ADOECER DE HUMANIDADE

Aprendo muito com os estudantes. Quando, nas aulas, me falam de livros que leram, fico cheia de curiosidade e procuro lê-los também. Mas é quando sou convidada para júris de mestrado ou doutoramento sobre obras que desconheço – e que, admito, nunca me lembraria de ler – que fico mesmo feliz. Foi o que se passou recentemente com uma tese de doutoramento sobre ficção distópica contemporânea para jovens adultos, com forte inflexão gótica. Trata-se de um conjunto de 18 séries de livros (na sua maioria duologias ou trilogias) que retratam sociedades autoritárias em que personagens femininas adolescentes protagonizam processos de trauma, resistência e agência. Neste caso, sendo-me impossível ler os mais de 50 títulos analisados pela autora, optei por começar pelos primeiros livros de algumas séries. Foi assim que cheguei a Delirium (2011), o título do primeiro volume da trilogia homónima de Lauren Oliver.


Oliver convida-nos a mergulhar na sociedade americana de um futuro próximo, onde o amor, em todas as suas formas – do vínculo familiar à amizade, da afeição à paixão – é considerado uma doença: amor deliria nervosa. A solução para o problema é simples e obrigatória: aos 18 anos, todas as pessoas são submetidas a uma intervenção cerebral que elimina a capacidade de amar, garantindo-lhes, assim, uma vida estável, previsível e sem sofrimento. A história é narrada por Lena Haloway, que vive em Portland, agora uma cidade murada, rigidamente controlada. Lena acredita profundamente no sistema, em parte devido à sua história pessoal: a mãe, considerada “incurável” por não ter conseguido deixar de amar, cometera suicídio.


Nos meses anteriores àqueles a que a narrativa se reporta, Lena aguardara a cirurgia com expectativa e fora submetida a exames médicos, tendo-lhe sido previstos possíveis matches (pares atribuídos para casamentos futuros). Contudo, a partir do momento em que conheceu Alex, considerado um “inválido” por não ter sido submetido à operação, descobriu o amor não como doença, mas como experiência fundamental da vida – incluindo o sofrimento que ele possa trazer. O livro coloca, pois, uma questão crucial: e se, para eliminar o sofrimento, for necessário eliminar também o que nos torna humanos?


Lendo Delirium, lembrei-me de uma outra distopia para jovens adultos – The Giver. O Dador de Memórias (1993), de Lois Lowry, que identifica a memória como o principal problema das comunidades humanas. Numa sociedade que se propõe eliminar tudo o que possa gerar diferença, conflito ou dor, o jovem Jonas, escolhido para receber as memórias do passado, afirma-se como o único sujeito pleno numa comunidade que abdicou de sentir para não sofrer. Para eliminar a dor, a sociedade erradicou também a recordação – e, com ela, a espessura da experiência humana.


Na verdade, a literatura distópica apresenta-nos, desde os seus primórdios – com uma insistência verdadeiramente pedagógica –, alguns dos traços fundamentais da nossa humanidade. Em A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells, é a inteligência que surge como dimensão em risco. Embora tenham conservado uma sensibilidade estética que o protagonista reconhece como humana, os Elói, seres frágeis do futuro, são intelectualmente pobres, incapazes de questionar ou compreender. Em Nós (1921), de Evgueni Zamiatine, o alvo é mais profundo: a imaginação. Numa sociedade que reduz os indivíduos a números, a fantasia é identificada como a origem de todos os desvios — e, por isso, extirpada como um tumor.


Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, mostra-nos um mundo em que o controlo é assegurado pela anestesia: através do consumo regular de soma, uma substância que elimina a dor e o desconforto, a sociedade encontra a felicidade permanente, mas perde a inquietação humana. E quem não se lembra da forma magistral como George Orwell, em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, denuncia a “redução” da linguagem como o mais eficiente mecanismo de controlo da sociedade?  Se não há palavras, não há pensamento; se não há pensamento, não há resistência.


Em todos estes mundos, aquilo que nos torna humanos é tratado como erro: amar, lembrar, compreender, imaginar, inquietar-se, pensar. Mas talvez o humano seja mesmo isto: não a estabilidade, mas a perturbação; não a obediência, mas a pergunta; não a harmonia perfeita, mas essa matéria instável de que somos feitos – desejo, memória, linguagem, medo, esperança, imaginação.


