Investigadores U.Porto

U.Porto Reitoria SIP
Francisco Moreira
Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) / Associação BIOPOLIS (BIOPOLIS) 

Atividade de investigação em Biodiversidade

Como surgiu o interesse pela ecologia e, mais especificamente, pela biodiversidade em ecossistemas agrícolas e florestais (de resto, atualmente um dos seus principais interesses de investigação)?
A primeira influência que moldou as minhas preferências foi o meu pai. Quando era ainda eu muito pequeno e ele comprava fascículos de uma enciclopédia de 12 volumes chamada “A Fauna”. Nela via fotografias de elefantes, zebras, crocodilos e, diria, que possivelmente esse foi um primeiro momento que me suscitou o interesse pelas questões da biodiversidade. Ao longo do crescimento e como fui sempre gostando, acabei por ir para a Biologia quando cheguei à faculdade. Obviamente, houve vários professores que acabaram por moldar a minha personalidade, deste ponto de vista académico. Porquê a questão da biodiversidade em áreas agrícolas e florestais? Essa foi uma constatação que fui tendo ao longo do tempo: havia uma diferença entre a Europa e o resto do mundo. Com isto quero dizer que quando queremos conservar a biodiversidade na Amazónia, a principal abordagem é proteger aquela floresta tropical das ameaças envolventes - em grande parte do planeta, preservar a biodiversidade significa isolar geograficamente áreas do impacto dos seres humanos -, mas na Europa e em muito poucas regiões do mundo, comecei a perceber que de facto não era bem assim. Isto porque a Europa é uma paisagem construída ao longo de milénios e o resultado é termos paisagens que são criadas pelo Homem, mas que têm interesse para a conservação da biodiversidade. De repente, surge a constatação que de facto é preciso gestão, são necessárias pessoas, para atingir objetivos de conservação. Quando queremos fazer conservação na Europa muitas vezes estamos em terrenos que não são públicos, que são terrenos agrícolas ou florestais e existe biodiversidade associada a essas paisagens com muito maior intervenção humana. A constatação dessa diferença entre a abordagem clássica da conservação - que é pôr uma vedação à volta para ninguém mexer -, e aquilo que é a realidade europeia, fez surgir este meu interesse nas relações entre agricultura, floresta e biodiversidade. Curiosamente, sempre fui muito urbano, apesar de o meu pai ser de uma família de agricultores; portanto, foram sobretudo as experiências que fui tendo ao longo do tempo e com quem me fui cruzando que fizeram com que percebesse que, em grande parte do mundo, a agricultura é uma ameaça à biodiversidade, mas na Europa, em particular na Europa Mediterrânica, não é o caso. Existem muitas paisagens agrícolas que foram criadas ao longo de milénios e às quais se associaram espécies de plantas e espécies de animais que, hoje em dia, só existem nessas paisagens. A agricultura, neste contexto, deixa de ser apenas uma inimiga da biodiversidade (como o é a agricultura intensiva). A agricultura tradicional cria paisagens que, muitas, além de terem um valor cultural importante, têm um valor de biodiversidade. A agricultura é, no fundo, como uma moeda com duas faces: há a agricultura boa e há a agricultura má.

