TESTAMENTO VITAL CULTURAL

Às vezes falamos da velhice, do tempo depois da reforma em que tu e eu faremos o que a vida deixou por fazer. Mas às vezes penso no tempo depois desse tempo, em que não saberemos sequer se o outro existe – naquele ponto em que, se lá chegarmos, passaremos de velhinhos a velhos. Sei que nos vão pespegar frente a um televisor – em casa ou num lar, tanto faz – e nos vão deixar horas a fio a olhar para o ecrã.


Lembro-me de que foi assim com a avó dos meus primos. Com a vida anestesiada pelo Alzheimer nas suas últimas décadas, o ar ausente apenas se transformava quando lhe penteavam os longos cabelos prateados para os reunir num puxo altaneiro. O seu rosto era então tomado por uma expressão de deleite – julgo que era mesmo a única coisa que lhe dava prazer. Passava, depois, o dia inteiro diante do televisor. Por volta da nossa hora do lanche, vinham buscá-la para jantar e ninguém queria saber se estava a meio de um filme ou de uma notícia. “Não importa”, diziam, “ela não percebe nada”. Mas eu tinha já visto filmes em que pessoas em coma reagiam a estímulos externos – por que razão não havia de ser assim com a avó dos meus primos?


E agora que estou a pensar em como será no tempo em que formos velhos, o melhor será deixar claro: detesto musicais!  Suavizem-me, por favor, esse purgatório na terra mudando o canal aos primeiros sons de alguém que resolva cantar a propósito de nada. A minha aversão vem de pequena e é mesmo visceral.


E por isso deixo aqui lavrado o meu Testamento Vital Cultural: leiam-me romances, contos e poemas, ponham-me a ouvir boa música (de preferência Satie, Genesis e Queen). Na televisão, quero ballet (de Margot Fonteyn a Pina Bausch), teatro (as peças de Shakespeare narram o mundo inteiro e adoro Tiago Rodrigues), documentários do canal Arte… e também mistérios policiais (para eu ver até ao fim).


Ah, e – por favor – penteiem-me o cabelo!


Fátima Vieira


Vice-Reitora para a Cultura e Museus


P.S. - Já preencheu o Inquérito ao Perfil Cultural da U.Porto? Dirige-se a todos: estudantes, docentes, investigadores, técnicos e alumni. É a sua oportunidade para dizer que cultura quer ter na nossa Universidade.

Festival Porto Femme 2026 arranca na U.Porto

As sessões "de aquecimento" do Festival  Internacional de Cinema acontecem nos dias 2, 10 e 17 de abril, na Casa  Comum. Entrada livre.

Mulheres, Terra, Revolução vai passar na Casa Comum no dia 17 de abril. Foto: DR

Aproximamo-nos da 9.ª edição do Festival Internacional de Cinema Porto Femme que, este ano, tem como tema o Trabalho. E vai ser na Casa Comum (à Reitoria) da Universidade do Porto que o Festival fará o seu  “aquecimento”, num programa que inclui três sessões abertas ao público, a  decorrer ao final da tarde dos dias 2, 10 e 17 de abril.


As duas primeiras sessões revisitam algumas propostas de edições anteriores do Porto Femme, com filmes que abordam o tema do trabalho. A  última sessão funciona já como uma entrada na 9.ª edição, apresentando um primeiro filme da competição temática deste ano, dedicada a este  tema.


No dia 2 de abril, quinta-feira, a partir das 18h00,  as luzes vão apagar-se para ficarmos a conhecer de perto alguns dos  cenários que enquadram diferentes situações laborais de mulheres que  conciliam a maternidade com o desempenho profissional. Mother and Milk, da finlandesa Ami Lindholm, abre caminho para o processo mental que  acompanha a aventura da maternidade - e como este acontecimento transpira  para todas as esferas da vida, desde o campo profissional até aos  relacionamentos mais pessoais, transformando a mulher num agente que perpetua uma eterna cadeia de gerações.


