ENTRE O GRITO E O INTERVALO

Cresci a olhar para a Guernica. Era uma reprodução com uma moldura discreta num local de passagem ainda mais discreto, por cima de um vão onde guardávamos vassouras, espanadores e sacos plásticos. Foram muitas as vezes que perguntei à minha mãe O que é aquilo, e outras tantas as que a ouvi falar da Guerra Civil Espanhola. Fascinava-me a força daquela pintura que, com formas distorcidas, representava o colapso de uma sociedade inteira. Conseguia ouvir os gritos do cavalo, os urros da mãe com o filho morto, os uivos da mulher em chamas (e a mudez atónita do soldado desmembrado). Foi talvez o primeiro momento em que senti que a arte não representa a vida: amplifica-a.


Ouvi depois muitos outros gritos. O de Munch foi talvez para mim o mais terrível, pois aí a violência não vem de fora, resulta da própria condição de existir. Há ainda o horror absoluto de Saturno Devorando um Filho. Demorei-me longos minutos diante do quadro de Goya, no Prado, perplexa perante uma boca que, em vez de emitir sons, se transforma em abismo.


Felizmente, também há ruídos bons na arte: vento, vozes no verão, o mar contra as rochas, o rumor confortável de uma conversa demorada ou de uma cena doméstica tranquilizadora. E juro que ouço o curso lento do rio em Ofélia, de Millais.


Mas há também pinturas que buscam o silêncio. Tenho visitado amiúde a exposição de Francisco Laranjo nas Galerias da Casa Comum. Atravessando as salas, acompanhamos o movimento de retração do pintor em direção ao gesto mínimo, à rarefação da cor, ao grafema incompleto. Dizem os críticos – e o próprio artista também o terá sugerido – que Laranjo buscava o infinito. Acredito que sim. Encontro essa procura na persistência do seu gesto, na espessura das cores, nas séries em que tenta variações de um mesmo tema. Mas estas são convicções de quem nas suas obras demora o olhar.


A exposição de Laranjo é visitada diariamente por dezenas – por vezes centenas – de pessoas. Mas uma boa parte percorre as salas em poucos minutos. É compreensível: a obra não apresenta uma narrativa; e o abstrato provoca desconforto, pois não vem com manual de instruções.


Mas quem vier com tempo compreenderá como, ao descobrir o Japão, Laranjo descobre o infinito enquanto vazio. A sua obra dá então corpo ao “Ma”, o conceito japonês que significa literalmente intervalo, entre-espaço, pausa. O Ma é o vazio ativo e fértil entre as coisas. Na música, é a pausa que dá sentido ao som; na arquitetura, o espaço entre pilares; na pintura, a área não pintada que estrutura o que é pintado. É nesse vazio que a obra de Laranjo dialoga com o mundo. 

 
Na minha última visita à exposição, demorei-me diante de uma tela branca com grafemas inacabados. Disposta a escutá-la com atenção, fiquei perplexa quando, por momentos, julguei ouvir o murmúrio do meu próprio pensamento.


Depois dos gritos de Guernica, depois do abismo de Goya, depois do rumor do mundo, concluí que Laranjo nos oferece outra coisa: o espaço onde o som regressa ao seu estado mais puro, o da nossa consciência.


Talvez fosse isso que o artista queria dizer quando sugeriu que a arte serve para nos conhecermos a nós próprios.



Fátima Vieira
Vice-Reitora para a Cultura e Museus

U.Porto quer traçar o perfil cultural da comunidade académica

Inquérito disponível até 25 de março visa  conhecer a oferta cultural que os membros da U.Porto gostariam que a  Universidade lhes proporcionasse.

Os resultados do inquérito servirão para ajustar as políticas culturais da Universidade às preferências da comunidade. Foto: U.Porto

É um questionário que se destina a todos os membros da Universidade do Porto: docentes, investigadores, técnicos, estudantes e alumni. O objetivo? Conhecer a oferta cultural que gostariam que a Universidade lhes proporcionasse.  É teatro? É cinema? Será mais dança, ou visitar exposições? E que tal  uma oficina ou um workshop? Ou, quem sabe, participar em clubes de  leitura? A ideia é ouvir a opinião de todos para que a oferta possa ser o mais abrangente possível. Para isto, basta preencher o Inquérito do Perfil Cultural à Comunidade Académica que estará acessível até 25 de março.