Na sua opinião, que principais desafios se colocam hoje à conservação da biodiversidade em ecossistemas fortemente impactados pela atividade humana?
No nosso contexto geográfico europeu, os desafios são basicamente os mesmos que à escala mundial, embora com algumas diferenças, e começando desde logo por aqueles que não conseguimos controlar. As alterações climáticas são, a médio e longo prazo, um fator que irá influenciar o padrão geográfico da ocorrência das diferentes espécies de fauna e de flora. As espécies que dependem de climas mais frescos vão sofrer, enquanto que espécies associadas a climas mais áridos e quentes podem ser favorecidas. As alterações climáticas são sempre, acima de tudo, um peso sobre as questões da biodiversidade. Há um outro desafio associado àquilo a que, a uma escala global, se chama a destruição dos habitats, a destruição pela ação humana, a reconversão de florestas tropicais em plantações de soja ou áreas agrícolas, e que é uma ameaça. No contexto europeu não se pode dizer que se designe destruição de habitats porque muitos deles já estão transformados, contudo, há alterações de uso do solo que têm depois consequências na biodiversidade, desde logo causadas, e para dar um exemplo muito concreto, por incêndios florestais. Outro exemplo são os cultivos agrícolas modernos que estão a expandir-se muito rapidamente (podíamos falar dos olivais superintensivos ou das culturas de abacate). Em todo o litoral de Portugal cresce a pressão urbana que se expande para zonas naturais. Tudo isto são exemplos de alterações de uso do solo que não são amigas da biodiversidade e são ameaças que levam à substituição de áreas que antes tinham outras funções. Estas alterações incluem fatores que têm a ver com intensificação da agricultura ou com a plantação de espécies em "florestas" que só têm uma espécie, quer seja de pinheiro ou de eucalipto (que ainda por cima é uma espécie exótica), por exemplo. Outro fator que é também bastante relevante são as espécies exóticas invasoras, que cada vez estão mais à nossa volta embora o cidadão comum não se aperceba. Algumas delas até são esteticamente muito bonitas, mas são espécies que estão a ocupar o espaço das nossas espécies nativas e são outro foco importante, outro desafio importante à conservação da biodiversidade de hoje em dia: espécies exóticas invasoras têm uma importância e um impacto crescente. Diria que são, talvez, estas as principais ameaças num contexto europeu.

É investigador principal do grupo de investigação “Biodiversidade em Ecossistemas Agrícolas e Florestais” do CIBIO-InBIO. Quais são, atualmente, as prioridades científicas e os eixos estratégicos deste grupo?
De forma genérica, dentro da área temática do grupo temos a componente agrícola e a componente florestal. Em cada uma delas abordamos diferentes desafios, seja o de tentar preservar áreas e sistemas agrícolas ou sistemas florestais com maior potencial de biodiversidade. Por outro lado, e num contexto mais intensivo, exploramos quais os tipos de gestão que se podem implementar de forma a minimizar o impacto que as atividades mais intensivas têm sobre a biodiversidade. Devido à constatação de que, de facto, a biodiversidade na Europa está a ser perdida muito rapidamente, a União Europeia estabeleceu uma lei, um regulamento, para restauro da natureza, chamada “Lei do Restauro da Natureza”, cujo objetivo é começar a tentar reverter a tendência de declínio e perda de biodiversidade. Esta Lei do Restauro da Natureza impõe aos diferentes Estados-Membros ações concretas em diferentes contextos. Ora, um desses contextos é o agrícola e foi o que suscitou um projeto chamado LAFERIA [LAndscape FEatures Reintroduction in Intensive Agricultural land] que tem como objetivo voltar a trazer para áreas de agricultura intensiva pequenos elementos seminaturais (tais como sebes, pequenos charcos, entre outros) que possam aumentar a biodiversidade nessas zonas. Um dos objetivos dessa Lei do Restauro da Natureza é fazer com que as áreas agrícolas da Europa tenham pelo menos 10% de cobertura por estes elementos que contribuem para a biodiversidade. Este é um exemplo de um projeto europeu em que estamos a tentar perceber que tipo de áreas agrícolas na Europa perderam estes elementos. A realidade é que, em muitas zonas agrícolas, estes elementos desapareceram pelo que o objetivo é tentar perceber como reintroduzi-los novamente e em que áreas, e o que é que faz com que um proprietário esteja disponível para voltar a integrar estes elementos na sua exploração agrícola. Um outro exemplo que posso dar, ainda na componente agrícola, tem a ver com a temática das alterações da paisagem nos últimos 10 anos. No Alentejo, por exemplo, tem sido o incremento dos olivais e dos amendoais superintensivos, e uma das áreas em que estamos a trabalhar é perceber quais são os impactos desses novos sistemas que não existiam antes – comparando-o com os olivais tradicionais, que são um exemplo de um sistema agrícola com elevado potencial para biodiversidade. O objetivo é, por isso, perceber o que é que se perde e o que é que se ganha ao passar de um olival tradicional para um olival superintensivo. Já na componente florestal, contamos atualmente com o apoio de uma estrutura, existente na região de Mértola, chamada “Estação Biológica de Mértola”, gerida pela Universidade do Porto, pelo CIBIO Biopolis, pela Câmara Municipal de Mértola e pela empresa do Alqueva. Este é um projeto ambicioso onde estamos a tentar perceber, no contexto florestal, como é que fazemos o restauro ecológico, como substituímos velhas plantações de pinheiros mansos, que estão muito degradadas, ou áreas que eram antigos eucaliptais. No fundo, como reconvertemos em floresta nativa com maior potencial de biodiversidade. Posso dar ainda um outro exemplo na componente florestal que surge de uma colaboração com a Fundação Belmiro de Azevedo e com a SONAE, desta feita num contexto de floresta de produção. Estamos, essencialmente, a tentar ajudá-los a perceber de que forma é que uma gestão ativa da floresta com objetivos de produção pode, apesar de tudo, manter algum valor para a biodiversidade. Isto inclui estudar formas de como fazer essa compatibilização e gestão multiusos de uma tal forma que, não comprometendo a componente económica, se potencia a componente da biodiversidade e dos chamados ‘serviços dos ecossistemas’. Por último, os incêndios florestais não são atualmente uma área core da nossa investigação, mas nunca deixa de ser uma temática presente porque, no fundo, o fogo é um dos principais causadores de alterações do uso do solo nas paisagens, com impactos que não são todos negativos. Interessa-nos perceber como é que a natureza responde aos incêndios florestais e de que forma é que essa resposta pode ser utilizada por nós, humanos, para fazer, por exemplo, uma gestão pós-incêndio mais eficaz. A este propósito, existe uma resposta política clássica: “arderam 5 mil hectares, nós vamos reflorestar os 5 mil hectares”. Ora bem, em vez de estar a lavrar os terrenos ou trazer plantas de viveiro (a maior parte delas vai morrer durante o primeiro ano), o que estamos a tentar demonstrar é que, essas áreas que arderam, têm regeneração natural logo é muito mais inteligente utilizar essa regeneração natural no restauro do que estar a fazer grandes intervenções e mobilizações do solo que depois causam erosões. É claro que, respostas como esta são mais visíveis do ponto de vista mediático e social, mas são, muitas vezes, muito menos eficazes do que estar a gerir e a ajudar a regeneração natural – que, de resto, vai lá estar a seguir ao incêndio e é muito mais barata e geralmente tem melhor chance de sobrevivência, para além de que crescem mais rapidamente.

