Atividade de investigação em Economia
Investiga Economia, mas destacamos a abordagem interdisciplinar das matérias correlacionadas em que também se tem debruçado, como a Gestão, o Empreendedorismo e até Economia da Educação. Como se desenrolou este percurso e que momentos destacaria como os mais marcantes?
A minha principal linha de investigação – Economia do Trabalho Aplicada – foi claramente moldada pela investigação de natureza empírica realizada na tese de mestrado e doutoramento e pela experiência científica ímpar partilhada pelo meu orientador. A investigação em áreas fronteira com a Economia do Trabalho surgiu naturalmente, sem um planeamento muito antecipado ou rígido, motivada, por um lado, pelo interesse em abordar questões que interessam a áreas interdisciplinares com a Economia do Trabalho e, por outro lado, pelo interesse em usar dados micro para explicar questões de natureza macro. No âmbito da gestão, por exemplo, a aplicação dos fundamentos económicos às decisões estratégicas de recrutamento (enfatizando o papel do capital humano e da rede de contactos no mercado de trabalho no desempenho das empresas) surgiu a partir da possibilidade de usar dados micro ao nível do par empregador-trabalhador e metodologias econométricas que permitem lidar adequadamente com questões de endogeneidade na análise da relação causal entre estratégia e desempenho. Uma das formas mais adequadas para lidar com a endogeneidade é a realização de experiências, seja em laboratório ou no terreno. No entanto, em contextos reais de tomada de decisão complexa e dinâmica, como estratégias de recrutamento e investimento, essas experiências não são viáveis (devido aos elevados custos envolvidos e às questões de natureza ética), além de dificilmente captarem os efeitos de longo prazo. A oportunidade de analisar questões fundamentais no domínio das práticas de gestão e do empreendedorismo, recorrendo a dados de natureza administrativa e longitudinal com informação detalhada sobre as empresas e respetivos trabalhadores, permitiu-me oferecer um contributo inovador a essas áreas.
A Economia do Trabalho é um dos nichos específicos em que mais se tem especializado. Quais considera serem os principais desafios atuais nesta área, sobretudo neste contexto atual de imenso progresso tecnológico e acelerada transformação dos mercados?
Há várias tendências que têm moldado os mercados de trabalho nas economias desenvolvidas, como o envelhecimento populacional, a globalização, as novas formas de organização do trabalho, a transição para uma economia verde, as alterações tecnológicas resultantes da automação e da inteligência artificial (IA), ente outras. Destacando as alterações tecnológicas, pode-se afirmar que a reconfiguração da interação homem-máquina impõe vários desafios ao mercado de trabalho, nomeadamente no âmbito da reconfiguração dos conteúdos funcionais das profissões, com impactos significativos nas dinâmicas de criação e destruição de emprego. No estudo recente da Mckinsey (2024), estima-se que cerca de 1,3 milhões de postos de trabalho em Portugal vão ter de ser requalificados em resultado da rápida adoção da automação e da IA generativa. De acordo com o último inquérito da McKinsey Global Survey on AI (2025), em 2024, 72% das organizações usaram ferramentas de IA em pelo menos uma função do negócio (em 2023, apenas 55%). A atualização de competências e a requalificação profissional serão cruciais neste contexto, especialmente para os indivíduos que desempenham tarefas de natureza mais rotineira e, portanto, mais suscetíveis de serem substituídos pela tecnologia. Esta necessidade deve igualmente desafiar as Universidades a desempenharam um papel ativo no domínio da aprendizagem ao longo da vida, promovendo uma interação cada vez mais estreita com as empresas. O crescimento do trabalho em plataformas digitais (gig economy) e a consequente precarização das relações laborais é outro tema de grande relevância. A ausência de proteção social nestes novos modelos de trabalho deve conduzir à reflexão sobre a eficácia das políticas laborais em contextos de trabalho digital e remoto. Por outro lado, a crescente digitalização do trabalho e a dificuldade em estabelecer uma fronteira clara entre o tempo de trabalho e o tempo de lazer colocam diversos desafios no que respeita à conciliação entre a vida profissional e pessoal, bem como à preservação da saúde mental.
Publica em algumas das revistas científicas mais prestigiadas de Economia e Gestão. Que importância tem, para si, a solidez metodológica na produção científica? Como equilibra a complexidade técnica com a relevância prática dos temas?