Confesso que fiquei muito feliz quando percebi que Delirium é um verdadeiro sucesso entre o público de jovens adultos: foi traduzido para 35 línguas e vendeu já dois milhões de exemplares. Há pelo menos dois milhões de jovens leitores – pensei – que, de alguma forma, compreenderam que amar, o fundamento do cuidado pelos outros, é uma das mais belas formas de resistência humana.


Durmo melhor sonhando com isto: um exército de jovens dispostos a adoecer de humanidade.



Fátima Vieira
Vice-Reitora para a Cultura e Museus

Casa Comum dedica Quintas Brasileiras a António Carlos Jobim

Elis Regina, Chico Buarque e João Gilberto são  alguns dos nomes do programa. Sempre às quintas-feiras, às 18h30, na  Casa Comum. Entrada livre.

Rodrigo Alzuguir é o "maestro" das Quintas Brasileiras. Foto: DR

O escritor, músico, investigador, conferencista e produtor cultural Rodrigo Alzuguir está de regresso à Casa Comum (à Reitoria) da Universidade do Porto para a terceira edição das Quintas Brasileiras. A figura central desta edição é António Carlos Jobim e a influência que teve em outros artistas. O próximo espetáculo está agendado para 30 de abril, às 18h30. A entrada é livre.


Dolores Duran & Newton Mendonça são as “personagens principais” da próxima quinta-feira, intitulada Parceria e Modernidade na Noite Carioca. Nesta sessão, mergulhamos nas raízes da Bossa Nova através de dois parceiros fundamentais. Newton Mendonça foi amigo de infância de António Carlos Jobim com quem compôs várias músicas que se tornaram clássicos da Bossa Nova. Criaram “hinos” como "Desafinado" e "Samba de uma Nota Só". Este último foi lançado em 1960, ano da morte de Newton, tendo sido, no entanto, esboçado desde 1954. Juntos, lançaram ainda Meditação, em 1959, em gravação da cantora Isaura Garcia (1919 – 1993).


Dolores Duran é o nome artístico (atribuído por um  amigo, Lauro Paes de Andrade) de Adiléia Silva da Rocha. Um nome que  sugere um estado de espírito melancólico, ou até mesmo sofredor, em  sintonia com o seu estilo musical. Cantava em boates e na rádio até ter  lançado, em 1952, o primeiro disco com músicas carnavalescas. Depois, deu voz a músicas como "Canção da Volta", "Fim de Caso" e "Se é por falta de adeus" até ter dado início à parceria com Tom Jobim. Daqui resultaram canções de sucesso como "Por causa de você", "O negócio é amar" e "Estrada do sol". É descrita  por António Carlos Jobim como um “cometa musical”. A voz e o lirismo moderno fundiram-se à melodia de Tom em obras-primas como “Por Causa  de Você” e “Estrada do Sol”.


Mas há mais nomes “na calha”: Chico Buarque (dia 7 de maio), Elis Regina (dia 14 de maio), Johnny Alf (dia 21 de maio) e João Gilberto (dia 28 de maio). Compositores que foram “tocados” pelo “universo” de António Carlos Jobim.


Através de fotografias, vídeos, recortes de jornal e uma surpreendente capacidade de criar conexões entre música e evolução  histórica, Rodrigo Alzuguir, é o “maestro” destas sessões. É ele que dá  voz a uma narrativa sempre apoiada por imagens e documentação da época.  Ao piano, vai ainda ilustrando musicalmente os temas de que fala. Para  estas sessões, serão também convidados outros músicos brasileiros que  ajudarão a dar a cor certa à diversidade de pessoas e temas que serão  abordados.


E, tal, como na edição anterior das Quintas Brasileiras, existirá a 25 de junho uma sessão especial, desta vez dedicada a Vinicius de Moraes e Baden Powell, cujo disco Os Afro Sambas, que neste ano completa 60 anos da sua publicação, é uma das mais importantes e influentes obras da música popular brasileira. 


Fonte: Notícias U.Porto

A Água do Lago Nunca É Doce é o livro do mês no Clube de Leitura Italiano

Obra da autoria de Giulia Caminito vai estar em destaque na próxima sessão do Clube, agendada para dia 29 de abril, na Casa Comum. Inscrição gratuita.

