezes. Sem reconciliações com o país onde nasceu, exilou-se no Brasil na década de 1950, onde acabou por morrer em 1972, sem nunca ter visto a ditadura “cair da cadeira”. No poema "Europa", escreveu: “Não – nem cárceres, nem deportações, nem represálias, nem torturas / acabarão jamais com a insubmissão do homem livre […] Que só o homem livre é digno de ser homem”.
A servir de “alavanca” ao Coletivo de Poesia – Poetas a várias vozes, teremos a adaptação dos versos de um poema perdido que encerra o prefácio das Poesias Completas: “Companheiros, vamos / Ressuscitar Casais Monteiro”.
Depois da poesia, dia 16 de julho, bebemos juntos um copo de vinho? Quem já se inscreveu no evento… alinhou-se na convicção de que Os brancos estão na moda… E aceitou vir até cá para apreciar a cor, o cheiro e o sabor de três brancos, produzidos em território nacional: um Verde, de S. Salvador da Torre, um Douro, da Quinta de Ventozelo, e um Porto, da Dalva. Vai haver o que petiscar? Claro que sim. A “má notícia”? As inscrições (obrigatórias) neste evento já se encontram encerradas.
Partindo da cocarda tricolor que nasceu na Revolução Francesa para as flores com picos reais que espetam os dedos, que relações “florais” e perfumadas podem ser estabelecidas entre a cidade do Porto e a capital francesa? Flores do Porto e de Paris e outras afinidades é o título da conferência de Joel Cleto, agendada para o dia 17 de julho.
Joel Cleto irá marcar presença nas Noites no Pátio do Museu (Foto U.Porto)
Símbolo associado à monarquia francesa e ao escotismo mundial, qual a presença da flor-de-lis no Porto? E sendo a cidade do Porto conhecida como “a Cidade das Camélias”, como lhe chamou Joaquim de Mello e Faro em 1880, no Jornal de Horticultura Pratica, qual será a presença das camélias em Paris? E que outras flores poderão unir o Porto a França? Sugerimos que ouça música francesa, enquanto pensa na resposta. E nem a propósito, os Zwazou, formados por Clélia Colonna (voz), Miguel Pedrosa (guitarra), Filipe Garcia (piano) e André No (bateria), têm presença marcada para as Noites no Pátio do Museu. Sobem ao palco na noite do dia 18 de julho. De Piaf a Gainsbourg, prometemos revisitar temas da canção francesa.
Estes três últimos eventos estão integrados na 4.ª Festa da Língua e da Cultura Francesa, organizada pelo Consulado Honorário de França no Porto.
Clélia Colonna, vocalista dos Zwazou, vai subir ao palco das Noites no Pátio do Museu. (Foto DR)
Sábado, dia 19 de julho, será a vez do Coral de Letras da Universidade do Porto liderar uma viagem através de cinco séculos de música coral a cappella. O programa propõe um percurso que arranca no Renascimento, com compositores como Pedro Escobar e Josquin Desprez, e atravessa diferentes épocas até ao século XXI, com destaque para a música portuguesa, incluindo nomes como Fernando Lopes-Graça. Serão ainda interpretadas obras de grandes figuras da tradição coral europeia, como Clara Schumann e Sergei Rachmaninoff. Com obras que oscilam entre um registo mais íntimo até à monumentalidade, aguarda-se uma celebração da diversidade estética e expressiva da música coral.
Até final de julho, as Noites no Pátio do Museu continuam a lançar convites à cidade (ver programa completo) para que venha passar as noites na companhia da U.Porto. A entrada para o pátio faz-se pelo Jardim da Cordoaria.
Fonte: Notícias U.Porto
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U.Porto promove II Encontro Nacional sobre Prescrição Cultural
O evento decorrerá nos dias 18 e 19 de julho, no Salão Nobre da Reitoria e na Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva. Entrada livre. I Encontro Nacional sobre Prescrição Cultural decorreu em julho de 2024, na Reitoria da U.Porto. Foto: DR
Durante os dias 18 e 19 de julho, médicos, psicólogos, artistas, programadores e mediadores culturais vão encontrar-se na Reitoria da Universidade do Porto e na Galeria da Biodiversidade
– Centro Ciência Viva para fazer o balanço do primeiro ano de um projeto pioneiro em Portugal. Cruzando cultura, bem-estar e saúde mental, está aí o II Encontro de Prescrição Cultural. A entrada é livre, mas sujeita a inscrição. Como é que a Arte tem permeado os espaços de educação e formação, desde a escola até ao ensino superior? E o que pensará um profissional de saúde sobre o potencial do cinema e da música para o bem-estar? Por outro lado, como é que um artista ou agente cultural perspetiva o seu papel na promoção da saúde? Estão são apenas algumas das questões que prometem fazer “fervilhar” a troca de ideias e inspirar experiências.
