O que o motivou a aliar a grande paixão pela arte à academia e à investigação? Que marcos destacaria no seu percurso científico e artístico?
A minha prática artística e investigação têm-se desenvolvido em paralelo. Já durante a licenciatura, em que estudei Design de Comunicação, tinha uma prática artística regular, sobretudo fazendo música e performances audiovisuais. Nessa altura já tentava trabalhar com e sobre sistemas computacionais, explorando processos combinatórios, automatização, aleatorização, fractais, sistemas algorítmicos e generativos, etc. Comecei a usar computadores para fazer design, música e arte nessa altura, mas eles já faziam parte da minha vida desde que por volta dos 12 anos tive acesso ao ZX Spectrum
em que pela primeira vez programei. Depois da licenciatura, durante alguns anos em que conciliei a prática profissional com a docência, a maioria da minha investigação desenvolveu-se pela prática, fazendo design e continuando a trabalhar em música, trazendo cada vez mais os computadores e a computação para a minha prática. Foi nessa altura que, eventualmente, abandonei outros instrumentos musicais e comecei a identificar o computador como “o meu instrumento”. Posteriormente, em meados dos anos 2000, quando comecei o trabalho que levaria ao meu doutoramento, tive a possibilidade para articular todas as frentes da minha atividade. Não desenvolvi o doutoramento como investigação pela prática, mas ele foi acompanhado de muita atividade artística desenvolvida em sinergia com a investigação. Desde essa altura que investigar, pensar e escrever são atividades inseparáveis da minha prática artística e pedagógica. Ensinar numa escola de arte e design não se limita a transmitir conhecimentos técnicos, mas é, acima de tudo, ensinar a pensar, a criticar, a descobrir caminhos novos para trazer à existência coisas que nunca existiram e que muitas vezes não sabíamos sequer que podiam existir. Muitas vezes as obras de arte não são tanto coisas que projetamos, mas sim coisas que descobrimos. Para as conseguirmos descobrir precisamos de estar atentos e a investigação contribuí muito para esse processo, já que nos permite desenvolver justamente modos de pensar, modos de descobrir pelo pensar.
Como descreveria o processo de pensar, analisar e até experimentar arte com o chapéu mais analítico de investigador?
Não penso nos processos da investigação e da prática artística como sendo fundamentalmente diferentes. Ambos são processos de experimentação e descoberta, para onde partimos de hipóteses, ou questões de investigação, e que não podemos nunca saber onde nos poderão irão conduzir porque são iterativos e imprevisíveis. Pelo menos na minha prática, também vejo ambos como sendo fundamentalmente colaborativos, mas precisando sempre de ser complementados por espaço para introspeção individual. Para além destes aspetos mais diretamente relacionados com o ato criativo, também é importante o facto de que, em ambos os processos, é essencial desenvolver relações com comunidades mais alargadas: públicos, estudantes, outros investigadores, crítica, agentes culturais, etc. Ambos os processos dependem também de um diálogo contínuo entre obras, referências e pessoas.[1]
Tanto a investigação como a produção artística são conversas, fluxos em que todas as partes se constroem e constroem significado em relação com as que as antecedem e abrem espaço a todas as que as sucedem e que as vão recontextualizar e transformar retroativamente. Finalmente, se os dois processos são fundamentalmente direcionados a outras pessoas, somos nós, artistas e/ou investigadores, os primeiros a ser tocados pelos seus resultados. Enquanto artistas descobrimos e experienciamos a obra durante o seu desenvolvimento. Enquanto investigadores temos acesso aos resultados da investigação, sentimos o impacto das ideias, conceitos, ferramentas ou outros tipos de conhecimento que são produzidos e somos as primeiras pessoas a ser transformadas por eles. Dito isto, é importante reconhecer que apesar das semelhanças e sinergias, as duas atividades diferem também de formas fundamentais, por exemplo na medida em que a arte se encontra muito frequentemente fora da esfera daquilo que frequentemente associamos à investigação e que convencionamos chamar de pensamento racional. [2]
Atualmente, que processos artísticos mais o têm motivado e inspirado?