A Água do Lago Nunca é Doce é o terceiro romance de Giulia Caminito. Foto: DR

É sobre uma realidade incómoda. Feita de injustiças, hipocrisias e descriminação. A proposta de leitura do Clube de Leitura Italiano para este mês de abril chama-se A Água do Lago Nunca é Doce, da autoria de Giulia Caminito. O encontro decorre já no próximo dia 29 de abril, às 19h00, na Casa Comum, (à Reitoria) da Universidade Porto.


É pelo olhar de uma criança de seis anos que a obra selecionada dá a  conhecer uma família condenada à precariedade. Gaia mora numa meia-cave,  sem nunca ter visto a escada de acesso ao “elevador social”. A mãe, Antónia Colombo, teve de adiantar algum dinheiro (que pediu emprestado à  avó) para aceder àqueles vinte metros quadrados que não são sequer  reconhecidos como residência. Limpou-o de ratos, baratas e seringas. E  já lá vão cinco anos sem ter direito ao nome nos recibos. Cinco anos de burocracias e burocratas. Com o cheiro das fraldas dos mais novos a  confundir-se com o cheiro da sopa! Está na hora de rosnar a plenos  pulmões que ali já não se consegue respirar mais.


Antónia Colombo tem cabelo ruivo, olhos verdes e amarelos e uma  presença capaz de ofuscar o espaço onde entra. Treina as frases de  afirmação na meia-cave, ao espelho, antes de sair. Antecipa perguntas e  treina respostas, esgares, gestos e impaciências… Sai blindada de  atitudes que a sociedade associa a mulheres que tratam a vida por tu.  Está decidida a não arredar pé do rumo que traçou, mesmo antes de bater com a porta da meia-cave. Está na hora de encontrar uma solução digna  para a família. E os sapatos de tacão ajudam a erguer a atitude.


Vencedor do Prémio Campiello, A Água do Lago Nunca é Doce é já o terceiro romance de Giulia Caminito.


A participação neste clube de leitura é gratuita, mas sujeita a inscrição obrigatória, através do respetivo formulário.

A Água do Lago Nunca é Doce já se encontra publicado em 22 países. (Foto: DR)

Sobre Giulia Caminito

Nascida em 1988, vive e trabalha em Roma, escrevendo regularmente  para revistas e jornais. Estudou Filosofia Política, trabalhou em edição  literária e publicou, em 2016, o seu romance de estreia, La Grande A, que lhe valeu os prémios Bagutta Opera Prima, Berto Prize e Brancati Giovani. O sucessor, Un Giorno Verrà, de 2018, recebeu o Prémio Fiesole para autores até aos 40 anos.


A Água do Lago Nunca é Doce é o romance que revela a autora  em Portugal. Esta obra foi finalista do prémio Strega e vencedora do  Campiello. Está já publicada em 22 países.

Sobre o Clube de Leitura Italiano

O desejo de aumentar a comunidade de leitores e de fazer com que a  literatura seja o ponto de partida para uma troca de ideias e reflexões é o grande objetivo destas sessões que acontecem em “língua híbrida”  entre o italiano e português, indo ao encontro das preferências de cada  participante.


O convite é aberto a todos, a quem já leu, a quem vai ler, e a quem  quer descobrir os livros antes de os ler. No fundo, este é um desafio  para entrar nesta viagem pelos livros, acompanhado.


Uma iniciativa da ASCIP Dante Alighieri, em parceria com a Casa Comum da U.Porto, o Clube de Leitura da ASCIP Dante Alighieri existe desde 2019 e visa promover a literatura italiana, com particular  atenção à produção contemporânea, sem esquecer os clássicos. 


Fonte: Notícias U.Porto

Abril e Maio na U.Porto

Para conhecer o programa da Casa Comum e outras iniciativas, consulte a Agenda Casa Comum ou clique nas imagens abaixo.

Inventarium: Derivas da Forma | Exposição de Ana Aragão

13 ABR a 12 SET'26 
Exposição | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

YUGEN [幽玄]: UMA REITERAÇÃO POÉTICA DO JAPÃO | Exposição

15 ABR a 12 SET'26
Exposição | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

Oficinas de Escrita Criativa | Rosa Alice Branco 

28 ABR e 26 MAI'26 | 18h30
Oficina, poesia | Casa Comum
Participação gratuita. Mais informações e inscrições aqui

Clube de Leitura Italiano

29 ABR'26 | 19h00
Literatura | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações e inscrições aqui

Dolores Duran & Newton Mendonça: Parceria e Modernidade na Noite Carioca | Quintas Brasileiras 3 