Breasts é uma proposta que nos chega dos  EUA. Eva Contis apresenta-nos uma mãe solteira, forçada a lidar com um  contexto profissional difícil, onde é injustamente acusada de assédio  sexual. Labor, de Cecilia Albertini, coloca-nos perante outra situação complexa. Uma mulher solteira,  convidada a ser mãe de substituição, depara-se com a notícia de que o  bebé que está a gerar poderá ter uma doença genética. E ela enfrenta um  dilema angustiante quando lhe é pedido que interrompa a gravidez.

Breasts, de Eva Contis, será exibido no dia 2 de abril. (Foto: DR)

A fragilidade e angústia de quem procura sobreviver fora do próprio país é o cenário que nos propõe Zoe Salicrup. Marisol é  uma jovem mãe que luta para construir uma vida para si e para a filha.  Usa o automóvel de uma amiga, fazendo-se passar por ela, para fazer o  transporte de pessoas, até que um passageiro a acusa de estar em situação irregular. E o pior pesadelo torna-se realidade.


Ainda no mesmo dia, Store Policy, de Sarah  Arnold, levanta o véu a um cenário de violência que ocorre em ambiente  laboral. Lea, a personagem que iremos conhecer, começa a trabalhar como  caixa numa grande cadeia de supermercados, local onde se vê obrigada a  gerir situações que não conseguiu prever.


No dia 10 de abril, às 18h00, vamos fazer um  mapeamento das condições de trabalho em áreas e geografias diversas.  “Não tem como eu deixar a mulherzinha em casa. Eu sou uma mulher e estou  trabalhando aqui”, diz-nos Thai Robaina, Diretora, Operadora e  Assistente de Câmara. “Foram poucos os sets que eu participei que tinham  outras mulheres na minha área.” Este é o testemunho de Kali Robaina,  Assistente de Elétrica e Maquinaria. “Se a gente quer deixar o set mais  plural, eu vou indicar as minhas amigas pretas, minhas amigas mulheres,  minhas amigas trans”, acrescenta Evelyn Santos, Técnica de Som e  Microfonista. Mulheres na técnica no mercado audiovisual: Polifonia Audiovisual (Polyphony – Women in Audiovisual Industry),  de Thais Robaina, apresenta-nos a realidade das mulheres (uma minoria) e  os desafios que enfrentam neste mercado com assimetrias de género e de  diversidade. Framed, de Luiza Campos, é outra proposta que nos chega do Brasil.

A mulher na indústria cinematográfica é um dos temas a abordar nesta 9,ª edição do Porto Femme. (Foto: DR)

Ainda no mesmo ramo, como será a vida de uma assistente de direção de  arte no set de uma telenovela de época otomana? Num dia difícil (A Hard Day in the Empire), Cansu não consegue corresponder às exigências do realizador. Os caprichos e os pedidos intermináveis levam a um momento irreversível que  corresponde ao ponto de máxima tensão, desta curta que nos chega da  Turquia, pelo olhar de Sezen Kayhan.


A sessão termina com um, ou vários pontos de exclamação. O mesmo é  dizer: Hoje, basta! Ser mãe, secretária, amante, ama e figura secundária  do protagonista masculino. She’s the Protagonist, de Sarah Carlot Jaber, é a curta que antecede o fecho das cortinas.

Mulheres de Abril

No último dia destas “sessões de aquecimento”, vamos conhecer  histórias reais de mulheres durante a Revolução de Abril e o papel que  desempenharam este período. Mulheres, Terra, Revolução (Women, Land, Revolution), de Rita Calvário e Cecília Honório, é a proposta para dia 17 de abril, às 17h30.


Entre os grandes latifúndios a Sul, e os projetos agrícolas mais  familiares a Norte, as mulheres organizaram-se. Participaram na Reforma Agrária e resistiram à ditadura, transformando as comunidades onde  viviam. Este documentário cruza fontes escritas e testemunhos em viva  voz destas mulheres rurais que foram protagonistas silenciosas da  mudança.


São histórias de resistência, de fortalecimento de uma voz  comunitária e de edificação do poder popular. São também testemunhos de  emancipação feminina. Após o filme terá lugar uma conversa entre o  público e a realizadora Rita Calvário.