Foi chair da Cátedra REN em Biodiversidade. Que balanço faria sobre o projeto, que contribuições daí surgiram e de que forma é que a ciência deve funcionar melhor para a transferência de conhecimento (a título de exemplo, desta questão do restauro florestal, entre outras)?
Aqui abordamos um novo assunto, que já não tem necessariamente a ver com agricultura e floresta, mas com um outro tipo de impacto sobre a biodiversidade: as infraestruturas construídas pelo Homem. Neste caso concreto, as infraestruturas relacionadas com o setor da energia, onde elementos como linhas elétricas, parques solares, eólicas, barragens para produção de energia, etc, são também eles causadores de impacto na biodiversidade. Esta Cátedra durou cinco anos, e formalmente acabou, mas a verdade é que a colaboração com a REN (responsável por todo o sistema de transporte de eletricidade e de gás no país) continuou até aos dias de hoje. É por isso um exemplo muito interessante de colaboração entre uma empresa, uma Universidade e um centro de investigação. Esta colaboração foi potenciada por um programa da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) de cátedras convidadas, e que tinha exatamente esse objetivo: cofinanciamento pela FCT e por um financiador de um programa de investigação, mas esse programa de investigação é criado em colaboração entre as duas entidades. No fundo, acaba por ser um programa de investigação aplicada para responder a problemas concretos. Foi exatamente isso que aconteceu e foi, e tem sido, uma experiência extraordinária, quer para nós, quer para a empresa, acredito eu. No âmbito da Cátedra desenvolvemos atividades como avaliar, do ponto de vista científico, práticas que a empresa desenvolvia e que assumia que eram eficazes mas sem grandes evidências científicas. Efetuámos transferência de conhecimentos para os técnicos e para os colaboradores da empresa, criámos um manual para monitorização de impactos, atualizámos e utilizámos a informação para que quem constrói uma nova linha elétrica saiba que tipo de impactos pode esperar e de que forma é que os deve monitorizar. Percebemos, também, se o que se faz para minimizar esses impactos é ou não eficaz, incluindo uma face muito visível e muito curiosa que é nidificação das cegonhas nas torres elétricas. Este exemplo demonstra-nos como, por vezes, a natureza responde a atividades humanas e, neste momento, 20% ou mais da população de cegonhas do país faz os seus ninhos em torres elétricas e isso levanta uma série de questões muito curiosas sobre como gerir isso e perceber, por um lado, quais são os impactos para a empresa e, por outro, quais são os impactos para a população de cegonhas. Esta foi uma das linhas de investigação que desenvolvemos, sendo que, por exemplo, uma das coisas que fizemos foi desenvolver um modelo à escala do país que permite à REN perceber, quando construir uma linha nova numa dada região de Portugal, se essa linha nova vai ser muito colonizada por cegonhas ou não, por forma a que a empresa possa perceber se tem de desenvolver medidas para minimizar os impactos da presença de ninhos. Acrescentaria que, se o leitor voltar a passar pela estrada, olhando com atenção, pode ver que existem uns apoios com uma espécie de ventoinhas em cima, e o objetivo é precisamente tentar evitar que as cegonhas construam os ninhos lá para tirar os ninhos das zonas mais perigosas dos apoios. A empresa oferece também uma espécie de cestos em zonas laterais onde as cegonhas podem construir os seus ninhos sem que isso cause impacto na infraestrutura. Tudo isto são exemplos de atividades que desenvolvemos no contexto da Cátedra em que, como referi, o principal interesse foi estar a fazer investigação aplicada diretamente à resolução de problemas concretos.