Os resultados deste inquérito vão permitir ajustar as políticas culturais da Casa Comum e da Universidade às preferências da comunidade académica, tornando a sua estratégia mais inclusiva e participativa.


Deste trabalho resultará também um Plano Estratégico para a Cultura que possa, efetivamente, estimular, promover e ampliar a oferta de  projetos, atividades e práticas artísticas e culturais na instituição.


Acessível a partir do portal da Casa Comum da U.Porto, o questionário é anónimo e demora aproximadamente 10 a 15 minutos a preencher.


O Inquérito do Perfil Cultural à Comunidade Académica é uma  iniciativa da Vice-Reitoria para a Cultura e Museus da Universidade do  Porto em parceria com o Observatório de Artes e Cultura no Ensino  Superior, sedeado no Instituto de Sociologia da Universidade do Porto  (IS-UP), o Centro de Psicologia da Universidade do Porto (CPUP) e o CRIA/PPG-Artes/EBA da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, com  financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e apoio do  Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (MCTI/CNPq). 


Fonte: Notícias U.Porto

Fevereiro e março na U.Porto

Para conhecer o programa da Casa Comum e outras iniciativas, consulte a Agenda Casa Comum ou clique nas imagens abaixo.

Francisco Laranjo: Porto, Dresden, Nagasaki

11 DEZ'25 a 28 FEV'26
Exposição | Casa Comum 
Entrada Livre. Mais informações aqui

Eu sou o meu mundo, corpo vegetal | Exposição de Graça Sarsfield 

10 DEZ'25 a 21 MAR'26
Exposição | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Visitas Orientadas à exposição Francisco Laranjo: Porto, Dresden, Nagasaki

Até 28 FEV'26 
Visitas orientadas | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

O Processo, de Hélder Filipe 

 27 FEV'26 | 18h00
Cinema | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Tarrafal, 1975. O Campo do Silêncio, de Sandra Inês Cruz | Apresentação do livro 

23 FEV'26 | 18h00 
Apresentação de Livro | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Lançamento de UMA PRIMAVERA EM ITÁLIA, de Abel Salazar

Apresentação de Livro | Casa Comum
24 FEV'26 | 18h00
Entrada Livre. Mais informações aqui

Na Rota do Yankee Clipper, de José Correia Neves 

25 FEV'26 | 18h30
Apresentação de Livro | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Guerra, Mentiras e Direito Internacional, de Francisco Pereira Coutinho | Apresentação do livro

28 FEV'26 | 17h00
Apresentação de Livro | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

A Dragon Flew Over | documentário, conversa e  demonstração do canto tradicional da Bulgária 

24 FEV'26 | 18h00
Apresentação de Livro | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

CIDAAD – III Ciclo de Cinema Alemão | Corpos, Vozes e Lutas

06, 13, 20 e 27 MAR'26 | 18h30
Cinema | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Angola depoimento

07 MAR'26 | 16h00
Cinema, conversa | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Next Stop is Yesterday | António Olaio e Manuel Guimarães 

07 MAR'28 | 18h00
Música | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Sob mares frágeis, de Pedro Camanho

De 14 JAN a 29 MAR'26
Exposição | Galeria da Biodiversidade - CCV
Entrada Livre. Mais informações aqui 

Gemas, Cristais e Minerais

Exposição | Museu de História Natural e da Ciência U.Porto
Entrada Livre. Mais informações aqui 

Sombras que não quero ver

 DEZ'25 a MAR'26
Exposição | FMUP
Entrada Livre. Mais informações aqui

Corredor Cultural

Condições especiais de acesso a museus, monumentos, teatros e salas de espetáculos, mediante a apresentação do Cartão U.Porto.
Mais informações aqui

Há novos podcasts no espaço virtual da Casa Comum

 193. Sou um guardador de rebanhos, Fernando Pessoa

. “Sou um guardador de rebanhos”, de Fernando Pessoa, in Obra Completa de Alberto Caeiro, 2024, pp. 47 e 48.

