Os primeiros relatos de atuação em situação de emergência reportam à antiguidade, mostrando que a atuação médica em situações de emergência é intrínseca à própria arte da medicina. Apesar da quase ausência de relatos que cheguem aos dias de hoje, é possível imaginar que, ao longo de vários séculos, inúmeras formas de atuação em emergência tenham sido praticadas. A título de exemplo, chegam-nos relatos de que Avicena trataria o coma por hipoglicemia com clisteres de hidromel.
Especificamente em relação à ressuscitação cardiopulmonar (RCP), podemos dizer que ela é também tão antiga quanto as artes de cura e tão atual quanto um drone que entrega um desfibrilador automático externo (DAE). De métodos primitivos à RCP moderna, a evolução da ressuscitação foi marcada por momentos de profundos avanços lado a lado com décadas em que diversos métodos foram sendo abandonados ou esquecidos.
Há relatos de tentativa de RCP já no antigo Egito, mas as primeiras referências documentadas datam do século II, quando Galeno descreveu as suas tentativas fracassadas de insuflar os pulmões de um animal com um fole.
Houve pouco ou nenhum progresso na ressuscitação até o século XVIII, quando a morte por afogamento se tornou uma preocupação pública. Naquela época, o interesse na ressuscitação foi renovado e avanços significativos foram feitos.
Independentemente dos vários métodos utilizados – desde o uso de foles passando pela aplicação de pressão no abdómen, o aquecimento do corpo da vítima, a estimulação interna do corpo por meio de fumigação retal com fumo de tabaco, até à administração das ventilações e compressões torácicas tal como hoje as conhecemos – o propósito permaneceu constante: manter a circulação sanguínea para fornecer oxigénio e sustentar a vida.
O primeiro relato de ressuscitação cardiopulmonar, tal como hoje a realizamos, data de 1960, quando Kouwenhoven et al. relataram a eficácia das compressões torácicas e da ventilação manual.
Nos anos que se seguiram, Peter Safar e um extenso grupo de investigadores desenvolveram intensa investigação, com base na criação de modelos para treino de simulação, permitindo construir o modelo atual de ressuscitação, com o desenvolvimento do que hoje conhecemos como suporte básico de vida (SBV) e suporte avançado de vida (SAV). A simulação teve aqui um papel determinante, já que, em segurança, permitiu treinar competências que, de outra forma, seria muito difícil treinar na ausência de manequins. Assim, com o treino simulado em manequins, os profissionais de saúde conseguem adquirir e aprimorar competências essenciais, com impacto direto na sobrevivência dos doentes.
Naquilo que é hoje o estado da arte, o ensino e treino do SBV seriam idealmente disseminados não só nas escolas dos futuros profissionais de saúde, onde estão incluídos os médicos, mas em todas escolas, desde o ensino básico até ao ensino superior. Infelizmente essa realidade ainda está longe de ser atingida em Portugal e um pouco por todo o mundo. O SAV inclui nos curricula não só a atuação em caso de PCR, mas, sobretudo, todas as competências com o intuito de prevenir a progressão para a PCR. Aliás, é com base nessa premissa da prevenção da PCR que todos os programas de emergência intra-hospitalar têm vindo a ser implementados com as equipas intra-hospitalares de emergência médica.
Ao nível pré-hospitalar, o início da implantação do Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) data de 1981, ano da criação do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), e, hoje, o INEM, em colaboração com os bombeiros, tem a cobertura total do país. Para nós, esta é uma das conquistas fundamentais para a saúde em Portugal, que merece ser reconhecida e protegida.
Para percebermos como o olhar sobre a emergência sempre careceu de uma visão estruturante, basta verificar que a especialidade de Medicina de Urgência e Emergência pela Ordem dos Médicos só foi criada em 2024.
Olhando para as escolas médicas, verificamos que só mais recentemente é que o ensino e treino de emergência, e especificamente o treino de SBV e SAV, têm vindo a ser introduzidos nos seus curricula, e de forma não estruturada. Inicialmente, o SBV começou por ser opcional, nuns casos, ou ministrado em forma de mass training, noutros casos. O ensino e treino do SAV estão organizados em Unidades Curriculares (UC) opcionais ou dispersos por várias UC, sem que lhes sejam conferidas a robustez e estrutura sólida de ensino. Durante décadas, foi possível formar médicos que, quando foram para a sua prática clínica, não tinham treino para atuar em situações de emergência. Felizmente, esta realidade está em profunda mudança, e os curricula atuais passaram a incluir estas competências de forma estruturada.
A este propósito, a FMUP tem realizado várias iniciativas, nas quais se incluem o SBV como UC opcional para todos os anos, a organização de mass trainings para comunidade e a integração da FMUP no Programa Nacional de DAE.
Com a visão atual, a de que é tão importante saber como atuar em caso de PCR como saber prevenir as causas que podem levar à PCR, seria desejável que a FMUP viesse a ter unidades curriculares na área da emergência no seu Mestrado Integrado em Medicina. Mas para já, e em outubro próximo, abre o seu primeiro Mestrado na área da emergência – o Mestrado em Assistência Integral em Urgências e Emergências
– , um programa de estudos em parceria com o Instituto de Estudios Médicos (IEM), em Barcelona, cujo objetivo principal é formar médicos e enfermeiros para o desempenho profissional em urgência e emergência.
Este mestrado pretende preencher uma lacuna na formação universitária de medicina e enfermagem, e tem como referência, entre outras, a proposta formativa da Sociedade Espanhola de Medicina de Urgência e Emergência (SEMES) e a da European Society for Emergency Medicine (EUSEM).
Fortemente alicerçado na experiência prévia do IEM em Barcelona e em metodologias de ensino recorrendo aos mais atuais modelos de simulação, espera-se que esta iniciativa, aberta a médicos e enfermeiros, possa trazer modificações profundas no treino destes profissionais de saúde, sobretudo garantir um melhor atendimento aos doentes em situação de urgência, promovendo a sua segurança e aumentando a probabilidade de sobrevivência.
Cristina Granja
Diretora do Centro de Simulação da FMUP (SIM-FMUP)