Coordenou e participou em diversos projetos internacionais de grande escala. Que lições e boas práticas destacaria nestas corelações entre outras unidades de investigação e a indústria?
Relativamente à indústria, e de forma mais genérica à sociedade, esta possibilidade de colaboração próxima para a cocriação e discussão de questões científicas orientadas para resolver problemas concretos é muito interessante. Permite que se crie uma oportunidade fantástica para a colaboração Universidade-Empresas, que é algo que, pelo menos nesta área da ecologia e dos sistemas ecológicos, não é assim tão comum. A colaboração internacional entre diferentes centros de investigação é uma outra mais-valia. A experiência que tenho é que, de facto, há um grande esforço neste desafio tremendo que é a preparação de uma candidatura num projeto colaborativo para um programa europeu como o Horizonte Europa, mas a troca de experiências é muito produtiva, sobretudo no sentido de generalizar para um nível transnacional e europeu aquilo que cada centro de investigação está a fazer. Em virtude disto, os resultados podem ter mais impacto ao nível das políticas e (voltamos ao início desta entrevista), como muita biodiversidade europeia está associada a agricultura e floresta, ambos são tópicos que têm a ver com política. Existe política agrícola, política florestal, e, para além disso tudo, estas colaborações potenciam novos contactos que permitem formar uma rede de conhecimentos que depois aumenta a possibilidade de, ou arranjar uma equipa candidata, ou de se ser convidado para integrar uma nova candidatura. Em resumo, tem sido essa a experiência. O grande desafio é, de facto, a capacidade de fazer uma candidatura que seja específica para as áreas temáticas que são lançadas pela Comissão. A este propósito, da dificuldade em executar a candidatura, diria que tentar forçar uma proposta focada na nossa área de interesse para que integre uma candidatura europeia não serve. Geralmente esta abordagem corre mal. Temos de ter a flexibilidade de ir à procura daquilo que são os objetivos das diferentes calls que são lançadas. Muitas vezes são objetivos que não estão necessariamente ligados aos nossos interesses de investigação. Muitas vezes, tudo o que seja investigação fundamental não está lá e, portanto, temos de procurar outras soluções. O que quero dizer é que temos de, como se costuma dizer agora apesar de eu detestar, ‘sair da nossa área de conforto’ e assumir que vamos propor um programa de trabalhos que cumpra, palavra a palavra, aquilo que está escrito na candidatura. Esse é um grande desafio e é muito frustrante, depois de todo o esforço que fazemos numa candidatura, ela chegar recusada, em particular se formos coordenadores. Mas sabemos que faz parte do jogo. As taxas de aprovação são sempre baixas. Mas vale a pena porque, de facto, os ganhos são significativos.

