O José concluiu a licenciatura na Faculdade. Quer partilhar connosco o percurso que seguiu desde então? Desde 2000, ano de conclusão da licenciatura, sou professor de Educação Física. Tive a felicidade de, desde o meu primeiro ano de trabalho, ter conseguido horários completos, algo que me permitiu, de forma relativamente célere, entrar na carreira docente como professor de Quadro de Zona Pedagógica. Alto Alentejo e Região Autónoma da Madeira (Ilha do Porto Santo) preencheram os meus primeiros anos de profissão. Cinco anos após o término da licenciatura senti um misto de saudade e necessidade de voltar a estudar. Regressei à casa de partida para realizar o Mestrado em Atividade Física e Saúde, curso que concluí em 2007, quando já estava a lecionar em Coimbra, cidade pela qual me apaixonei. Em 2009, ao contrário do que costumava fazer, decidi não apostar na aproximação a Braga, cidade de onde sou natural, no concurso de professores. Decidi continuar em Coimbra e fazer uma nova licenciatura, Jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Concluída a licenciatura em jornalismo, pós-Bolonha, avancei para o doutoramento em Estudos Contemporâneos no Centro e Estudos Interdisciplinares do Séc. XX da UC, ciclo de estudos que está “congelado” desde 2013 depois de concretizado o ano curricular. A conjugação de um percurso académico ligado ao Desporto e ao jornalismo permitiu-me também experimentar e vivenciar outros percursos profissionais, entre os quais a Comunicação e Marketing na Associação de Futebol de Castelo Branco e a opinião, essencialmente sobre o meu clube, no site zerozero.pt. Atualmente, enquanto professor de Educação Física, sou Orientador Cooperante na Escola Secundária Frei Heitor Pinto (ESFHP), na Covilhã, de alunos do 2º Ciclo de Estudos do Departamento de Ciências do Desporto da Universidade da Beira Interior, contribuído com o meu conhecimento e a minha experiência para a formação de futuros professores de Educação Física. E porque escolheu a área do Desporto para a sua formação superior? Quando percebeu que era esse o caminho a seguir? As minhas memórias mais distantes remetem-me sempre para o corpo, para o movimento e, principalmente, para a bola de futebol - não podia escapar ao destino. E esse caminho começou a ser traçado, de forma mais vincada, na passagem do 8º para o 9º ano de escolaridade, altura em que já se faziam opções de cursos. A opção de Desporto, principalmente pelo historial de turmas com alunos “irreverentes” e com muitas reprovações, não era propriamente o desejo de uma Mãe protecionista, mas o caminho fez-se por aí. Segui o que queria, a única coisa que na altura me despertava interesse. Que principais competências considera ter adquirido na sua formação na FADEUP? A FADEUP é uma escola de excelência. Tive o privilégio de me ter cruzado com professores de exceção, referências nas mais diversas áreas do desporto e também com colegas que hoje são também eles referências no panorama desportivo nacional e internacional. Na FADEUP respira-se rigor, responsabilidade, disciplina, exigência, ética, ambição e superação. Creio terem sido essas a principais competências que me acompanham desde então. Mais tarde decidiu tirar uma segunda licenciatura, desta vez em Jornalismo. O que o motivou a seguir também essa área? Queria, em certa medida, fazer parte da Universidade de Coimbra e fazer um curso que me fascinasse e que ao mesmo tempo permitisse cruzar a minha formação de base, o Desporto. Jornalismo pareceu-me uma escolha óbvia e foi a única opção à qual concorri. Hoje tenho a certeza de que foi uma escolha acertada. O curso de Jornalismo permitiu-me abrir horizontes e procurar outros conhecimentos. Conheci pessoas fantásticas, entre professores e colegas com quem partilhei os anfiteatros da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É professor de Educação Física, mas tem um percurso marcado também pelo interesse na comunicação e no desporto. Como é que estas vertentes se cruzam no seu dia a dia? Atualmente, as duas áreas cruzam-se apenas em ambiente escolar, sendo responsável pelo trabalho que é feito no Gabinete de Comunicação e Imagem do Agrupamento de Escolas Frei Heitor Pinto e que vai desde as publicações nas redes sociais do agrupamento, às notas de imprensa, promoção da oferta educativa ou colaborações em projetos de escola, como sejam a BioHeitor, Revista Escolar de Divulgação de Científica da ESFHP, recentemente distinguida com o Prémio de Melhor Trabalho de Ciência no Concurso Nacional de Jornais Escolar do jornal Público. Enquanto professor, sente que a experiência ou a formação em comunicação o ajudam na forma como ensina e motiva os alunos? Sem dúvida, principalmente quando leciono nos cursos profissionais de Desporto, estimulando os meus alunos a lerem jornais, essencialmente os desportivos, mas também a secção de Desporto dos jornais generalistas, para procurarem e trazerem para a aula notícias que ultrapassem o âmbito dos resultados desportivos e dos fait divers. Incentivo-os, essencialmente, a serem reflexivos e críticos e a procurarem “O Outro Lado do Desporto” (título do livro do Professor Jorge Olímpio Bento), o lado da ética, dos valores, da superação, da organização, do herói desportivo, etc. Como vê o papel atual que a comunicação social desempenha no mundo do desporto? Está no caminho certo? Há uns anos, em Coimbra, numa atividade promovida