O Pedro foi estudante de licenciatura na FADEUP. Quer falar-nos do seu percurso? O meu percurso, após concluir a licenciatura em Ciências do Desporto na FADEUP, em 2017, tem sido essencialmente passado fora do país, com experiências em várias áreas da performance desportiva. Imediatamente após terminar a licenciatura, comecei funções em Portugal, primeiro como preparador físico no Futebol Clube de Cesarense. Apesar de ter sido apenas durante a pré-temporada, aprendi bastante com o Mister Carlos Secretário e Cândido Costa. Antes disso, trabalhei na Associação Desportiva Sanjoanense, clube da minha cidade, onde percorri todos os escalões da formação até chegar à equipa sénior. Trabalhei nesta equipa durante mais de um ano, enquanto fazia o meu estágio para a metodologia de futebol, graças à oportunidade que me deu o Mister Flávio das Neves de integrar a sua equipa técnica, no momento em que decidi deixar de jogar futebol no meu primeiro ano de sénior. A minha primeira experiência internacional surgiu pouco depois, quando me mudei para Florença, em Itália, para trabalhar como preparador físico pessoal, tendo a oportunidade de treinar Gil Dias durante a sua passagem pela Fiorentina. Após esse ano fora de Portugal, senti que a minha formação académica ainda não estava concluída e, em 2018, mudei-me para Espanha para frequentar o Mestrado em Treino e Nutrição Desportiva na Universidade Europeia. Esta formação abriu-me as portas para uma experiência inesquecível no Real Madrid C.F., onde comecei como estagiário no Departamento de Performance, como Readaptador Físico da formação, e evoluí para a função de Sport Scientist das equipas profissionais. Foi durante este período que a minha carreira começou a focar-se cada vez mais na tecnologia e na análise de dados. Para aprofundar as minhas competências nesta área, completei um segundo Mestrado em Big Data aplicado ao Desporto na UCAM, em 2021. Esta combinação de experiência prática no terreno com uma forte especialização em dados e tecnologia culminou na minha função atual. Desde setembro de 2021, sou Sport Scientist, trabalhando diretamente com organizações desportivas (clubes, federações, clínicas, etc.) para ajudá-las a maximizar o impacto da tecnologia no desempenho e bem-estar dos seus atletas. Porque escolheu a área do Desporto para a sua formação? Quando percebeu que era esse o caminho a seguir? Desde muito cedo, a minha paixão foi o Desporto. Tudo aquilo que eu fazia e que me fazia sentir bem estava relacionado com Desporto: praticava, analisava e debatia. No entanto, durante muito tempo, essa paixão estava essencialmente ligada à prática desportiva, neste caso, o futebol. O ponto de viragem ocorreu após a minha entrada na FADEUP, quando percebi que a minha verdadeira vocação não estava na execução do Desporto em si, mas no entendimento do Desporto, do jogo e da performance. Sentia que, a cada dia que passava, surgiam mais perguntas na minha cabeça, e isso fazia-me querer investigar ainda mais a área. Quais foram os aspetos da formação na FADEUP que mais influenciaram a sua carreira? Posso dizer, sem qualquer dúvida, que, sem a FADEUP, o meu percurso seria totalmente diferente. Foi uma etapa desafiante em vários sentidos, porque me fez perceber aquilo que realmente queria para mim. A exigência do curso e a paixão que descobri pela ciência do Desporto levaram-me, na altura, a tomar a difícil decisão de deixar de jogar futebol para me dedicar totalmente aos estudos. Foi um momento de viragem que definiu o meu compromisso com esta área. Para além deste foco pessoal, a formação na FADEUP foi determinante para a minha carreira, não apenas pelo conhecimento técnico que adquiri, mas também pela estrutura de pensamento científico que me incutiu. Apesar de ter sido um período bastante exigente, a FADEUP não me ensinou apenas a usar as ferramentas da ciência do Desporto, mas também a pensar criticamente, o que se tornou a base de toda a minha carreira. Atualmente, é Sport Scientist e Customer Success Specialist na Catapult. Em que consiste o seu trabalho diário nesta função? Na Catapult, trabalhando como Sport Scientist, trabalho diretamente com os clientes — normalmente clubes, federações, clínicas, ligas, entre outros — para os ajudar a maximizar o valor da tecnologia no ecossistema destas organizações. Isto envolve fornecer