Na sua opinião, de que forma pode a Comissão Europeia garantir mais e melhor sustentabilidade na conservação da biodiversidade?
É uma pergunta genérica e difícil, mas diria que a sensibilização é crucial. A verdade é que existe muita informação científica que é ignorada pelos políticos. É um fenómeno bem conhecido: independentemente da informação que existe, as perceções, as convicções das pessoas são, infelizmente e muitas vezes, mais fortes do que a evidência científica. Poder-se-ia criticar que a Comissão está a orientar a investigação muito para as grandes questões e desafios políticos, deixando por isso pouco espaço para a investigação fundamental. Neste aspeto, de facto, o mecanismo Horizonte Europa não é o mais indicado, temos de procurar chegar às Bolsas do European Research Council, por exemplo. É difícil perguntarmos como é que a Comissão poderia ser mais eficaz, mas sem dúvida que a principal dificuldade é fazer o conhecimento chegar a quem o pode utilizar. Quero com isto dizer que é fundamental sensibilizar as pessoas que podem utilizar o conhecimento para a sua existência e para mudar as mentalidades. Os incêndios florestais são um belíssimo exemplo em que eu diria que, para além de Portugal estar na vanguarda mundial de investigação, a ciência já dá respostas a muitas questões. O grande desafio é tomar as decisões políticas para as implementar. Como já aqui abordámos, a questão do restauro pós-incêndio é um bom exemplo: para um político, não fazer nada numa área que ardeu e estar a ver qual é a regeneração natural e perceber se ela é suficiente para depois animá-la, protegê-la… nada disto é muito televisivo. É muito mais televisivo ver uns tratores na encosta. É muito mais mediático, para um político, um presidente de Câmara, mostrar que estão a fazer-se plantações na área que ardeu. A realidade é que isso vai, muitas vezes, contra aquilo que seriam as melhores recomendações da ciência. Um outro exemplo é que, de facto, nós sabemos que para alterar o atual regime de incêndios teríamos de mudar as nossas paisagens. Mudar paisagens demora tempo e não é no período de vida de um governo que isto se faz. A ciência também mostra que, para incêndios com elevada intensidade, não vale a pena estar um avião lá em cima a despejar água porque isto tem um efeito praticamente nulo. Mas seria mais ou menos impensável, para um gestor, para um político, não poder dizer que estão lá cinco Canadairs a lançar água sobre o incêndio. Os incêndios são de facto um exemplo de que como existe muitíssima investigação; o problema é fazer com que ela seja utilizada para uma melhor gestão, indo contra aquilo que são as costumeiras práticas políticas de reação a estes problemas.

