Investigadores U.Porto

U.Porto Reitoria SIP
Fernanda Ribeiro
Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) / Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM)

Atividade de investigação em Ciência da Informação

O seu percurso académico e científico cruza áreas como a Ciência da Informação, Arquivística e História. Que momentos ou experiências foram determinantes para definir esta trajetória interdisciplinar?
Possuo uma licenciatura em História (1980) e obtive o diploma do Curso de Bibliotecário-Arquivista na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1982). Até 1983, este curso, de nível pós-graduado, era a única formação em Portugal para quem quisesse trabalhar em bibliotecas e/ou arquivos e constituía um requisito obrigatório para aceder à carreira de técnico superior de arquivo ou de biblioteca na administração pública. O meu interesse por esta área surgiu no ano letivo de 1975-76, quando fiz o Serviço Cívico Estudantil (no ano que precedeu a minha entrada na Universidade) na Biblioteca Pública de Braga. Aliás, a opção pela licenciatura em História foi exatamente porque era a mais adequada para posteriormente ingressar no Curso de Bibliotecário-Arquivista, mas esta formação de base não teve continuidade no meu percurso como docente e investigadora. Iniciei a minha carreira profissional como bibliotecária-arquivista, primeiro na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e depois no Arquivo Histórico Municipal do Porto (Casa do Infante). O Curso de Bibliotecário-Arquivista de Coimbra deixou de funcionar em 1983, tendo sido substituído pelo Curso de Especialização em Ciências Documentais, também de nível pós-graduado. A Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) começou a lecionar esta nova formação em 1985 e, no ano seguinte, fui convidada para aí lecionar uma disciplina, mantendo-me como docente convidada até ter ganho um concurso para assistente estagiária em 1989, uma vez que a FLUP decidiu abrir a carreira académica na área das Ciências Documentais (a partir de 1996, com a designação de Ciência da Informação), o que foi absolutamente determinante para o meu percurso na academia e para a consolidação de uma área científica que hoje tem plena autonomia e reconhecimento e valor inquestionáveis no amplo campo das ciências sociais e humanas.

A preservação da memória e do património documental assume um papel crucial na construção da identidade e do conhecimento histórico. Na sua opinião, quais são atualmente os maiores desafios que se colocam à Arquivística e à Ciência da Informação, especialmente numa era digital?
A designação Ciência da Informação (CI) passou a ser usada em Portugal quando em 2001 foi criada na U.Porto a primeira licenciatura na área numa parceria, à altura, inovadora entre a FLUP e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Esta nova designação não foi uma mera alteração de nome, mas correspondeu a uma mudança de paradigma que se consumou por força dos desafios que a Sociedade da Informação nos obrigava a enfrentar. A visão historicista e tecnicista das Ciências Documentais, muito focada na guarda de documentos com valor patrimonial, deu lugar a uma nova perspetiva que mudou o objeto de estudo do “documento” para a “informação”, passou a valorizar muito mais o acesso a todos os cidadãos e a preocupar-se com a gestão da informação em todos os contextos orgânicos e não só com as bibliotecas e os arquivos. Assim, a Arquivística, a Biblioteconomia e a Museologia, disciplinas técnicas com cariz essencialmente profissional, passaram a ser consideradas como disciplinas aplicadas no quadro da CI, área científica que se institucionalizou na academia, com um claro estatuto disciplinar. O legado das ciências documentais foi, naturalmente, integrado nesta perspetiva, que é evolutiva, pelo que a preservação da memória continua a revestir-se de enorme importância, até porque é um fator identitário dos indivíduos, das comunidades e das nações. Mas o principal desafio, hoje, é precisamente o de conciliar uma gestão de informação eficiente ao serviço das instituições e das organizações em geral com a preservação daquela que constitui a memória orgânica dessas mesmas entidades. Isso implica avaliar e selecionar informação no overload informacional em que estamos imersos, para preservar aquela que é indissociável da nossa identidade. Estas funções estão hoje no cerne das preocupações da CI.