30 ABR'26 | 18h30
Música | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

QUEM ÉS TU, NORMA JEANE?. 100 ANOS DE MARILYN MONROE | Ciclo de Cinema

05, 06, 08 e 09 MAI'26
Cinema | Casa Comum
Entrada Livre. Mais informações aqui

E se?… Constelações de Modos de Viver o Espaço Urbano

Até 29 SET'26 
Exposição | Fundação Marques da Silva
Mais informações aqui

FRONTISPIECE | PRECIPICE

Até 27 JUN'26 
Exposição | Fundação Marques da Silva
Mais informações aqui

Gemas, Cristais e Minerais

Exposição | Museu de História Natural e da Ciência U.Porto
Entrada Livre. Mais informações aqui 

Corredor Cultural

Condições especiais de acesso a museus, monumentos, teatros e salas de espetáculos, mediante a apresentação do Cartão U.Porto.
Mais informações aqui

Há novos podcasts no espaço virtual da Casa Comum

199. Descarrilamento, Josefa de Maltesinho

“Descarrilamento”, de Josefa de Maltesinho, in Pela lente do repórter, abril de 2025

1. Artur Melo e Castro

Natural de Marco de Canavezes, Artur Melo e Castro entrou no antigo  Curso Superior de Nutricionismo em 1979. Enquanto presidente da  Associação de Estudantes, recorda o início da década de 80.


5. Ser arquiteto é… ter cliente, com Fernando Brit

Fernando Brito, pintor, fala-nos do seu encontro com João Álvaro Rocha,  que, apesar de ter sido forjado pelo acaso, vem a ser de um tempo longo. O  tempo de elaboração do projeto e de construção da casa da sua família, e, depois, o da vivência da obra do arquiteto. Expõe sobretudo, a  interseção entre duas éticas de trabalho: a da arte, de Fernando, e a da arquitetura, de João.

Mais podcasts AQUI


Alunos Ilustres da U.Porto

Domingos Tavares

Domingos Tavares (1939-)

Domingos Manuel Campelo Tavares nasceu em Ovar, em 1939.


Frequentou Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP). Exerce a profissão de arquiteto desde 1971.


Em 1973, um mês depois de ter terminado a licenciatura, ingressou no quadro de professores da ESBAP. Ao longo da sua carreira nesta Escola, lecionou nas áreas de Teoria e História da Arquitetura, foi membro da Comissão Instaladora do Curso de Arquitetura da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e Presidente do Conselho Diretivo e do Conselho Científico (1998-2006).


Domingos Tavares, Professor Catedrático Jubilado, deu a sua última aula na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), no Auditório Fernando Távora, a 4 de março de 2010.


Foi colaborador dos arquitetos Fernando Távora, Jorge Gigante, Francisco Melo, Alcino Soutinho e Rolando Torgo e  integrou (1973) a equipa Percy Johnson-Marshall / Costa Lobo para o Plano da Região do Porto.


No conjunto das suas obras arquitetónicas podem destacar-se projetos de habitações individuais para Ovar (1967-1977); o Quartel de Bombeiros de Baião (1973-1982); o Lar de Santiago, da Misericórdia de Viana do Castelo (1977-1982); um conjunto habitacional em Esmoriz (1989-1992); o Memorial à Revolução de Abril em Castro Verde (1993-96); uma casa na Rua do Breiner no Porto (1994-1997); o edifício da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (inaugurado em 1997), em colaboração com José Quintão e Lúcio Parente (do Centro de Estudos da FAUP); a reabilitação do Edifício da Rua dos Bragas que acolheu anteriormente a Faculdade de Engenharia (2001-2004), e ainda, a Biblioteca da Escola de Engenharia, do Instituto Politécnico de Coimbra.


Domingos Tavares também é autor de várias publicações sobre arquitetura, como: Da Rua Formosa à Firmeza (ESBAP, 1985), Miguel Ângelo: a aprendizagem da Arquitetura (FAUP, 2002) e da coleção Sebentas de História da Arquitetura Moderna, editada pela Dafne (2003-2009).


O Professor Emérito da FAUP foi distinguido em 2023 com o título de Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa.  


Enquanto ativista de esquerda, foi candidato à Assembleia da República pelo distrito do Porto, na lista da CDU, em 2009.



U.Porto - Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto: Domingos Tavares

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