 9. Interlúdio: a tecnologia aeronáutica no tempo do Pátria, com Paulo Lage

O Breguet 16 jaz ferido de morte nas areias do deserto de Thar, com Macau ainda longe das suas asas. Mas paremos um pouco para perceber que a tecnologia aeronáutica da  época tinha limites que tornavam o objetivo idealizado pelos  portugueses, mesmo com um excelente mecânico a bordo, muito difícil de  alcançar. Essa era uma realidade que partilhavam todos os aventureiros  voadores que, nesse ano de 1924, cruzavam os ares do globo, apesar de as  condições particulares em que o faziam serem muito diferentes. Paremos, então, para uma conversa com Paulo Lage, engenheiro  aeronáutico e docente universitário, que nos explicará a que tecnologia  Brito Pais, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia confiavam as suas vidas.  E avisemos que, à viagem do Pátria, Paulo Lage não está apenas ligado  pela história da aviação, mas também pelo sangue.


Mais podcasts AQUI


Alunos Ilustres da U.Porto

Constantino Fernandes

Constantino Fernandes (1878-1920)

Constantino Álvaro Sobral Fernandes, filho de Eduardo José Fernandes (1830-1914) e de Emília das Dominações Sobral Fernandes, nasceu em Lisboa a 29 de setembro de 1878.


Foi aluno premiado do Curso Geral de Desenho, que frequentou entre 1892 e 1895, e do Curso de Pintura Histórica (1895-1899), da Escola de Belas Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Simões de Almeida Júnior e de Veloso Salgado, respetivamente. Uma vez concluída a sua formação académica inicial, candidatou-se ao lugar de pensionista do Estado. Contudo, a candidatura não pôde ser aceite por falta de vagas. Mais tarde, e já na Escola de Belas Artes do Porto, concorreu novamente ao pensionato estatal, na classe de Pintura Histórica (1901-1902), juntamente com Acácio Lino, Manuel José Teixeira da Silva e Raul Maria Pereira. Ficou colocado em primeiro lugar.


Ingressou na École des Beaux Arts, de Paris, instalando-se no n.º 2 da Rue d’Odessa, 14.º bairro. Frequentou a Academie Julien, sob orientação de Jean-Paul Laurens (1838-1921) e Fernand Cormon (1845-1924) e foi admitido no Salon de la Société des Artistes Français em 1903.


Entre 1902 e 1906 enviou correspondência a partir de Paris: cartas, relatórios, desenhos e pinturas. Durante o quarto e último ano do pensionato fez uma viagem de estudo a Itália, Holanda e Madrid, executando cópias dos grandes mestres da pintura europeia. Regressou a Lisboa em maio de 1906.


Constantino Fernandes foi retratista e pintor de cenas históricas. Dedicou-se também à técnica da água-forte. Participou na exposição do Grémio Artístico (1899), onde ganhou uma 2.ª medalha, e na exposição portuguesa do Rio de Janeiro (1908). Expôs na Sociedade Nacional de Belas Artes (1901, 1902, 1913, 1915-1918 e 1920).


Da sua produção pictórica podem destacar-se o Retrato de D. Pedro V (1908), o Paço Ducal de Vila Viçosa e o Tríptico O Marinheiro (1913), cedido pelo Museu de Arte Contemporânea ao Museu do Fado (Lisboa).


Constantino Fernandes está representado no Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto), no Museu do Chiado (Lisboa), na Casa-museu Teixeira Lopes (Vila Nova de Gaia), na Câmara Municipal de Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes e em várias coleções particulares.


Constantino Fernandes foi também matemático e inventor.


Morreu em Lisboa a 21 de junho de 1920.


Além do trabalho escultórico, fez cenografia e figurinos para o Ballet Gulbenkian e para o Teatro Nacional de S. Carlos.


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