Com o avanço das tecnologias e a crescente produção de dados, a arquivística e a gestão de informação enfrentam novos paradigmas. Como vê a relação entre Inteligência Artificial, Big Data e a preservação documental? Estas tecnologias são aliadas ou podem representar um risco para a autenticidade da informação?
Os avanços tecnológicos, sobretudo nas últimas duas décadas, bem como a evolução recente da IA acarretam enormes desafios para a CI, porque muitas das tarefas e dos procedimentos técnicos irão sendo progressivamente realizados por não-humanos. Contudo, esta evolução também abre novas perspetivas e traz necessidades que irão necessariamente provocar mudanças no perfil dos profissionais da área. Gestores de informação, analistas de dados, especialistas em Knowledge Organisation serão cada vez mais importantes, sobretudo para avaliar e validar os resultados obtidos pela IA, no sentido de se obter informação fiável, autêntica e eticamente válida. Os especialistas em gerir informação têm as competências necessárias para desempenhar estas funções tão relevantes socialmente, aproveitando da melhor forma a ajuda da IA para esse efeito.

Atualmente assume a Vice-Coordenação Científica do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM). Que projetos científicos destacaria como particularmente inovadores ou impactantes para a comunidade académica e para a sociedade? Que linha(s) de investigação em curso considera particularmente promissora(s) para o futuro?
O CITCEM é um centro que acolhe investigadores de diversas áreas e que promove o estudo transdisciplinar de temas relacionados com a memória e o espaço, o património material e imaterial, a história ambiental, as populações, as práticas religiosas, a gestão da informação, os estudos dos media, a cultura digital, as indústrias criativas e outros temas que se interligam de forma a produzir conhecimento ao serviço da comunidade científica, nacional e internacional, e a responder aos desafios societais. O plano estratégico proposto para 2025-29 tem como título "Encontrando comunidades (multi-espécies) e ampliando diálogos", o que demonstra bem a diversidade cultural e a abrangência da investigação que o CITCEM desenvolve, cruzando as ciências sociais e humanas com as ciências naturais. O CITCEM organiza-se em torno de 7 grupos de investigação (GI), que levam a cabo projetos bastante diversos, mas sempre procurando uma visão transdisciplinar e um impacto societal, apostando muito na divulgação da ciência através de múltiplas iniciativas, que vão desde os grandes congressos até workshops e sessões temáticas mais especializadas, passando por uma forte atividade editorial, de que se destaca a publicação regular de 4 revistas científicas, e pela manutenção de alguns observatórios temáticos, como o ObCiber (na área do Ciberjornalismo), o Obcrei.pt (indústrias criativas) ou o OBEMMA (Electronic Music and Media Arts). Destaco ainda o Projeto Mu.SA, na área da Museologia, que foi premiado internacionalmente, a coordenação da rede CoopMar - Transoceanic Cooperation, Public Policies and Iberoamerican Sociocultural Community e investigação tendo como foco o papel da mulher na História e na Literatura, como o projeto “Musas na Clausura”, ainda em curso.

Em Portugal, como avalia o investimento e o reconhecimento da Arquivística e da Ciência da Informação no contexto da investigação científica? Considera que estas áreas são suficientemente valorizadas e financiadas?
A institucionalização académica da Ciência da Informação é ainda bastante recente (2001), restringindo-se às Universidades do Porto, de Coimbra e de Lisboa e ao Instituto Politécnico do Porto. Em todas estas instituições, o número de docentes de carreira é bastante reduzido (entre 6 e 10) e, ao nível da Investigação, não há nenhum centro desta área, estando os docentes integrados em Grupos de Investigação específicos, pertencentes a unidades de investigação de Humanidades ou Ciências Sociais, como é o caso da U.Porto, em que o grupo de docentes de CI da FLUP faz parte do CITCEM. Estas circunstâncias não facilitam a visibilidade científica da área, embora a partir da FLUP tenhamos feito um trabalho intenso de sensibilização das entidades financiadoras da ciência, como a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), para que a área tenha sido, em 2006, considerada nos painéis de avaliação de bolsas e projetos, agregada às Ciências da Comunicação. Esta pequena vitória foi fundamental para promover o reconhecimento científico e viabilizar o financiamento de projetos de investigação e bolsas de doutoramento. Em contrapartida, a formação em CI ministrada na U.Porto, ao nível da licenciatura e do mestrado, tem garantido aos licenciados e mestres uma forte empregabilidade nas mais diversas entidades do setor público e do setor privado, e a formação ao nível do doutoramento tem atraído sempre um número elevado de estudantes (em média, uns 10 por ano) sendo muitos deles procedentes do Brasil e de outros países lusófonos ou ibero-americanos. Por isso, estou convicta que os nossos graduados e doutores são e continuarão a ser, no futuro, os melhores embaixadores para garantir uma cada vez maior valorização da área.