Será um momento de partilha e reflexão, no encerramento de um ano decisivo para a consolidação de um projeto piloto que se afirmou em três eixos: a criação da unidade curricular de Prescrição Cultural com estudantes de diferentes áreas numa abordagem interdisciplinar e prática; a formação intensiva para profissionais da saúde e da cultura, promovendo o diálogo entre setores; e a dinamização de ações de sensibilização com a comunidade através dos Laboratórios Artísticos, integrados no Programa Arte, Cultura e Bem-Estar da U.Porto. Iniciativas das quais resultaram propostas com potencial de implementação em contextos reais, reforçando o impacto transformador da prescrição cultural na vida das pessoas e das instituições..
Os Laboratórios de Expressão Plástica desenrolaram-se ao longo de todo o ano letivo 2024/2025. (Foto: DR)
Projeto pioneiro a nível mundial
Coordenado pela Universidade do Porto e beneficiando do conhecimento, experiência e energia de muitas outras instituições, “este é um projeto absolutamente pioneiro, a nível mundial, na forma como articula formação, implementação e investigação”, afirma Fátima Vieira, Vice-Reitora para a Cultura e Museus da U.Porto. “Promover a cultura como forma de fazer comunidade sempre foi uma forte aspiração da Unidade de Cultura da Reitoria. Com este projeto acrescentamos o objetivo da saúde e do bem-estar”, reforçou. Durante o dia 18 de julho, serão ainda apresentados, no Salão Nobre da Reitoria da U.Porto, diferentes projetos que se enquadram com esta temática. Estarão igualmente em discussão as potencialidades do Consórcio “Prescrição Cultural”, que reúne as seguintes entidades: U.Porto, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, CCDRN, Direção-Geral da Saúde, Secção Regional do Norte – Ordem dos Médicos, Ordem dos Psicólogos Portugueses, Centro de Arte Oliva, Fundação da Casa de Mateus, Fundação Côa Parque, Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E., Município de Guimarães, Município do Porto, Município de S. João da Madeira e Município de Vila Real.
O dia culminará, pelas 18h00, com um concerto dos appSOUND, uma banda que nasceu no seio do Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI) da Associação Porto Paralisia Cerebral.
A manhã do dia 19 de julho, na Galeria da Biodiversidade, será totalmente dedicada à realização de workshops. O programa Arte, Cultura e Bem-Estar tem vindo a transformar os espaços culturais da U.Porto em espaços de criatividade, conforto e bem-estar e é, neste sentido, que é lançado o convite à participação em três laboratórios de expressão plástica, de escrita e de performance.
Após a realização do I Encontro Nacional sobre Prescrição Cultural, em julho de 2024, o momento é de refletir sobre o caminho percorrido, os desafios enfrentados e os próximos passos a dar para a consolidação da Prescrição Cultural como prática transversal e colaborativa – potenciando, também, a Universidade como verdadeiro lugar de cultura e bem-estar.
A participação é totalmente gratuita, mas sujeita a inscrição prévia, até dia 16 de julho.
Fonte: Notícias U.Porto
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Julho na U.Porto
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Para conhecer o programa da Casa Comum e outras iniciativas, consulte a Agenda Casa Comum ou clique nas imagens abaixo.
