O José Ferreirinha foi estudante de licenciatura e mestrado na FADEUP. Quer falar-nos sobre o seu percurso profissional após a conclusão do curso? Como era hábito, na altura, comecei a lecionar Educação Física na escola no início do 4º ano da Licenciatura (ao fim do 3º ano tínhamos habilitação própria, Bacharelato) e, durante seis anos, foi o que fiz, sempre a conciliar com a faculdade e com o treino de ginástica artística, que comecei no Boavista mal entrei para a faculdade, em 1984. Em 1996, terminei o Mestrado em Treino de Alto Rendimento Desportivo na FADEUP e ingressei na UTAD como Assistente, onde conclui o Doutoramento em Ciências do Desporto em 2007, mantendo-me até hoje como Professor Auxiliar. No treino, mantive-me no Boavista até 2002, quando destruíram o Pavilhão Acácio Lelo, onde treinávamos: desde aí, passei por vários clubes, sempre ligado também à Associação de Ginástica do Norte e à Federação de Ginástica de Portugal. Paralelamente, sou juiz internacional de Ginástica Artística Masculina desde 1993, tendo participado como juiz em muitos Campeonatos da Europa e do Mundo, entre outras competições importantes. E porque escolheu a área do Desporto para a sua formação superior? Quando percebeu que era esse o caminho a seguir? Fui atleta de ginástica artística masculina desde os 6 anos e, com a prática, fui-me apaixonando pelo Desporto e pelo treino. No final do ensino secundário, já sabia bem o que queria e, apesar de gostar muito da Educação Física, sempre quis estar ligado ao treino de ginástica. O ensino superior foi uma oportunidade à qual dei continuidade - até hoje. Treinou até muito recentemente a melhor ginasta portuguesa de todos os tempos, Filipa Martins. Sabendo que os holofotes se viram habitualmente para o atleta e pouco para o treinador, como é ser treinador de uma ginasta com o nível da Filipa? Quais foram os maiores desafios que encontrou neste percurso? Sinceramente, sempre vivi bem com os holofotes virados para o atleta e, no caso de uma atleta com o nível de resultados e exposição da Filipa Martins, como em casos de outros atletas de modalidades individuais que se destacam, os treinadores acabam por ser também chamados a prestar declarações, entrevistas, etc. Treinar uma ginasta como a Filipa é um privilégio: temos acesso a palcos/competições mais relevantes e, acima de tudo, a uma aprendizagem constante e a uma realização plena pela observação dos resultados do nosso trabalho ao mais alto nível. Por outro lado, a Filipa tem características muito atrativas para um treinador: entende e sente muito bem os movimentos que executa, é persistente, trabalhadora, disciplinada e serena - um exemplo para outras, quase um treinador-adjunto dela própria. O maior desafio foi a responsabilidade de dar continuidade ao nível que a Filipa já tinha quando chegou até nós (nós somos, eu e a minha esposa, e treinadora, Joana Carvalho). Podia correr bem ou não, e, quando nos escolheu, sentimos o peso dessa responsabilidade. Será que somos capazes? Depois, além do treino propriamente dito, a gestão das lesões, que requer acompanhamento para tratamentos e prevenção, e, nesse contexto, a capacidade da Filipa arranjar autonomamente os meios foi determinante. Na nossa modalidade, ainda temos essa valência mal resolvida e, por isso, era uma preocupação constante. Participou várias vezes, enquanto treinador, em Jogos Olímpicos. Que memórias guarda desses eventos. Para além da convivência de perto com a elite mundial dos atletas de várias modalidades desportivas, há a partilha de conhecimento, experiências e emoções com todos os elementos de cada missão. Nestes eventos multidesportivos, lidamos no dia a dia com os atletas, treinadores, fisioterapeutas, médicos e staff do COP, num ambiente muito saudável e solidário, mas também muito profissional. As emoções dos resultados que se vão obtendo sentem-se nos corredores ou salas de convívio: é especial. A exposição mediática nesses dias, e imediatamente antes, também é única, com muito mais expressão do que em qualquer outro campeonato. Os últimos, de Paris 2024, sem dúvida, muito mais interessantes do que os de Tóquio, onde as limitações da pandemia retiraram muita da magia do evento. Da carreira da Filipa ficam vários momentos altos, um dos quais o 'Martins'. Como surgiu a ideia para desenvolver este elemento técnico, considerando as muitas horas de treino e dedicação, tanto da ginasta como do treinador? O “Martins” é uma consequência positiva da pandemia! A partir de um certo nível, que a Filipa já tinha atingido há muito, a rotina dos treinos torna-se muito repetitiva. Na nossa modalidade, normalmente, com dois períodos preparatórios reduzidos para o início das competições, a partir daí não sobra muito tempo para treinar gestos novos. Em 2020 não pudemos competir, então iniciamos a aprendizagem de alguns gestos técnicos novos para a Filipa, com tempo! Quando um deles - um elemento que já existia e é a base do “Martins” - estava adquirido, estava tão bem que equacionamos adicionar-lhe meia-volta. Fomos procurar no Código de Pontuação qual seria o seu valor e verificamos que não existia. Investimos, então, nessa meia-volta para criar um elemento novo, o qual obrigava à aprendizagem de um outro para dar continuidade à sua rotina de competição, e assim surgiu. Mas demorou muito tempo; sem a paragem da pandemia, talvez nunca tivesse acontecido. Para mim, foi a confirmação da importância de períodos preparatórios mais longos, principalmente nos mais jovens, garantindo espaço para as novas aprendizagens. De outra forma, elas acontecem, mas não com a mesma qualidade. A ginástica é uma modalidade que exige grande dedicação e disciplina, tanto