A relação entre ciência e sociedade está a transformar-se, com um crescente apelo à Ciência Aberta e ao acesso livre ao conhecimento. Como vê esta mudança e quais considera serem os seus principais desafios e oportunidades?
Na CI sempre fomos fortemente adeptos da Ciência Aberta e do acesso livre à informação. Basta vermos que, por todo o mundo, os maiores repositórios de trabalhos científicos em open access têm sido da responsabilidade das bibliotecas e dos serviços de informação das universidades. Em Portugal também tem sido assim e permito-me destacar o pioneirismo, em 2003, do Repositório da UMinho, que foi liderado pelo Serviço de Documentação da Universidade e que influenciou os que se lhe seguiram em muitas das universidades portuguesas. A ciência que é paga com dinheiros públicos deve ser desenvolvida em benefício da sociedade e “devolvida” aos cidadãos. Por outro lado, a disponibilização da investigação que se vai realizando, de forma aberta e partilhada, contribui enormemente para o avanço da ciência, pois permite usar e reutilizar informação já recolhida e analisada evitando repetições de investigação que já foi feita por outros. No mundo global em que vivemos e com os recursos tecnológicos disponíveis, a partilha de informação e a disponibilização dos dados e resultados de investigação só pode ser vista em termos de oportunidades. A meu ver, não há riscos significativos que justifiquem o fechamento do acesso à informação, a não ser, talvez, para as editoras comerciais que lucram enormemente com o acesso pago a revistas e outros textos científicos.

Tendo acompanhado muito de perto a evolução da formação na área da Ciência da Informação, como avalia a preparação das novas gerações de profissionais? Que competências considera essenciais para quem hoje se forma neste campo?
Escrevi há cerca de um ano um artigo intitulado “A Formação superior em Ciência da Informação face aos desafios da Inteligência Artificial” em que fiz uma reflexão precisamente sobre a futuro da Ciência da Informação e a formação académica que as universidades estão a ministrar nesta área disciplinar. Inclusivamente, pedi ao ChatGPT que me “desse a sua opinião” a respeito do assunto, o que naturalmente fez com base na informação existente na Internet sobre esta problemática. Algumas considerações foram óbvias, como por exemplo identificar necessidade de mais trabalho prático e interdisciplinar, maior desenvolvimento das competências de comunicação ou importância da educação contínua. Mas o que me parece essencial alterar no modelo pedagógico, e isso não foi identificado pelo algoritmo e, em minha opinião, assenta em quatro pilares fundamentais: menos transmissão de conhecimento; mais experimentação; maior desenvolvimento do espírito crítico e um ensino mais orientado às aptidões, juntamente com maior valorização dos princípios éticos.

O que a motiva diariamente no seu trabalho? Há algum projeto, descoberta ou momento que a tenha marcado de forma especial a sua carreira de investigação?
O que ao longo dos anos me motivou sempre foi sentir que estava a contribuir para a consolidação de uma área de conhecimento absolutamente fundamental na era em que vivemos (se a informação faz parte indissociável da nossa existência, não são precisos muitos argumentos para justificar uma ciência que faz da informação o seu objeto de estudo) e a formar profissionais e cientistas que podem ter um impacto enorme na sociedade e na construção da nossa memória coletiva. Apesar de a CI ser uma área ainda muito pouco reconhecida socialmente, sempre acreditei que seria pela formação de profissionais competentes que ela iria ganhar cada vez mais esse reconhecimento. Mas o caminho tem sido longo e árduo e as pessoas poucas. Foi preciso ganhar “espaço” na academia, criar cursos, recrutar docentes, estar presente e ter capacidade para influenciar os órgãos com poder de decisão, mostrar o valor da área pelos resultados alcançados, enfim… nunca desistir de lutar por aquilo em que acreditamos. O projeto que me ocupou durante muitos anos (desde 1995) e para o qual trabalhei intensamente foi o da criação do Arquivo da Universidade do Porto, tanto na sua componente de arquivo histórico como na articulação com a gestão de informação corrente. Apesar de, em diversos momentos, se terem dado passos muito importantes graças a uma maior sensibilidade das tutelas, o projeto que, além do mais, poderia ser um modelo para as outras universidades portuguesas, não teve continuidade. Infelizmente acho que terminarei a minha carreira sem ter conseguido a concretização desse sonho, precisamente porque não é valorizada a memória orgânica das instituições nem há noção do valor que a informação pode ter para uma gestão institucional mais eficiente e mais rigorosa.


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