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Uma viagem pelo asfalto. O rock no Porto nos anos oitenta
Entrada livre. Mais informações aqui
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Gabinete de Curiosidades / Museu de Causas
Entrada livre. Mais informações aqui
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Noites no Pátio do Museu 2025
De 02 a 26 JUL' 25 | 21h30
Festival | Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto Entrada livre.Mais informações aqui
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Colectivo de Poesia - Poetas a várias vozes no Pátio do Museu | Adolfo Casais Monteiro
Poesia | Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto Entrada livre. Mais informações aqui
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Os brancos estão na moda | Prova de vinhos *
Prova de vinhos | Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto Entrada livre. Mais informações e *inscrições aqui
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Flores do Porto e de Paris e outras afinidades, com Joel Cleto
Palestra | Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto Entrada livre. Mais informações aqui
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Zwazou, com Clélia Colonna | Música Francesa
Música | Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto Entrada livre. Mais informações aqui
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Coral de Letras ao vivo no Pátio do Museu
Música | Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto Entrada livre. informações aqui
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Gendai! A modernidade no cinema asiático dos anos 60
Ciclo de Cinema | Casa Comum Entrada livre. Mais informações aqui
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Club di Lettura Italiano 2025 | Clube de Leitura Italiano 2025
17 SET, 29 OUT e 11 DEZ'25 | 19h00 Literatura | Casa Comum e ASCIPDA Entrada Livre. Mais informações e inscrição aqui
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BAN + Conferência Inferno ao vivo
Música | Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto Entrada livre.Mais informações aqui
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Trabalhadores do Comércio ao vivo
Música | Pátio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto Entrada livre.Mais informações aqui
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Gemas, Cristais e Minerais
Exposição | Museu de História Natural e da Ciência U.Porto Entrada Livre. Mais informações aqui
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Corredor Cultural
Condições especiais de acesso a museus, monumentos, teatros e salas de espetáculos, mediante a apresentação do Cartão U.Porto.
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Há novos podcasts no espaço virtual da Casa Comum |
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160. Adeus, Olívia Clara Pena
“Adeus”, de Olívia Clara Pena, in Amor e outros desencontros, 2024 “Porto”, de Rui Marques, in Porto: um roteiro sentimental, 2022
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112. “Onde Jaz o Teu Sorriso?”, de Pedro Costa (2001)
Comentário de Gil Gonçalves (Curso Avançado de Documentário KINO-DOC)
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Alunos Ilustres da U.Porto
Camilo Castelo Branco
Camilo Castelo Branco (1825- 1890)
Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, na Rua da Rosa da freguesia dos Mártires, a 16 de março de 1825, no seio de uma família da aristocracia rural. O segundo filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco (1778-1835), solteiro, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira (1799-1827), sua criada, foi registado como filho de mãe incógnita, certamente devido às origens humildes da progenitora. Foi batizado na igreja paroquial dos Mártires, a 14 de abril de 1825, tendo como padrinhos o Dr. José Camilo Ferreira Botelho, de Vila Real, e Nossa Senhora da Conceição. Em 1826 a família mudou-se para a Rua da Oliveira da mesma cidade. A 6 de Fevereiro de 1827, e apenas com dois anos de idade, Camilo ficou órfão de mãe, tendo sido perfilhado pelo pai, juntamente com a sua irmã Carolina, em 1829. Em Lisboa, iniciou os estudos primários, em 1830. Por essa altura, a sua família deslocou-se para Vila Real, onde o pai fora colocado como responsável pelos correios. Os três membros da família regressaram à capital em 1831, após a demissão de Manuel Joaquim por acusação de fraude. Com a morte deste, a 22 de dezembro de 1835, as duas crianças foram entregues aos cuidados de sua tia paterna, D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco. Em 1836 mudaram-se para Vila Real.
Em 1839, quando a sua irmã se casou com Francisco José de Azevedo e foi viver com o marido para casa do irmão deste, o Padre António de Azevedo, na aldeia de Vilarinho de Samardã, Camilo seguiu-os. Neste ambiente rural, que muito viria a influenciar a seu trabalho literário, o clérigo proporcionou-lhe uma educação vocacionada para uma carreira religiosa, na qual não foi descurado o estudo dos clássicos portugueses, assim como conhecimentos primários de latim e francês.
Porém, cedo lhe passou a vocação eclesiástica. A 18 de Agosto de 1841, com apenas dezasseis anos de idade, Camilo casou-se com Joaquina Pereira de França, em São Salvador, e instalou-se em Friúme, em, Ribeira de Pena. Em 1842 foi estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha, para preparar o ingresso no ensino universitário.
A 25 de Agosto de 1843 nasceu Rosa Pereira de França Castelo Branco, filha de Camilo com Joaquina. Nesse ano, o jovem fixou-se pela primeira vez no Porto, numa casa da Rua Escura, no histórico e pitoresco bairro da Sé. Em Trás-os-Montes deixara a tia Rita, a mulher e uma filha de meses.