As sessões têm entrada livre, ainda que limitada à lotação da sala. Para mais informações, consultar o portal da Casa Comum.


O Festival Internacional de Cinema Porto Femme tem  como missão dar visibilidade às mulheres e às pessoas não-binárias,  através do Cinema. Esta 9.ª edição irá decorrerá entre 20 e 26 de abril  em vários espaços da cidade do Porto. Para mais informações, consultar  o website do Festival. 


Fonte: Notícias U.Porto

Histórias da Cidade do Porto inspiram número 3 da Revista Pá

O tema para o próximo número da revista está lançado. Os interessados devem submeter os seus trabalhos até 26 de maio de 2026.

A Revista PÁ Poesia & Outras Artes é uma iniciativa da Casa Comum e da U.Porto Press- Foto: DR

É um desafio que lançamos a estudantes, staff, professores e  investigadores. Escritores, artistas plásticos, fotógrafos, designers, dançarinos, atores, profissionais, aprendizes ou amadores. Todos! O próximo número da Revista PÁ Poesia & Outras Artes terá como tema Histórias da Cidade do Porto. Os trabalhos poderão ser enviados até ao próximo dia 26 de maio.


Vamos todos pensar a cidade onde vivemos? Que histórias, secretas ou  não, ela nos conta? Como fez e faz parte da construção da nossa própria  história e identidade? Já nos apaixonámos, desiludimos, rimos e chorámos  ao colo do emaranhado de ruas graníticas e estreitas. Podemos fazer um mapeamento emocional da cidade. Dizer o que mais nos fascina ou comove. O que mais nos irrita também. Que paisagem (e há tantas) nos fazem voar a  imaginação?


Então, para onde a imaginação for, é por onde começar a contar a  nossa história da cidade do Porto. Pode ser através da palavra, com um  poema que tenha até 30 versos. Ou um miniconto até 300 palavras. Um  texto dramático curto é outra opção. Se for através do desenho, da  pintura, da escultura ou da instalação, partilha com todos esta sua forma de ver e sentir a cidade. E com fotografia também, claro.


Também é possível recorrer à imagem em movimento através da  realização de uma curta ou de um documentário. E porque não uma música,  uma dança ou uma pequena encenação? Ou seja, contar uma história  utilizando o próprio corpo como um veículo performativo? Perfeito.


Uma condição fundamental: o que se apresentar a concurso tem de ser original. Não pode já ter sido publicado.

Como participar?

Os trabalhos devem ser enviados até 26 de maio de 2026, por e-mail, para cultura@reit.up.pt, com o título “REVISTA PÁ – CONTRIBUTO“.


No corpo do e-mail deverá escrever-se o seguinte: “Autorizo a  Universidade do Porto a publicar o meu trabalho em diferentes plataformas e suportes (online, publicação em papel, exposição)”.


Em anexo, num documento de texto (TXT ou DOC), é onde se insere o  trabalho na íntegra. Tratando-se de imagens ou vídeo (formato JPEG, MP4  ou outro formato standard) poderá acrescentar-se um link de WeTransfer  ou outro serviço de envio de informação creditado no corpo do e-mail. Há  mais dois elementos a não esquecer: uma sinopse do trabalho, com um  máximo de 100 palavras, e uma minibiografia, com um limite máximo de 50 palavras. É também obrigatório associar um contacto telefónico.


Todos os trabalhos que obedeçam a estas normas serão publicados no website da Casa Comum da Universidade do Porto. O próximo número da Revista divulgará uma seleção dos trabalhos.


Quem pretender colaborar com o Festival Histórias da Cidade do Porto  também o poderá fazer. O Festival vai realizar-se em junho deste ano (em data a anunciar), mas já se podem ir adiantando mais informações através do e-mail cultura@reit.up.pt.

Sobre a Revista Pá

A Revista PÁ Poesia & Outras Artes é uma iniciativa da Casa Comum / Projeto de Intervenção Cultural e da U.Porto Press / Editora da Universidade do Porto.