Os Economistas, especialmente os mais aplicados, procuram estabelecer relações de causa e efeito. No entanto, esse objetivo revela-se mais difícil de alcançar, uma vez que grande parte da investigação empírica em Economia baseia-se em dados reais, e não em experiências laboratoriais, como é comum nas ciências exatas, como a Física ou a Química. Os fenómenos sociais são altamente complexos e influenciados por múltiplos fatores. Neste enquadramento, a afirmação de um efeito causal exige que se utilize, por um lado, amostras representativas da população em estudo e, por outro lado, uma metodologia adequada que nos permita afirmar, sem ambiguidade, que o efeito observado é resultado do comportamento da variável económica de interesse, e não de qualquer outro fator. É esse rigor metodológico que nos permite adotar uma abordagem diferenciadora e robusta de temas práticos, relevantes não apenas para os académicos, mas também para as empresas, os trabalhadores, os decisores políticos e a sociedade civil em geral. O exercício subsequente consiste em conciliar a sofisticação metodológica com a capacidade de transmitir a relevância da investigação a um público menos académico. Ao longo da minha carreira, o equilíbrio entre a complexidade técnica e a relevância prática dos temas tem sido alcançado através das várias oportunidades de participação em debates e workshops menos académicos sobre tópicos de discussão atual, bem como pela colaboração em trabalhos de consultoria que exigem uma aplicação mais prática dos conhecimentos. Essas atividades implicam um exercício estimulante de identificar de forma mais clara o contributo da minha investigação para os desafios sociais contemporâneos, ao mesmo tempo que proporcionam uma satisfação adicional pelo impacto que a investigação pode ter na sociedade.
Especificamente sobre a economia do Empreendedorismo, que fatores considera mais determinantes para o seu sucesso e sustentabilidade de longo prazo, especialmente em contextos económicos mais adversos?
De acordo com a investigação realizada (em coautoria), que cobriu mais de 150 mil novos empresários em Portugal, recorrendo a dados administrativos e longitudinais, destaco três fatores de sucesso: (i) o capital humano; (ii) a experiência anterior na criação/gestão de um negócio; (iii) a experiência prévia no exercício de funções executivas. Relativamente ao capital humano, a evidência empírica mostra que empresas com uma força de trabalho mais qualificada (medida por um índice compósito de capital humano) apresentam maior produtividade e taxas de sobrevivência mais elevadas; por outro lado, a qualidade do capital humano da equipa de fundadores presta também um papel fundamental no desempenho das novas empresas, através da capacidade que empreendedores mais qualificados têm em atrair trabalhadores mais qualificados, o que, por sua vez, afeta positivamente o desempenho das empresas. Relativamente à experiência anterior, os resultados indicam que há efeitos de “learning-by-doing” no sentido de que indivíduos que voltam a criar um negócio e que tiveram uma experiência mais longa no primeiro empreendimento (tenha este sido bem-sucedido ou não) exibem uma maior probabilidade de sucesso na tentativa subsequente, sugerindo que há mecanismos de aprendizagem na falha. Este efeito é mais acentuado se a reentrada ocorrer no mesmo setor de atividade, evidenciando que a experiência prévia na fundação de empresas permite ao empreendedor adquirir recursos específicos únicos, conhecimentos, competências e contactos que constituem ativos importantes ao encetar uma nova atividade empreendedora. Por último, os resultados empíricos evidenciam que os indivíduos que adquiriram experiência em funções executivas e de gestão enquanto trabalhadores por conta de outrem estão mais propensos a transitar para o empreendedorismo e a exibir maior sucesso nos seus negócios.
Decorrente das suas múltiplas e prestigiadas colaborações com entidades públicas, em Portugal e no estrangeiro, e na sua opinião, que papel pode (ou deve) a investigação académica desempenhar na formulação de políticas públicas?
A avaliação de políticas é um elemento crucial da boa governação, uma vez que promove a prestação de contas públicas e contribui para a confiança dos cidadãos no Estado. A avaliação de políticas é uma área fundamental da Economia aplicada, em particular no domínio da avaliação de impacto com o propósito de estabelecer uma relação causal entre a medida de política e as alterações observadas nos indicadores-objetivo. Para este efeito, os economistas têm procurado desenvolver metodologias empíricas adequadas. Muitos desses modelos surgiram no âmbito da Economia do Trabalho com o objetivo de avaliar o impacto das medidas ativas e passivas de políticas de emprego, como o impacto do subsídio de desemprego na duração deste último, ou o papel da formação e dos estágios profissionais na empregabilidade e nos salários. Refira-se, a este respeito, o prémio Nobel da Economia 2021 atribuído a David Card, Joshua D. Angrist e Guido W. Imbens, que se distinguiram pela utilização de experiências naturais no âmbito da análise de relações causais (p. ex., alteração da legislação do salário mínimo). O segredo está em utilizar situações em que eventos fortuitos ou alterações de política afetem grupos de pessoas de forma diferente (tratados e não-tratados) numa lógica em tudo similar aos ensaios clínicos em medicina. Os académicos dispõem de conhecimento teórico e empírico que deve informar os decisores políticos no desenho e na implementação de políticas públicas. Este é um caso típico em que uma maior articulação entre a academia e as instituições públicas responsáveis pela aplicação das políticas no terreno beneficia ambas as partes. Dada a relevância do exercício e o conhecimento disponível na academia, a Faculdade de Economia do Porto (FEP) tem procurado oferecer formação em metodologias de avaliação de políticas.