Em Portugal e no Mundo, os incêndios florestais representam uma ameaça persistente. Este ano de 2025 foi particularmente fustigador para o nosso país. O lhe parece que a ciência possa dizer sobre soluções futuras?
O tema dos incêndios é um tema quente e toda a gente tem uma opinião. Uma parte da resposta a esta questão já a comentámos: há um grande conhecimento científico (por exemplo a aposta em soluções de base natural, como a regeneração natural para o restauro das áreas que arderam) mas não há implementação. Sobretudo, e as opiniões dividem-se, mas eu faço parte daquele conjunto de cientistas que acreditam que, no atual contexto, é praticamente impossível evitar que estes grandes incêndios aconteçam. Isto deve-se a uma mistura entre alterações climáticas e a forma como gerimos o território. Como já comentei, a paisagem pode ir sendo alterada mas isso não se faz num ano, nem em dois, demora tempo. E enquanto se faz isso - se é que se vai fazer - não vamos sair desta espécie de armadilha em que, basicamente, o que arde ano após ano é sobretudo uma função do contexto climático. Se me disserem quanto choveu e a temperatura média de um determinado ano, poderia adivinhar quantos hectares é que foram ardidos. E o que nos mostra esta simples constatação? Que, efetivamente, aquilo que está a ditar arder mais ou arder menos não é gestão, não é política com sucesso do Governo A ou do Governo B, mas sim o contexto climático. Sendo assim, devíamos assumir que os grandes incêndios vão sempre ocorrer em intervalos regulares, e deveríamos assumi-los como terramotos, isto é, quando há um terramoto não conseguimos ‘apagar’ o terramoto. O que temos de ter são as infraestruturas preparadas para que os danos sejam os menores possíveis. No contexto dos incêndios, significa ter o território preparado para que os impactos sejam o mais pequenos possível, o que está relacionado com prioridade à proteção das aldeias, à envolvência das aldeias (curiosamente, há aqui uma ligação às questões da agricultura). Antiga e tipicamente, à volta das aldeias, havia uma espécie de faixa protetora, pequenas hortas e áreas agrícolas, em que tudo o que estava mais próximo da aldeia era agricultado. Com o abandono da agricultura, um tema de que ainda não falámos, e com a falta de rentabilidade desses terrenos, eles foram abandonados, de maneira que a floresta e o mato foram-se aproximando das aldeias, deixando de haver essa cintura protetora que era aquilo que defendia melhor as aldeias no caso de incêndios. É imprescindível voltar a criar essa cintura protetora, utilizando quer políticas florestais, quer políticas de agricultura. Neste contexto a ciência ajuda e mostra, claramente: áreas agrícolas ardem muito menos que áreas florestais ou, quando ardem, a severidade do fogo é muito menor. Temos, sobretudo, não de investir em mais meios de combate (mais aviões ou mais bombeiros), porque eles devem existir para proteger as infraestruturas e as pessoas, mas o território, ele próprio, deve estar mais preparado para ajudar os bombeiros a proteger. Os grandes incêndios não se combatem porque mais tarde ou mais cedo, no atual contexto, vão continuar a acontecer. Aliás, por cada ano em que temos sucesso no combate, só pioramos a situação nos anos que vêm a seguir. Isto porque grande parte do país está sem pessoas, sem gestão do território, o que faz com que a vegetação vá crescendo. Por cada ano de sucesso que corre bem, no resto do país que não ardeu a vegetação vai crescendo. Vai haver sempre um ano em que o resultado são mega incêndios que percorrem grande parte dessas áreas que não temos ainda a capacidade de gerir, porque, para começar, não temos população. Temos um interior com muito pouca população e a população que lá está já não faz agricultura, já praticamente não faz floresta. É tudo setor terciário, maioritariamente. É esta a questão. Prioridade para ter o território preparado, porque vai haver novamente um grande incêndio. Não vale a pena assumir que, tendo mais bombeiros e mais aviões, isso se vai evitar. Quando muito, adia-se.

O que pode o cidadão comum fazer, no seu dia-a-dia, para apoiar a preservação da biodiversidade (coisas simples mas que façam uma grande diferença)?
São variadíssimas as coisas que um cidadão comum pode fazer. Desde o envolvimento numa organização privada de conservação, quer a nível nacional ou municipal, local… não interessa. Importa é contribuir com o seu tempo livre para ajudar em iniciativas de diferentes tipos. Ou, se por acaso gostar de ver animais ou plantas, a verdade é que hoje em dia a tecnologia permite que não tenhamos de ser especialistas para fazê-lo. Tirando uma fotografia a uma espécie de escaravelho, ou a uma plantinha, ou até mesmo a um animal que vemos no campo, existem aplicações que permitem identificar a espécie e, mais do que isso, permitem utilizar essa informação depois de validada por cientistas, para aumentar o conhecimento. Existem diferentes aplicações que fazem com que a chamada ‘ciência cidadã’ permita que qualquer um de nós possa ser um cientista que, no seu passeio fim-de-semana, vai com o seu telemóvel para o campo e, utilizando uma das diferentes aplicações existentes, vai registando e aprendendo a conhecer as diferentes espécies de plantinhas, anfíbios ou árvores que vai encontrando no caminho. São duas formas de o cidadão comum poder ajudar e contribuir: envolvimento em organizações e contribuir para o aumento do conhecimento científico. Para começar, diria que seriam dois bons investimentos de tempo.


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