No número zero da Revista foi publicada uma seleção de dez poemas que Ana Luísa Amaral, Figura Eminente da U.Porto, dedicou à filha. Foi em resposta a esta primeira publicação que recebemos os contributos para o criação do número um.


O número dois foi dedicado ao Bem-Estar e será lançado em breve, com os trabalhos premiados do último desafio. Vão ser também divulgados os Haikus resultantes de uma oficina, que decorreu em julho de 2025, com David Rodrigues, que tem uma vasta obra poética, resultante desta “formula” de origem japonesa. 


Fonte: Notícias U.Porto


Abril na U.Porto

Para conhecer o programa da Casa Comum e outras iniciativas, consulte a Agenda Casa Comum ou clique nas imagens abaixo.

PORTO FEMME WARM-UP SESSIONS

02, 10 e 17 ABR'26 
Cinema | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Oficinas de Escrita Criativa | Rosa Alice Branco 

07, 28 ABR e 26 MAI'26 | 18h30
Oficina, poesia | Casa Comum
Participação gratuita. Mais informações e inscrições aqui

E se?… Constelações de Modos de Viver o Espaço Urbano

Até 29 SET'26 
Exposição | Fundação Marques da Silva
Mais informações aqui

FRONTISPIECE | PRECIPICE

Até 27 JUN'26 
Exposição | Fundação Marques da Silva
Mais informações aqui

Sombras que não quero ver

 DEZ'25 a ABR'26
Exposição | FMUP
Entrada Livre. Mais informações aqui

Gemas, Cristais e Minerais

Exposição | Museu de História Natural e da Ciência U.Porto
Entrada Livre. Mais informações aqui 

Encontro Gonçalo Sampaio

01 ABR'26 | 16h00
Encontro | Jardim Botânico da U.Porto
Participação gratuita. Mais informações e inscrições aqui 

Corredor Cultural

Condições especiais de acesso a museus, monumentos, teatros e salas de espetáculos, mediante a apresentação do Cartão U.Porto.
Mais informações aqui

Crime da Rua das Flores inspira nova minissérie da FMUP

Reconstrução do mediático caso do final do século XIX, que envolveu um antigo professor da Escola Médico-Cirúrgica  do Porto, estreia a 2 de abril.

Mais de um século depois, a história de Vicente Urbino de Freitas ainda apaixona especialistas e curiosos. Foto: DR

O Crime da Rua das Flores é o título da minissérie produzida pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que revisita um dos episódios mais marcantes da história da medicina portuguesa e da cidade portuense.


Ao longo de cinco episódios, Ricardo Dinis Oliveira, professor da FMUP e investigador na área das Ciências Forenses, reconstrói os principais contornos da história  de Vicente Urbino de Freitas, proeminente médico e professor da Escola  Médico-Cirúrgica do Porto, acusado de homicídio por envenenamento no  final do século XIX.


A série surge na sequência de mais de  20 anos de investigação, durante os quais foram reunidos centenas de  documentos históricos, culminando na realização da primeira autópsia, em  Portugal, de um cadáver com mais de 130 anos.


O crime, que ocorreu em 1890 e teve  enorme repercussão pública, envolveu figuras de relevo da medicina, da  ciência e da própria cidade, tais como Gouveia Osório (que foi  presidente da Câmara Municipal do Porto), Camilo Castelo Branco (um dos  mais famosos escritores portugueses), António Ferreira da Silva (químico  e professor universitário), Júlio de Matos (referência da Psiquiatria) e  Noel Dragendorff (químico alemão com contributos fundamentais para a  toxicologia e a química forense moderna).

O caso aguçou a curiosidade de Ricardo Dinis  Oliveira, professor da FMUP e reputado investigador na área das Ciências  Forenses. (Foto: Miguel Matias Alves/FMUP)

Caso marcou a história da medicina

Para além do interesse histórico, este caso assume particular relevância na medicina portuguesa, uma vez que constituiu um marco na afirmação da Medicina Legal e da Toxicologia Forense. Foi também a partir deste episódio que surgiu o primeiro perfil de Psiquiatria Forense, elaborado por Júlio de Matos. 


