Investigadores U.Porto

U.Porto Reitoria SIP
Carla Malafaia
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) / Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE)

Atividade de investigação em Educação

Como surgiu o interesse pela investigação em Ciências da Educação e, mais especifica e incisivamente sobre ativismo, movimentos sociais e política na juventude? Que momentos ou influências considera mais determinantes na definição dos seus interesses de investigação?
Durante a licenciatura, as cadeiras de metodologias de investigação foram uma revelação: percebi que fazer perguntas sobre o mundo e procurar respostas a essas perguntas podia, afinal, ser uma profissão. Mas devo confessar que o verdadeiro responsável por eu ter ingressado na Licenciatura em Ciências da Educação foi o meu Pai, que a descobriu. Quando me mostrou o plano de estudos, percebi que era um curso que reunia vários dos meus interesses, cruzando Sociologia, Antropologia e Psicologia. Eu, que originalmente queria Antropologia, percebi que as Ciências da Educação eram, afinal, aquilo que procurava. No segundo ano, assim que tive contacto com metodologias de investigação, decidi que queria ser investigadora. Lembro-me de fazer trabalhos sobre direitos de jovens imigrantes simplesmente porque uma colega cabo-verdiana partilhava comigo as suas experiências e dificuldades. E isso é, para mim, a investigação em ciências sociais: investigamos o que vivemos, o que vemos ser vivido, o que nos inquieta. Questões ligadas a desigualdades sociais sempre me inquietaram. Cresci no Caramulo e percebi muito cedo como o dinheiro que se tem e o lugar onde se vive condicionam as oportunidades disponíveis. As desigualdades sociais reproduzem-se em desigualdades educacionais e políticas, determinando quem é mais ouvido e quem é mais visível. O primeiro projeto de investigação financiado em que estive, com o Professor Tiago Neves, sobre mediação de conflitos e mediação comunitária numa zona junto ao bairro do Aleixo, foi fundamental para perceber o valor comunitário da investigação e intervenção, particularmente em contextos de dureza existencial. É aí que se funda o meu interesse em compreender como essas desigualdades se processam e, sobretudo, como se resiste a elas. A relação com o ativismo e com os movimentos sociais veio também daí: o mundo é político, desde as escolhas sobre o que se ensina nas escolas até às oportunidades que se criam ou negam, passando pelas resistências quotidianas que emergem. E é neste contexto que me fascina investigar com jovens: apesar de serem historicamente protagonistas de mudanças sociais, são muitas vezes desvalorizados. E há algo de profético em estudar grupos juvenis: produzimos conhecimento não apenas sobre quem são hoje, mas sobre quem estão a tornar-se, e que pistas nos dão sobre a sociedade futura.

Em contextos de desigualdade socioeducativa e polarização política, que pistas de investigação lhe parecem mais relevantes para promover o envolvimento ativo, democrático e inclusivo dos jovens, especialmente os mais vulneráveis?
Primeiro, temos de compreender como diferentes grupos juvenis acedem e dão sentido à política — e para isso não podemos estudar apenas os grupos habituais, em Lisboa e no Porto. É essencial produzir conhecimento com jovens do interior, das periferias e de pequenas cidades. Nestes territórios, marcados por vulnerabilidade, encontramos criatividade política, mas também sentimentos de exclusão que alimentam populismos. Importa visibilizar práticas democráticas que daí emergem e perceber padrões de desigualdade socioeducativa e a sua relação com a polarização. Quando se sente que nada pode mudar, a política torna-se exclusiva dos privilegiados e a educação esvazia-se. Segundo, sendo a escola a instituição socializadora mais relevante, é urgente lutar por uma educação para a cidadania que acolha a política em toda a sua pluralidade — discussões plurais, experiências práticas, ligação ao mundo real. Não podemos reduzi-la a empreendedorismo e literacia financeira, negligenciando questões centrais como educação sexual, climática ou bem-estar animal. Ambientes escolares que promovem debate e dão voz aos jovens, inclusive na organização da escola, são preditores de maior envolvimento cívico e atitudes pró-democracia. Terceiro, não basta informação. Não é por confrontarmos as pessoas com mais dados científicos que as conseguimos mobilizar. O envolvimento emocional e comportamental tem maior potencial transformador. Políticas inclusivas implicam valorizar o conhecimento das comunidades e comprometermo-nos com as mudanças que identificam. Os jovens – sobretudo os mais vulneráveis porque são frequentemente alvo de ‘intervenções políticas’ –  estão cansados de promessas vazias e processos de inclusão meramente simbólicos. Precisamos de resgatar a esperança, dar visibilidade às alternativas que já constroem, reconhecê-los como produtores de conhecimento político e estudar contextos não convencionais — coletivos artísticos, movimentos de base, ativismos online — em vez de aprofundarmos fossos geracionais com pânicos morais sobre, por exemplo, redes sociais.