Nesse tempo, segundo a obra Camilo e os Médicos de Maximiano Lemos (1920), o escritor passou brevemente por duas escolas portuenses que estão nas raízes da Universidade do Porto: a Escola Médico-Cirúrgica (1836-1911) e a Academia Politécnica (1837-1911). Na primeira delas estudou “Anatomia Humana e Comparada” (matriculado no 1.º ano a 16 de outubro de 1843, fechou matrícula a 5 de julho de 1844) e “Fisiologia” (matriculado no 2.º ano a 15 de outubro de 1844, mas não fechou a matrícula por ter perdido o ano). O exame que realizou, a 27 de julho de 1884, foi presidido por Caetano Pinto de Azevedo e os examinadores foram António Bernardo de Almeida e Luís Pereira da Fonseca, em substituição do titular da cadeira, o Professor Bernardo Joaquim Pinto. Ao mesmo tempo que frequentava a Escola Médico-Cirúrgica do Porto, Camilo cursou também as disciplinas de” Química” (de 30 de outubro de 1843 a 12 de julho de 1844) e de “Botânica” (de outubro de 1844 a julho de 1845), na Academia Politécnica do Porto, e frequentou ainda “Zoologia” (no ano letivo de 1844-145), cadeira a que reprovou por faltas, uma vez que era mais assíduo frequentador dos ambientes boémios do que das aulas.
Exame da 1.ª cadeira da Escola Médico-Cirúrgica do Porto (Arquivo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto)
Óculos de Camilo Castelo Branco do espólio da FMUP
Começou então a participar nos abadessados ou outeiros de abadessados (certames poéticos que ocorriam nos pátios conventuais e duravam três dias e três noites, nos quais os poetas glosavam motes dados pelas Monjas, que em troca, ofereciam doces e vinho fino) e publicou as primeiras obras poéticas. Depois de ter conseguido tomar posse do que restava da sua herança, voltou a Vila Real. Nesta terra perdeu-se de amores pela prima Patrícia Emília do Carmo Barros. Com ela fugiu para o Porto. Em outubro de 1846 passou 11 dias na Cadeia da Relação (de 12 a 23 de outubro), por ter sido acusado de roubar 20 000 cruzados a João Pinto da Cunha, pai de Patrícia e amante da sua tia. Nesse período agitado - vivia-se então a guerra civil da Patuleia - iniciou uma carreira de jornalista e continuou a escrever. Depois de libertado, regressou a Vila Real e manteve a relação com a prima Patrícia Emília. Na sequência da morte da sua esposa, Joaquina Pereira, voltou ao Porto, em 1847. Mas a sua atividade jornalística, que desenvolvia no Nacional e no Periódico dos Pobres, trouxe-lhe malquerenças e perigos inesperados que o obrigaram a refugiar-se, primeiro em Covas do Douro, na casa da irmã, e, seguidamente, na Folgosa. Daí partiu de novo para a capital nortenha em 1848.
Neste regresso alojou-se no Hotel Francês, da Rua da Fábrica, e passou a frequentar os cafés, os teatros e os bailes da moda. Integrava, então, o grupo dos "Leões", habitués do café Guichard. Camilo já não era o pobre estudante de outros tempos, mas um homem elegante, reputado jornalista e escritor dedicado aos escritos polémicos e novelísticos. Contudo, a fama também lhe trouxe dissabores e inimizades, sobretudo entre as figuras da elite portuense visadas nas suas obras. Nesse ano morreu-lhe a filha Rosa e nasceu-lhe a filha Bernardina Amélia, fruto da sua relação com Patrícia Emília, criança que foi colocada na Roda dos Expostos, depois temporariamente criada em Samardã e, por fim, entregue à freira Isabel Cândida Vaz Mourão, do portuense convento de São Bento de Ave-maria, amante de Camilo.