Acusado de envenenar os sobrinhos com  amêndoas e bolos típicos da Páscoa, Vicente Urbino de Freitas tentou por  várias vezes demonstrar a sua inocência, tendo contado com a ajuda do  seu inseparável amigo Camilo Castelo Branco, com quem se cruzou na  escola médica do Porto.


O caso gerou intensa controvérsia na  época e assumiu dimensão internacional, com a publicação de diversas  notícias na imprensa europeia e a participação de peritos estrangeiros  na avaliação das provas criminais.


Embora tenha sido escamoteado durante o primeiro centenário, este episódio é agora recuperado no âmbito das comemorações do Bicentenário da FMUP,  numa forma de a instituição reconciliar o seu passado com o presente,  incluindo todos os seus feitos e mistérios. Segundo Ricardo Dinis  Oliveira, “o desfecho deste caso terá, inclusive, contribuído para a  criação da Universidade do Porto anos mais tarde”.


A minissérie O Crime da Rua das Flores estreia no dia 2 de abril – data em que se assinalam 136 anos do  fatídico envenenamento – e estará disponível nas plataformas de streaming YouTube, Spotify e Apple Podcasts, bem como no site da FMUP. 


Fonte: Notícias U.Porto

Há novos podcasts no espaço virtual da Casa Comum

196. Ao meu olhar, Fernando Pessoa

“Ao meu olhar”, de Fernando Pessoa, in Obra Completa de Alberto Caeiro, 2024, pp. 33, 34.

2. Ser arquiteto é… ser cidadão, com António Silva Tiago

António Silva Tiago, Presidente da Câmara Municipal da Maia, é engenheiro civil de formação. Desde o primeiro momento que levou a sua  admiração pela arquitetura para o seu trabalho na Autarquia. É neste  âmbito que conhece João Álvaro Rocha. Silva Tiago dá-nos exemplos  concretos de como o exercício de cidadania também passa pela forma de  fazer arquitetura, quando a constante exigência e qualidade são  norteadas pela contribuição para o bem comum. Silva Tiago, presidente da Câmara Municipal da Maia, é engenheiro civil de formação, mas não esconde a sua paixão pela arquitetura. Inicia  a sua atividade de autarca como deputado à Assembleia Municipal entre  1985 e 1989, sendo neste último eleito como vereador da Câmara Municipal. Como vereador da área do urbanismo e ambiente, procurou,  desde o início, que a qualidade arquitetónica e urbana fosse uma marca  distintiva do município da Maia. É esta característica que o aproxima  dos melhores arquitetos, com quem convive para além da estrita relação  profissional. A sua larga experiência, capacidade negocial e sentido de  serviço público, levam-no a adotar processos pioneiros, que se traduzem  na boa arquitetura e qualidade de vida, hoje muito elogiada. É em dois destes processos, o Programa Especial de Realojamento (PER) e o Metro,  que se cruza com João Álvaro Rocha, construindo com ele uma cumplicidade  que se alarga à comunidade técnica municipal e a outras colaborações e projetos. Após a morte de João Álvaro Rocha, em 2017, acolheu com entusiasmo a  proposta de criação de um Centro de Documentação (CDIUJAR) nas  instalações do escritório de JAR, tendo assinado com a Família do Arquiteto um contrato de doação do acervo de JAR ao Município. É neste contexto que é criada a APJAR, que colabora com a Câmara Municipal, para  o tratamento e divulgação deste arquivo.
Este episódio tem o apoio da Escola Secundária da Maia.


Mais podcasts AQUI


Alunos Ilustres da U.Porto

Diogo de Macedo

L’adieu / Le pardon, 1921, bronze, Casa-Museu Teixeira Lopes/Galerias Diogo de Macedo. Makeup design © Egídio Santos

Diogo Cândido de Macedo nasceu no Largo de S. Sebastião, freguesia de Mafamude, concelho de Vila Nova de Gaia, a 22 de novembro de 1889.


Era filho de Diogo Cândido de Macedo, descendente dos Macedos do Peso da Régua, e de Maria Rosa do Sacramento. Foi batizado na Igreja Paroquial de S. Cristóvão de Mafamude a 8 de dezembro desse ano.