apoio diário, formação e consultoria sobre as melhores práticas para a recolha, interpretação e aplicação de dados em contextos de desempenho do mundo real com os utilizadores desta ferramenta. Este contacto com diferentes organizações permite-me enriquecer o meu conhecimento e, sem dúvida, desenvolve a minha capacidade adaptativa para os cenários que encontro diariamente. Quais têm sido os maiores desafios no trabalho com organizações desportivas de alto nível? Os maiores desafios são culturais e operacionais. A tecnologia falha quando não entra nas rotinas. O essencial é alinhar linguagens — treinador, médicos, analistas — definir quem faz o quê e em que momento, e simplificar o uso diário. Muitas vezes, complicamos: dashboards a mais, métricas a mais, ação a menos. Quais são as grandes tendências que vê a marcar o futuro da ciência e tecnologia no Desporto? Eu acredito que o futuro pode passar por uma maior centralização no atleta como consumidor final da tecnologia. Estamos a ver um crescimento de dispositivos como o Whoop, que dão ao atleta controlo e compreensão sobre os seus próprios dados de recuperação e bem-estar. Depois, haverá a criação de modelos de performance integrados. O futuro não está em analisar dados físicos, táticos ou médicos de forma isolada, mas sim em unificar todas estas fontes — o que também é um dos maiores desafios dos clubes neste momento. Por último, muito se fala da inteligência artificial, considerada determinante para o futuro, mas que, na minha opinião, já faz parte do nosso presente. No entanto, acredito que a nossa experiência e conhecimento serão realmente o que fará a diferença, ajudando-nos a utilizar a inteligência artificial da melhor forma. Voltando à FADEUP, do que se recorda com mais saudade dos tempos de estudante da Faculdade? Esta pergunta provoca-me alguma nostalgia. Sem dúvida, o ambiente que se vivia na Faculdade era especial. Havia uma cultura de partilha e camaradagem incrível entre todos, que ia muito além das salas de aula. As amizades que fiz nesse tempo continuam até ao dia de hoje. A isso juntava-se a grande disponibilidade dos professores, e ainda hoje mantenho esse contacto. É uma daquelas coisas que só quem lá andou consegue realmente explicar. Recorda-se de alguma história que o tenha marcado enquanto estudante da Faculdade e que possa partilhar connosco? Sem dúvida. Lembro-me perfeitamente da minha primeira aula de Desenvolvimento Motor, no segundo ano. Era a primeira aula daquele ano, cheguei atrasado e o professor Maia não me deixou entrar. Foi um momento que me marcou tanto que posso garantir: nunca mais cheguei atrasado às suas aulas [risos]. Qual é a sua maior realização até hoje? Considero que poder trabalhar na área que sempre sonhei faz-me sentir realizado, juntando a isso todas as diferentes experiências que tive ao longo dos anos, como, por exemplo, em Itália e Espanha. Como ocupa os tempos livres? Devido à natureza do meu trabalho, com muitas viagens para fora do país, o meu tempo livre é passado com família e amigos, em passeios à beira-mar e, mais recentemente, a preparar-me para as maratonas que tenho feito ultimamente. Quer deixar algum conselho aos nossos estudantes? Sendo muito pragmático, não tenham medo de questionar: é assim que se aprende e se inova. Procurem aplicar toda a teoria que aprendem nesta casa; o "hands-on" vai ajudá-los a adquirir experiência, que será fundamental para o futuro. Não fechem portas a áreas transversais ao Desporto, mesmo que, no momento, não pareçam acrescentar muito. No entanto, serão importantes para o desenvolvimento da vossa capacidade de adaptação, que é fundamental nos dias de hoje. E, por último, esforcem-se para aumentar o vosso networking: esta indústria é mais pequena e mais conectada do que parece. O que espera do futuro? Para o futuro, espero, acima de tudo, continuar a fazer o que mais gosto: ajudar pessoas e organizações a crescer através da tecnologia e da ciência. A nível pessoal, quero continuar a ter dúvidas sobre tudo o que faço — o que parece estranho, mas é essa incerteza que me mantém com esta "fome" de não parar, de continuar a aprender e a evoluir. Espero também continuar a viver novas experiências e a desenvolver relações, porque tenho a certeza de que são essas vivências que me ajudarão sempre a preparar-me para o que vier a seguir. |