Em 1850 passou algum tempo na capital, onde redigiu o seu primeiro romance, Anátema, publicado primeiramente nas páginas do jornal literário A Semana; no ano seguinte, esta obra, que o próprio Camilo afirma ter produzido aos vinte e dois anos e que se pode integrar no tipo de novela enredada e terrífica, foi publicada no Porto. A partir de então, passou a viver do que escrevia. Naquele ano tomou parte na polémica entre Herculano e alguns padres sobre o milagre de Ourique e enamorou-se da escritora Ana Augusta Plácido, noiva de Manuel Pinheiro Alves, embora também se tenha ligado romanticamente à freira professa já mencionada, que conhecera num abadessado no mosteiro de São Bento de Ave-maria, comemorativo da eleição da abadessa D. Delfina de Andrade. Nesta fase da sua vida, imbuído de um surpreendente fervor religioso que se julga ter sido inspirado na impressão causada pelo exemplo do Dr. Câmara Sinval, lente da Escola Médica, que, já idoso, tomara ordens, tendo-se tornado pregador em S. Filipe de Nery, ponderou seguir uma carreira religiosa. Para tal, matriculou-se nas Aulas de Teologia, Dogmática e Moral, do Seminário Diocesano, ao tempo instalado no Paço Episcopal, e chegou mesmo a requerer ordens menores, em 1852, enquanto fundava dois jornais de carácter religioso: O Cristianismo (1852) e A Cruz (1853).
Em 1856 foi nomeado diretor literário d' A Verdade. Foi nessa altura que começou a sentir os primeiros sintomas de falta de visão, tormento que lhe marcaria a vida e, provavelmente, lhe precipitaria a morte. Em 1857, instalou-se em Viana do Castelo, onde trabalhou como redator do periódico A Aurora do Lima. Mas não estava só. Acompanhava-o Ana Plácido, esposa de Pinheiro Alves, que para aí o seguira, com a desculpa de acompanhar uma irmã. Muito rapidamente, esta ligação amorosa viria a tornar-se pública e notória, vindo a causar grandes problemas a Camilo na sua profissão de jornalista. Que, talvez por esse motivo, sofreu uma viragem: no ano seguinte, o escritor estaria ligado à publicação do jornal O Mundo Elegante. Ainda em 1858, foi eleito sócio da Academia Real das Ciências, por proposta de Alexandre Herculano, ao qual, apesar da anterior polémica, votava admiração.
© Amor de Perdição, 1862; Autor: Camilo Castelo Branco Propriedade: Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão / Casa de Camilo
Em 1859, Camilo e Ana Plácido partiram para Lisboa. Mas a vida não estava fácil para os dois amantes que, na prática, eram dois fugitivos, deambulando pelo país e debatendo-se com dificuldades económicas. A 11 de Agosto nasceu Manuel Plácido (1859-1877), filho de ambos, mas que veio a ser registado legalmente como filho de Pinheiro Alves. Em 1860, o marido traído moveu-lhes um processo de adultério que os atirou para a Cadeia da Relação do Porto. Ana Plácido foi presa a 6 de junho de 1860 e Camilo, que andara fugido no Entre-Douro-e-Minho, entregou-se às autoridades no primeiro dia de outubro. No cárcere, onde, em abono da verdade, dispunha de algumas comodidades e, sobretudo, não se encontrava exclusivamente confinado a uma cela, Camilo recebeu a visita de D. Pedro V, por duas ocasiões, e escreveu, no prazo record de 15 dias, o seu mais lido e popular romance, Amor de Perdição. Processo de Camilo Castelo Branco (1859-1861), do acervo do Tribunal da Relação do Porto
Em outubro de 1861 Ana e Camilo foram julgados e absolvidos por influência do Dr. José Maria Teixeira de Queiroz, pai de Eça, conselheiro do Tribunal, que visitou o escritor várias vezes e o ajudou a preparar a estratégia de defesa neste intrincado processo. Camilo referir-se-á a ele sempre como o "nosso honrado Queiroz" ou o "boníssimo Queiroz", facto que, no entanto, não o impedirá de entrar em polémica com o filho, anos mais tarde.