O seu avô paterno, de nome Diogo José, viveu numa aparatosa casa em Santo Ovídeo, na qual recebeu a família real aquando da visita de D. Pedro V ao Porto. Foi um amante das artes e um dos responsáveis pela entrada de António Soares dos Reis nas Belas Artes.


Diogo foi educado pela mãe e viveu na companhia da avó materna e do irmão Tomás, mais velho 10 anos, que procurava orientar os seus estudos e a sua vida. Com o pai, mestre cigarreiro na Fábrica de Tabacos e tocador de cornetim nos tempos livres, teve pouco contacto. Era o menino da mãe.


A meninice e juventude foram passadas em Gaia, numa casa vizinha das habitações do músico "Macio" e do santeiro Fernandes Caldas, o seu primeiro mestre, com quem aprendeu a desenhar, modelar e esculpir. Tocou cornetim como o pai, mas logo descobriu um interesse maior no violão com o qual se exibia no Grupo Infantil de Mafamude.

Frequentou a Escola das Estafinhas e, depois, a Escola Industrial Infante D. Henrique, no Porto, em horário noturno. Por essa altura, Tomás tentou empregá-lo num escritório. Sem sucesso: Diogo fugiu nos primeiros dias de trabalho. Teixeira Lopes, que morava nas proximidades da família Macedo, tentou então convencer a mãe a deixá-lo seguir Escultura, como era seu desejo.


Em 1902 ingressou precocemente na Academia Portuense de Belas Artes. Por "desatenção ao estudo", chumbou no primeiro ano, tendo, por isso, regressado à Escola Industrial Infante D. Henrique. Em 1906 renovou a matrícula na Academia Portuense de Belas Artes, dedicando-se, desta vez, seriamente, ao curso de Escultura, o qual concluiu em 1911 com a obra Pela Pátria e a classificação de dezoito valores. Nesta escola teve por mestres José Brito e Marques de Oliveira, em Desenho, e António Teixeira Lopes, em Escultura.

Foi um jovem ativo e sociável. Na sua roda de amigos e colegas contavam-se outros artistas como Armando de Basto e Joaquim Lopes.


Em outubro de 1911 viajou para Paris com uma pensão familiar e com uma carta de Oliveira Ramos dirigida a Xavier de Almeida, para que este o guiasse na cidade. Instalou-se num dos ateliês da Cité Falguière, em Montparnasse. Recebeu lições do escultor americano Bartlet nas Academias de Montparnasse, foi aluno de Bourdelle na "Académie de La Grande Chaumière", de Injalbert, na Escola Nacional de Belas-Artes, e foi influenciado, entre outros, pelos pintores Bernard Naudin e Amadeo Modigliani. No período parisiense produziu L'Adieu ou Le Pardon, um grupo escultórico datado de 1920, de sabor neorromântico e forma moderna.

Em 1912 expôs em Lisboa e no Porto, cidade onde passou o Verão, regressando depois a Paris. No início de 1913 participou no Salon e foi noticiado nos jornais portugueses (Jornal de Notícias e Montanha). Porém, nem tudo corria bem. Debatia-se com dificuldades económicas e pessoais que, no entanto, não o impediram de visitar a Bélgica, para o que recorreu às economias amealhadas e ao patrocínio da mãe. Em maio, participou na Exposição Anual da Sociedade de Belas-Artes do Porto. Continuou a esculpir e a pintar e desfrutou da vida boémia parisiense.


No verão desse ano voltou ao Porto. Mais famoso. Expôs na Galeria da Misericórdia e concorreu a um lugar de professor de segunda cadeira da Escola de Belas Artes do Porto, posição da qual acabou por desistir.


Dirigiu-se, então, a Lisboa, daí partindo, mais uma vez, para a capital francesa, onde trocou a morada na Cité Falguière pela Rua Bara. Durante esse período, esculpiu e pintou aguarelas.