Política visual e redes sociais estão entre os seus interesses de investigação. Não é, de facto, possível dissociar movimento social e envolvimento político da dimensão digital e da sua inevitável influência. Na sua opinião, e à luz das conclusões que a investigação lhe tem proporcionado, de que forma tem o digital transformado a consciência coletiva, social e política, da juventude?
O digital transformou radicalmente a forma de fazer política, de interpretar o que se passa à nossa volta e de construir o nosso lugar no mundo. Mais do que criar novas formas de participação, amplificou dinâmicas já existentes a uma escala impensável há 15 anos. A visualidade sempre esteve na política, mas hoje é usada com alcance e ritmo inéditos. A investigação mostra que, no ativismo, a relação entre online e offline não é de substituição, mas de concomitância. Muitos protestos são pensados para serem fotografados e disseminados, construindo-se em simultâneo no online e no offline, bem como através de quem comenta, partilha e transforma imagens políticas. Os protestos pela Palestina ilustraram como jovens portugueses se sentiram parte de um movimento global, adaptando estratégias transnacionais, com as redes sociais a funcionarem como janela para Gaza quando os meios tradicionais não lhe tinham acesso. A investigação com grupos vulneráveis – contra despejos, pela saúde mental ou com coletes amarelos – mostrou como as redes sociais abrem o "direito de aparecer" na esfera pública, criando oportunidades de autorrepresentação e facilitando mobilizações coletivas. Mas há o lado sombrio: notícias falsas, imagens manipuladas, comunidades extremistas. Os jovens, longe de serem vítimas passivas, percebem o funcionamento dos algoritmos e são deles críticos. Embora não arrisquem a irrelevância da ausência online, desenvolvem micro-resistências algorítmicas também. Dessa tensão nasce uma articulação entre imaginação cívica e crítica sistémica. O digital tornou-se um laboratório de experimentação democrática — para o bem e para o mal.

Combina, no seu percurso de investigação, métodos quantitativos, etnográficos, participativos... Que vantagens lhe proporciona a utilização de múltiplas abordagens metodológicas e participativas para estudar cidadania, ativismo juvenil e educação política?
A minha orientadora de doutoramento, a Professora Isabel Menezes, costumava dizer que o doutoramento é uma ‘licença para matar’ e, portanto, é importante aprender a ‘matar’ de várias maneiras. O que ela queria dizer é que, na investigação, é fundamental dominar diferentes métodos: cada ferramenta e abordagem permite-nos aceder a um ângulo sobre a realidade, e fenómenos complexos como a participação política juvenil ou a educação para a cidadania não se compreendem a partir de uma lente única. É preciso olhar para padrões e tendências de larga escala, mas é preciso também olhar de perto para contradições e significados que os números não revelam. Sempre usei desde inquéritos por questionário até métodos mais qualitativos, como a etnografia, porque sempre procurei ver mais e melhor. Num certo sentido, os questionários mostram a extensão, a etnografia a profundidade, os métodos participativos a agência, e os visuais a dimensão simbólica da política. Para mim, combinar métodos torna o processo de investigação mais interessante, mas sobretudo torna-o mais adequado ao que é realidade social: complexa, dinâmica, multifacetada. Nos últimos anos, tenho integrado cada vez mais métodos participatórios, que tornam o processo de produção de conhecimento partilhado com os participantes da investigação e democratizam as ferramentas de investigação. Os métodos visuais e digitais também se tornaram indispensáveis para analisarmos as práticas de participação online: como é que memes, stories ou posts são modos de ação política; o curso de vida de determinadas imagens, como circulam, se transformam e mobilizam emoções. Recentemente, com colegas de outros países, desenvolvemos ferramentas que combinam etnografia com inteligência artificial e análises de big data para analisar grandes volumes de imagens políticas, compreender padrões visuais de participação, classificar imagens políticas a uma escala enorme, mas mantendo a sensibilidade cultural que vem de métodos etnográficos.

Quais têm sido os principais desafios e oportunidades em traduzir a investigação e a ciência, nestas matérias, em impacto social concreto?
Há uma dificuldade estrutural em criar pontes entre investigação e políticas públicas — e isto aplica-se a qualquer área científica, não apenas aos estudos sobre juventude e política. Desenhos de investigação mais participatórios permitem, creio, alguns impactos locais, pequenos, mas significativos. Por exemplo, temos projetos em escolas que incluem formação de professores em métodos pedagógicos participativos, abrindo espaços de participação para os jovens ou criando canais de diálogo entre estudantes e outros atores comunitários. A existência desses espaços, mesmo que limitados, é muito valiosa, tal como a integração de práticas de ligação às comunidades na pedagogia docente. Mas deparamo-nos sempre com o mesmo problema: as estruturas políticas têm dificuldade em acolher propostas de mudança vindas das escolas ou dos jovens. Facilitamos esses processos, mas muitas vezes as propostas ficam na gaveta porque não existem mecanismos institucionais para lidar com participação genuína. Isto reflete um problema mais amplo: é frequente os políticos não ouvirem a investigação. O caso da educação para a cidadania é paradigmático. Décadas de investigação mostram a importância do envolvimento das escolas com atores da sociedade civil, do debate político plural, da educação sexual, da igualdade de género e do uso pedagógico de tecnologias digitais. Tudo isso é essencial para construir sociedades democráticas. No entanto, políticas educativas recentes seguem na direção oposta: restritivas, instrumentais, receosas da diversidade e orientadas para o mercado e o empreendedorismo. A tensão entre evidência científica e decisão política nesta área é, portanto, evidente.