O que mais a entusiasma atualmente na investigação em Economia? Há alguma área emergente que a intrigue ou que veja como particularmente promissora?
O que atualmente me entusiasma na investigação em economia é, em essência, o que me motivou no início da carreira: a possibilidade de explorar dados reais, ao nível micro, que permitam aprofundar o conhecimento sobre o funcionamento dos mercados de trabalho contemporâneos e, em particular, sobre a economia portuguesa. Neste contexto, os investigadores portugueses e, em particular, os economistas do trabalho, têm sido privilegiados, desde os anos 90, pela possibilidade de acesso a uma base de dados única, de natureza administrativa e longitudinal, que cruza informação detalhada sobre empregadores e trabalhadores – Quadros de Pessoal. Este entusiasmo é reforçado pela crescente facilidade em cruzar diferentes bases de dados administrativas e outros inquéritos amostrais, disponibilizados (sob a forma anonimizada e mediante protocolo de acreditação) pelos produtores oficiais de informação estatística. No âmbito da interseção entre a Economia do Trabalho e a Economia da Educação, a possibilidade de, no futuro, cruzar dados da educação com os dados do mercado de trabalho permitirá investigar em que medida o percurso académico dos indivíduos - desempenho académico, qualidade das instituições/formação e redes de contacto - está correlacionado com o percurso profissional. De facto, o impacto das conexões sociais (pais, filhos, colegas de turma, amigos, colegas de trabalho, …) na mobilidade social é uma área que se adivinha bastante promissora, nomeadamente com o cruzamento de bases de dados que permitam mapear, de forma mais precisa, a rede de conexões sociais.
Num ambiente científico cada vez mais competitivo, que conselhos lhe parecem mais pertinentes de partilhar com os jovens investigadores que pretendem seguir uma carreira académica nesta área?
A prossecução de uma carreira académica em economia num ambiente científico cada vez mais competitivo exige não só excelência técnica, mas também visão estratégica e perseverança. O conselho mais relevante que habitualmente partilho com os estudantes de doutoramento é que privilegiem a qualidade da investigação e não cedam à intensa pressão competitiva - agravada pela proliferação das revistas ‘científicas’ predatórias - que facilmente nos pode conduzir a valorizar a quantidade em detrimento da qualidade. Esta escolha, a médio e longo prazo, traduz-se em desvantagens competitivas em termos de progressão na carreira. Neste contexto, a colaboração com investigadores de outras universidades (nomeadamente estrangeiras) com competências diversas, conhecimento complementar e metas ambiciosas, desempenham um papel fundamental na condução de investigação de elevada qualidade e no crescimento individual. A colaboração com centros de investigação de referência e a participação em conferências internacionais, workshops e seminários são elementos igualmente relevantes na alavancagem da carreira científica. Por último, fatores como a resiliência, disciplina e perseverança, não são menos importantes do que o conhecimento técnico-científico e constituem elementos-chave num percurso de investigação bem-sucedido. Neste contexto, rodear-nos das pessoas certas (orientadores, investigadores seniores, colegas, família e amigos) e aprendermos a liderar com a frustração, a crítica, a rejeição e a demora são ingredientes fundamentais na carreira académica. Como afirmou Thomas Edison (1847-1942), um notável inventor Americano e empreendedor, “I have not failed. I’ve just found 10,000 ways that won´t work".
Que desafios destacaria para o futuro do ensino e da investigação em Economia e Gestão em Portugal?
Um dos principais desafios no ensino, transversal à generalidade das áreas, está associado às alterações tecnológicas sem precedentes no domínio da inteligência artificial, o que deverá conduzir à redefinição do papel do professor e dos próprios currículos da oferta formativa, com impactos significativos nos métodos de ensino-aprendizagem. O Professor Joseph E. Aoun publicou, em 2019, um livro intitulado Robot-Proof: Higher Education in the Age of Artificial Intelligence, que constitui uma reflexão interessante sobre o papel das instituições de ensino superior na era da inteligência artificial. Segundo o autor, a educação deve preparar os estudantes para tarefas que as máquinas não conseguem realizar. Propõe, para esse efeito, uma estrutura curricular à “prova de robôs”, que assenta em três dimensões fundamentais: (i) literacia de dados, essencial para gerir e interpretar o grande fluxo de informação oriundo da internet e dos media; (ii) literacia tecnológica, fundamental para compreender o funcionamento da tecnologia; e (iii) literacia humana, aquilo que nos torna únicos como seres humanos e nos distingue das máquinas: criatividade, inovação, empreendedorismo, agilidade cultural, trabalho em equipa, empatia, pensamento crítico, ética e responsabilidade social. O grande desafio das universidades, hoje, é continuar a assegurar uma formação de excelência que prepare os estudantes para competir no mercado de trabalho, lado a lado com máquinas inteligentes, num cenário onde a única constante é a mudança e muitas competências se tornam rapidamente obsoletas.
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