Em 1862 o casal foi viver para Lisboa, onde nasceu, em 1863, o seu filho Jorge Camilo Plácido de Castelo-Branco (26 de junho). Nesse ano sobreveio a morte de Pinheiro Alves e o seu "filho" legal, Manuel Plácido, herdou a casa de São Miguel de Ceide, em Famalicão. Foi para esta casa que em 1864 a família se mudou, e onde nasceria, em 15 de setembro, o terceiro filho do casal, Nuno Plácido de Castelo-Branco. Jorge veio a sofrer de alcoolismo e Nuno teve comportamentos desregrados na sua juventude. Camilo vivia uma época de intenso labor, escrevendo sem cessar e alcançando notoriedade pública. Contudo, a residência fixa em Famalicão não afastou Camilo do Porto. Nesta cidade passou várias temporadas, continuando a frequentar livrarias e teatros. Ia a banhos em Leça da Palmeira e na Foz, e, finalmente, formalizou a sua ligação com Ana Plácido, com quem casou, na Invicta, em 9 de março de 1868. Habitou na Rua de Santa Catarina e não deixou de se deslocar, com a família, a Lisboa (onde o encontramos em 1869) e a Coimbra (onde viria a estar em 1875), sob o pretexto de cuidar da educação dos filhos.
Ana Plácido revelou-se, também, uma fiel companheira de letras. Com ela, Camilo fundou e dirigiu, em 1868, A Gazeta Literária do Porto. Em 1872, recebeu D. Pedro II, imperador do Brasil, na sua casa da Rua de São Lázaro, no Porto, e queimou o romance A Infanta Capelista. Em 1873, viajou entre Braga, Porto, Póvoa de Varzim e Lisboa. Em 1878, pioraram os problemas de visão e foi ferido num acidente de comboio entre São Romão e Ermesinde.
Os anos oitenta foram bastante turbulentos para este volátil personagem. Logo em 1881 participou no rapto de uma órfã para a casar com o seu filho Nuno (1881), com quem mantinha já uma relação difícil e que acabou por expulsar de casa (1882) numa altura em que se agravavam ainda mais os seus problemas de visão. Em 1883, leiloou a biblioteca pessoal, em Lisboa, devido a dificuldades financeiras, e entrou em polémica com o lente de Coimbra, Avelino César Calisto (que criticara o que ele escrevera sobre o Marquês de Pombal) e José Maria Rodrigues (que defendera o lente), na chamada Questão da Sebenta, considerando que "golfam dali gorgolões de ignorância, de tartufismo e deslealdade". Foi mais uma no extenso rol de pelo menos trinta e seis polémicas que se lhe conhecem. Algumas destas discussões redundaram em ameaças à sua integridade física. E, perante a insistência com que lhe eram dirigidas, comprou um revólver para se defender. Irónica e tragicamente, viria a usá-lo sete anos mais tarde para se suicidar. Entretanto, no dia 27 de junho de 1885, após 15 anos de espera, o Rei conferiu-lhe o título de Visconde de Correia Botelho. Dois anos depois tornou a viajar a fim de tratar do seu problema de saúde, que se agravava cada dia.
Em 1889, por iniciativa de João de Deus, Camilo foi homenageado em Lisboa, no seu dia de anos, por um grupo de intelectuais (artistas, escritores e estudantes). Nesse mesmo ano foi visitado, mais uma vez por D. Pedro II, então ex-imperador do Brasil.
No dia 1 de junho de 1890, depois de uma derradeira consulta num especialista de oftalmologia, o Dr. Edmundo Magalhães Machado, que matou a última réstia de esperança de curar a cegueira, suicidou-se, como já antes havia ameaçado, com um tiro disparado sobre o ouvido direito. Foi sepultado no jazigo do seu amigo Freitas Fortuna, no cemitério da Lapa, no Porto, lugar que previamente escolhera para sua última morada.
Deixou-nos uma excecional, multifacetada, polémica e amargurada obra literária, a mais extensa e variada da Língua Portuguesa, com cerca de cento e trinta e dois títulos, distribuídos entre o drama, a poesia, o romance, a novela, o conto, o jornalismo, a polémica, os ensaios (biográficos e históricos), a crítica literária, as traduções e a epistolografia, que reflete o seu intenso percurso de vida, os lugares por onde passou, em especial o Porto, os gostos do Público: o romantismo e ultrarromantismo do início da carreira e o realismo e naturalismo do final, recursos estilísticos estes que usou sobretudo para provar aos seus detratores que os conseguia manejar melhor do que os próprios naturalistas-realistas e as exigências dos editores.
A sua grandeza, no entanto, ressalta na novela passional e como novelista urbano, apesar de não se alhear dos temas campestres aos quais conferiu um especial sentido de humanidade e um intenso perfume psicológico, que inspiraram grandes nomes da literatura portuguesa, como Abel Botelho e Aquilino Ribeiro.
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