Detém vasta experiência na participação e na cocoordenação de projetos nacionais e europeus. Poderia partilhar a sua visão sobre os impactos da investigação fundamental na construção social e na sua perpétua mudança?
A investigação fundamental não se limita a descrever ou medir a realidade: cria novas categorias e conceitos que nos permitem compreender o mundo de formas antes indisponíveis. Termos como "capital cultural" ou "interseccionalidade" não são apenas palavras: são ferramentas conceptuais que encapsulam fenómenos complexos de forma que a comunidade científica (e, cada vez, mais a sociedade) reconhece imediatamente. Quando uso o termo “interseccionalidade”, não preciso explicar que me refiro à sobreposição de múltiplas formas de discriminação — o conceito transporta automaticamente esse conhecimento. Isso pode parecer pouco, mas é muito. Conhecer melhor a realidade social é o que nos permite agir sobre ela. Num projeto recente financiado pelo European Research Council, que apoia investigação fundamental de ponta, procurámos teorizar a participação visual. Mas a investigação fundamental não é também, em alguma medida, aplicada? Estudando como os jovens dão sentido à democracia através de imagens, estamos a mapear transformações democráticas em curso. Funciona como uma espécie de “inteligência coletiva”, antecipando mudanças sociais antes de se tornarem óbvias — por exemplo, o nosso trabalho sobre participação visual precedeu o boom dos movimentos digitais pós-pandemia. Nas ciências sociais, é difícil traçar fronteiras rígidas entre investigação fundamental e aplicada; a produção teórica parte de problemas concretos, e o trabalho aplicado dialoga com referenciais conceptuais mais amplos. Mais do que categorias separadas, investigação fundamental e aplicada são dimensões complementares de um mesmo processo de produção de conhecimento. A frase de Kurt Lewin, “não há nada mais prático do que uma boa teoria”, resume bem essa indissociabilidade. A investigação fundamental permite compreender processos, narrativas e estruturas que moldam a vida coletiva, criando instrumentos para interpretar desigualdades, relações de poder, processos educativos e dinâmicas culturais. É esse conhecimento crítico de longo prazo que deveria orientar tanto a ação prática como o debate público.

Foi convidada para assumir a função de referee no âmbito das ERC Starting Grants e é membro ativo da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação. Que perspetivas científicas lhe parecem neste momento mais relevantes e lhe suscitam mais interesse, tanto no contexto português como no europeu?
Hoje, vejo três grandes tendências nas ciências sociais. Primeiro, a integração de métodos digitais e computacionais — podemos analisar grandes volumes de dados e perceber melhor como as pessoas se organizam e interagem na sociedade. Segundo, a ciência cidadã está a crescer: cada vez mais, os cidadãos participam na investigação, não só participando na recolha de dados, mas também a definir questões de investigação, o que aproxima a ciência do quotidiano das pessoas. Terceiro, há um foco crescente nos grandes desafios globais, como populismo, desigualdade e alterações climáticas. A Europa tem investido em projetos colaborativos e transnacionais para estudar estes temas de forma interdisciplinar. Em Portugal, as universidades e centros de investigação estão a acompanhar esta tendência, promovendo colaboração internacional e novas abordagens metodológicas. No fundo, penso que estas mudanças tornam a ciência mais conectada com a sociedade, mais colaborativa e capaz de antecipar problemas, ajudando-nos a preparar o futuro.

Que conselhos partilharia com os jovens investigadores que ambicionam trabalhar na interseção entre educação, sociologia política e participação juvenil, especialmente considerando a necessidade de metodologias inovadoras e inclusivas?
Primeiro, questionem constantemente as vossas próprias categorias analíticas: o que consideramos “político”? O que é “participação”? Diferentes grupos juvenis frequentemente reinventam estes conceitos e desafiam definições académicas pré-estabelecidas. Segundo, nunca deslizem para qualquer tipo de arrogância ou fundamentalismo metodológico, estejam disponíveis para experimentar métodos diversos e abrir mão do poder e controlo sobre o processo de investigação que os métodos mais convencionais e mais familiares nos dão. Terceiro, construam parcerias genuínas com movimentos sociais — não os estudem “de fora”, mas criem espaços de co-investigação, onde o conhecimento seja gerado coletivamente. Quarto, estejam preparados para lidar com a ansiedade que muitas vezes surge ao cruzar fronteiras disciplinares. Mesmo numa era que valoriza a interdisciplinaridade, é comum sentirmos que nunca estamos “em casa” em nenhuma área — como se não pertencêssemos a lado nenhum. Aceitar esta sensação como parte do processo é essencial, porque é exatamente esse desconforto que nos força a pensar de forma criativa, a explorar novas abordagens. Por fim, escrevam e comuniquem para audiências diversas — académicos, educadores, ativistas, decisores políticos — porque a investigação deve amplificar vozes e não apenas categorizá-las.


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