Um mês após o início da I Guerra Mundial voltou ao Porto. Expôs no Ateneu Comercial e no átrio do Palácio da Bolsa, onde a sua obra Rajada foi pretendida - embora não adquirida - pela Câmara do Porto, acontecimento que levou o seu autor a destruí-la.


Em 1915, e na mesma cidade, produziu três grandes relevos (A Dor, O Amor e O Ódio) e duas cariátides para o Teatro de S. João, participou no 1.º Salão dos Humoristas, no Jardim Passos Manuel, onde apresentou desenhos sob o pseudónimo de Maria Clara, e colaborou no Jornal A Tarde.

Nos anos seguintes (1916-1919) dividiu-se entre o Porto e Lisboa e continuou a expor, individual e coletivamente, no Palácio da Bolsa, na Santa Casa da Misericórdia, no já desaparecido Palácio de Cristal, no Porto, e na Liga Naval e na Sociedade de Belas Artes, na capital.


Em 1918 passou uma temporada na Figueira da Foz, no palácio da família Sotto-Mayor, para a qual já havia feito o busto de uma criança. Nesta casa, conheceu D. Ana Sotto-Mayor, com quem casou em março de 1919, à revelia dos seus familiares.


No início de 1920, depois de se reconciliar com os Sotto-Mayor, partiu para França, na viagem passando por Bayonne, Biaritz e Villa Petite Jeanne. Por fim, fixou-se em Paris, no mês de março de 1921. Em 1922 visitou a Alemanha.


Nesta fase, que foi rica em trabalho e vida social, preparou um álbum sobre costumes tradicionais em colaboração com a Ilustração Portuguesa e expôs em Paris e em Portugal, onde organizou a exposição dos 5 Independentes, em 1923.

Em 1926, fixou-se definitivamente em Lisboa, onde continuou a produzir e a exibir a sua (frequentemente) premiada arte, numa época de desafogo económico.


Entre as décadas de 20 e de 30 editou as primeiras publicações, colaborou em jornais e revistas, como no Ocidente, onde, desde 1939, publicou "Notas de Arte". E viajou pela Europa.


De 1939 a 1940 executou Tejo e quatro Tágides para a Fonte Monumental da Alameda Afonso Henriques.


Em 1941, ano em que perdeu a mulher e renunciou à Escultura, estreou-se como conferencista. Entre esse ano e 1944 publicou biografias de artistas, estudos e separatas, escreveu prefácios de catálogos de exposições e integrou júris e comissões. Nesse último ano foi convidado a dirigir o Museu de Arte Contemporânea (atual Museu do Chiado), cargo que aceitou e que manteve até ao fim da vida. Neste Museu, onde sucedeu ao pintor Sousa Lopes (1879-1914), reformulou o espaço expositivo, produziu o primeiro catálogo de arte, iniciou duas séries de monografias: Museu (em 1945) e Cadernos de Arte (1951) e desenvolveu uma política de incorporações de obras.

Em 1946, casou, em segundas núpcias, com D. Eva Botelho Arruda. Passados dois anos, o Ministério das Colónias incumbiu-o de escolher as peças a integrar uma exposição itinerante de Artes, em Angola e Moçambique, que dirigiu e acompanhou. No ano seguinte promoveu uma Semana Cultural Portuguesa em Santiago de Compostela.


Nos anos 50 fez uma viagem de estudo ao Brasil, na companhia da mulher; visitou a ilha de S. Miguel, terra natal da segunda mulher, na sequência de um convite para organizar os processos de classificação dos imóveis de interesse público; voltou a escrever (biografias de artistas, crítica literária e ensaios) e apresentou peças em certames artísticos (na Exposição Bienal Internacional de Veneza de 1950, no Pavilhão Português da Exposição Internacional de Bruxelas de 1958 e na Exposição Retrospetiva de Mário Eloy, na Escola de Belas Artes do Porto).

Morreu em casa, a 19 de Fevereiro de 1959, no n.º 110 da Avenida António Augusto de Aguiar, Lisboa.


U.Porto - Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto: Diogo de Macedo


Eventos - L’Adieu ou le Pardon - Câmara Municipal de Gaia

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