por docentes do curso de Jornalismo da FLUC, perguntava ao jornalista Hugo Gilberto se o programa “Trio D’Ataque”, por ele apresentado, era um programa de informação ou de entretenimento. A pergunta, provocatória, procurava refletir sobre os formatos e as formas do debate, no caso, futebolístico, a que a televisão portuguesa estava/está vetada. A resposta foi, naturalmente, e por múltiplas razões que elencou, entras as quais o rigor dos conteúdos e o comportamento dos convidados, tratar-se de um programa de informação. Em oposição, hoje, tendo a olhar para os telejornais mais como espaços de entretenimento, tal a forma como são explorados os assuntos e que visam mais o share do que a informar. Na verdade, não creio existir um caminho certo ou errado. A comunicação social tem, como as moedas, duas faces, podendo exercer influência positiva ou negativa sobre o seu público. Se por um lado pode promover modalidades, competições, atletas, valores associados ao Desporto e estilos de vida saudável, por outro pode ser um terreno fértil para o sensacionalismo e para a polémica em que o foco no resultado económico se sobrepõe ao de informar com rigor e isenção. Cabe as direções indicarem os caminhos que querem seguir. Voltando à FADEUP, o que recorda com mais saudade dos tempos de estudante? Das pessoas e dos espaços. Dos Colegas/Amigos e dos momentos partilhados com eles, em especial dos que foram das minhas turmas, bem como das aulas no CDUP, na piscina da Boa Hora, das aulas de Ginástica militar no Barracão ou das aulas de Anatomia no teatro anatómico do ICBAS. Recordo também a transição das antigas para as atuais instalações da Faculdade. Desejo de várias gerações de estudantes e que eu tive a sorte e o privilégio de ver e vivenciar. Recorda-se de alguma história curiosa ou divertida dos tempos de estudante que queira partilhar connosco? Não foi aluno da FADEUP quem não tiver estórias para preencherem uma noite de conversa, mas aquela que recorrentemente recordo aconteceu já nas atuais instalações da Faculdade. A minha turma tinha uma relação extraordinária com o Professor José António Silva de Andebol. As nossas aulas da modalidade aconteceram todas nos pavilhões do CDUP, ainda quando a Faculdade se dividia por instalações da Universidade do Porto em diferentes pontos da cidade. Quando passamos para as novas instalações combinamos com o professor, numa altura em que ele já não nos dava aulas, realizar um jogo de andebol em que ele jogasse connosco. Apesar da minha baixa estatura gostava de jogar a central e, na parte final do jogo, quando a bola passa por mim, apercebo-me que havia um espaço entre dois defesas. Sem olhar para a baliza realizo um remate para surpreender defesas e guarda-redes. A julgar pelo som, a bola tinha, estranhamente, chegado muito rapidamente à baliza. Olho então para a baliza e vejo o defesa, Professor José António, estatelado no chão, com as mãos no rosto e um esgar de dor. Com todos nós reunidos à volta dele, preocupados com tal bolada na cara, o professor olha para mim e pergunta: “Que nota é que lhe dei?” Estranhei a pergunta, mas lá respondi: “17”, disse eu a medo! “Nem quero imaginar se lhe tivesse dado um 13!” respondeu, apesar de tudo, um professor José António Silva bem humorado. O jogo terminou ali e o resultado foi o que menos importou. Qual é a sua maior realização até agora? Dividiria a “realização” em três planos. O pessoal, o profissional e o académico. Quanto ao primeiro, ser Pai foi/é aquilo que me deixa mais feliz e que mais me desafia. No plano profissional, creio que ser reconhecido entre pares é um bom indicador e que, naturalmente, me deixa muito satisfeito. No plano académico sinto-me realizado com o facto de ter concluído formação superior na FADEUP e na FLUC, duas prestigiadas faculdades de duas universidades de referência nacional e internacional. Existe, contudo, a “pedra no sapato” por (ainda) não ter fechado o dossiê do doutoramento em Estudos Contemporâneos. Como ocupa os tempos livres? No pouco tempo livre que consigo ter entre o trabalho na ESFHP e o ir levar e buscar os meus filhos às escolas e atividades, tenho-me dedicado à corrida, gosto que estava adormecido e que fazia de forma intermitente. É nesses momentos que me desligo do dia-a-dia e me foco na tarefa de ser melhor do que eu mesmo. Também roubo algum do meu tempo livre para acompanhar os jogos do SC Braga, clube do qual sou sócio há 31 anos. Infelizmente, pela distância, praticamente só acompanho através da televisão, apesar de ter lugar anual no Estádio Municipal de Braga. Quer deixar algum conselho aos nossos estudantes? O professor Jorge Olímpio Bento recorria a um slogan da Coca-Cola para expressar muito do significado do Desporto: “Nem todos podem ser campeões, mas todos podem dar o seu melhor!” Creio que será esse o conselho que daria a um aluno da FADEUP, que deem sempre o melhor deles em cada momento, que se superem. O que espera do futuro? Vivemos tempos estranhos, que exigem de nós, enquanto seres sociais, responsabilidade e capacidade de adaptação. Apesar das incertezas que nos estão reservadas, acredito que ainda estamos a tempo de construir uma sociedade mais solidária e justa, enfim, mais humana e que o nosso planeta seja, apesar de tudo, um espaço recomendável. É este o futuro que espero e que desejo para os meus filhos. Espero também ver o SC Braga a ser Campeão Nacional (risos). |