do atleta como da equipa técnica. Que estratégias ou princípios considera fundamentais para manter a motivação e o desempenho de um atleta de elite ao longo dos anos? Na ginástica artística, as ginastas começam aos 5/6 anos; aos 10 já treinam seis dias por semana, 3h30 por dia; aos 13/14 algumas acrescentam mais duas ou três manhãs. O volume de trabalho é muito grande e muito repetitivo também. Como começam cedo, também cedo se habituam a muitas destas características, aprendem a gerir o tempo para estudar, para treinar e para descansar. É claro que, se ao fim de todo este trabalho, não há resultados (leia-se aprendizagens, evolução), torna-se difícil de justificar o esforço e manter a motivação. Muitas ginastas, com melhores ou piores resultados, gostam da rotina do treino, habituam-se a ela e tornam-se resilientes. As maiores causas de desmotivação e/ou abandono relacionam-se com medos de execução de um ou outro gesto mais arriscado ou lesões prolongadas. Ao mais alto nível, a dedicação que referiu pode implicar opções para as quais nem todos os pais estão disponíveis. Refiro-me a opções como prolongar a carreira académica para poder treinar mais. De outra forma, em Portugal, é muito difícil conciliar tudo. Observa atletas e equipas de diferentes países em competições internacionais. Que diferenças ou hábitos de treino internacionais admira e que gostaria que fossem mais comuns em Portugal? E, por outro lado, o que Portugal faz bem que outros países poderiam aprender? Ao nível técnico, atualmente já não há muitas diferenças, não há segredos. O que há de muito diferente em países mais desenvolvidos são condições como: i) treinadores profissionais que se dedicam exclusivamente ao treino das suas atletas; ii) atletas disponíveis para treinar mais, com planos curriculares completamente adaptados; iii) ginásios bem equipados e climatizados; iv) equipas médicas no local de treino e sempre disponíveis; v) com estas condições tão diferentes, tudo é mais calmo e tranquilo para todos. Em Portugal, fruto da falta de quase tudo o que referi, aprendemos a “desenrascar” muitas coisas sozinhos, o que nos torna mais preparados para algumas tarefas. Sabemos ensinar as técnicas, mas também montar os aparelhos, fazer coreografias, montar músicas, etc. Também fruto disso, as atletas tornam-se mais resilientes e fortes para suportar dificuldades. Estão habituadas a treinar com frio, sabem fazer as suas ligaduras, etc. Voltando à FADEUP, o que recorda com mais saudade dos tempos de estudante? Durante toda a minha licenciatura, o ISEF (hoje FADEUP) estava repartido por várias instalações na cidade do Porto. As salas de aula e ginásio ficavam numa instalação anexa à escola secundária Rodrigues de Freitas; Atletismo e Desportos Coletivos no CDUP (Ponte da Arrábida); Natação no CDUP (Rua da Boa Hora); e Anatomia e outras aulas teóricas em Biomédicas. A nossa vida era um frenesim, de um lado para o outro, maioritariamente a pé ou de autocarro. Para o almoço, também tínhamos de nos deslocar. Acho que hoje poucos aceitariam uma realidade como essa, mas, na verdade, essas rotinas de deslocações constantes desenvolveram-nos uma camaradagem muito grande, entreajuda e resiliência, e recordo esses tempos com saudade. Nos últimos anos, já existia o projeto das atuais instalações, pelas quais ambicionávamos, mas, ao mesmo tempo sabíamos que já não seria para nós.
Recorda-se de alguma história divertida/curiosa, enquanto estudante FADEUP, que queira partilhar connosco? Recordo-me das filas que se faziam para assistir às aulas de Anatomia do Professor Nuno Grande; não havia espaço para tantos alunos que não queriam perder uma aula desse inesquecível Professor e médico do ICBAS. Recordo-me de muitos banhos de água fria no CDUP, em pleno inverno. Das corridas intermináveis, do CDUP à Madalena ou o “8” da Ponte da Arrábida - que fazíamos nas aulas de Atletismo com o Professor Pompílio Ferreira (que tinha sido treinador da Rosa Mota), em que quase morria!! Recordo-me também das filas das cantinas e dos “golpes” que certamente ainda hoje se utilizam! Qual é a sua maior realização? Em termos desportivos, a participação em Jogos Olímpicos, com sucesso, parece-me fácil destacar. Transportar o nome de Portugal nas costas, tantas vezes, deixa-me orgulhoso. Olhar para trás e constatar como as minhas ex-atletas - muitas já mães - me consideram e ficam contentes por me ver, deixa-me plenamente realizado. Como ocupa os tempos livres? Gosto muito de trabalhos de bricolage caseira, de ver televisão, navegar na internet e caminhadas/corrida ao ar livre. Quer deixar algum conselho aos nossos estudantes? Gostaria que se mantivessem ativos fisicamente, que procurassem ser mais ágeis e mais fortes, que fixassem objetivos ambiciosos na sua formação, e não apenas terminar o curso só porque sim. Como professor, vejo muitos jovens que ingressam na universidade sem saber porquê, sem objetivos concretos, e isso é muito importante. Digo-lhes muitas vezes que, mais importante que conseguirem executar esta ou aquela técnica - na Ginástica, que é o que leciono principalmente - é aprenderem a acreditar no efeito do treino: que o trabalho, a persistência, a repetição e a disciplina produzem adaptações, que resultam em aprendizagens, muito importante para as suas vidas. O que espera do futuro? Para mim, espero ter saúde para aproveitar a reforma, que está quase a chegar! Já deixei o treino, o que foi uma transformação muito grande para mim e para a minha família. Em geral, espero um futuro em que seja possível viver com segurança, sem muitas guerras nem catástrofes naturais, com jovens mais ativos e capazes, e em que haja qualidade de vida para eles. |