Interessa-me muito explorar o que está para além de nós, trabalhar com processos que nos levam a questionar a nossa perceção e cognição, porque estão para além delas. Estas são coisas que nos podem iluminar e ajudar a nos percebermos melhor, e a perceber melhor o mundo à medida que nos enredamos nelas.[3]
Acho interessantíssimo explorar objetos (ou seres, coisas, fenómenos) que podemos descrever como sendo mais-que-humanos, por vezes mais próximos de nós, outras bastante distantes, mas que também fazem parte do nosso mundo, ou melhor dizendo, que existem em mundos que por vezes intersetam o nosso[4]
. E é nesses territórios de interseção que os conseguimos aproximar e descobrir. Também me entusiasma particularmente trabalhar com sistemas que envolvem incerteza e mudança contínua, porque nos permitem vislumbrar tipos de capacidades criativas que estão para além da nossa, e descobrir outras perspetivas, outros horizontes de ação e de intenção,[5]
outros espaços de possibilidade a que podemos não ter acesso sem a computação. Estes são sistemas que criam futuralidade,[6] que nos expõe à sua essência como criadores de um “futuro futuro”,[7] uma possibilidade de as coisas virem a ser diferentes.
A estética computacional é um dos seus interesses e é impossível, a qualquer um de nós, escapar à influência digital. Que limites sente que são possíveis de transpor se olharmos para o digital não apenas como ferramenta, mas como medium, corpo e condição de arte em si?
Acho muito interessante a forma como colocam esta questão, porque vejo a computação como sendo muito diferente de outros media artísticos, já que para além de poder ser um medium, a computação é (quase) inevitavelmente também corpo e condição para a arte. Prefiro falar em computação do que em “digital”, porque se o digital é um excelente veículo para a computação, ele não é de forma alguma o único substrato à nossa disposição para explorar a computação na arte. Enquanto medium, a computação é capaz de absorver os conteúdos de vários outros media e de os remediar em contextos que os cruzam e hibridizam. Isto é muito mais do que o que é evocado pela ideia de “multimédia” e pode ser melhor descrito como um “metamedium” que pode conter todos os media, incluindo os que ainda não foram inventados e os que não são fisicamente possíveis.[8] Os media que nascem deste substrato também cruzam várias práticas e tradições, podendo em muitos casos resultar em algo absolutamente sem precedentes. Mas o que na minha opinião torna a relação da computação com a arte imensamente interessante é a forma como as obras de arte computacionais podem ser dotadas de uma agência que revelam através dos seus comportamentos e de interações com humanos ou outros sistemas, levando a que a causalidade e a intencionalidade se tornem em fontes de prazer estético. Enquanto corpo, a computação existe de uma forma quase paradoxal, porque se por um lado ela é imaterial – não podendo ser reduzida ao hardware ou ao software, mas estando entre e para além de ambos – ela é também algo que existe sempre de uma forma situada,[9] num aqui e agora aurático[10] que é contingente e potencialmente irrepetível. Finalmente, enquanto condição, a computação engaja-nos através da nossa capacidade para intuir alguns dos processos e desenvolver empatia com ela.[11] Isto leva a uma transformação da relação intersubjetiva que desenvolvemos com a arte, uma relação que tradicionalmente se estabelece entre pessoa e artista (real ou imaginada) através da obra de arte mas que, com a computação, se torna triangular e se expande à obra enquanto sujeito e agente.[12] As obras computacionais encontram-se num estado entre objetividade e subjetividade[13] e conduzem-nos a poder também experienciar essa condição.
Como descreveria a sua relação com a música e o som? O que mais lhe dá prazer no processo de criação: a descoberta de uma nova harmonia entre vibrações sonoras, a edição, o casamento entre mediums ou, talvez, o resultado final?
Estudei design de comunicação e artes visuais, mas a música e a arte sonora fascinam-me desde que me recordo. Talvez uma das razões para isso seja a sua relação com o tempo. Se as artes visuais tendem a representar mais do que a incorporar o tempo, a música, tal como o cinema ou a banda desenhada, é uma arte do tempo. Uma arte que algumas vezes o captura, outras o produz, mas que existe sempre no tempo e como tempo. A música é inefável e exigente porque obriga a uma leitura que é também temporal; a música pede-nos para passar tempo com ela. E o tempo é aquilo que de mais precioso podemos entregar a uma obra de arte quando com ela nos relacionamos. Quando experienciamos uma obra de arte temporal damos-lhe um pouco da nossa vida, numa medida que não pode ser controlada unicamente por nós. A música é também um território em que a causalidade é explorada com muita frequência, o que é também algo que me interessa muito, pela relevância que a descoberta e leitura de processos causais tem para a estética computacional. Finalmente, se o posso pôr nestes termos, a música é uma arte abstrata e essa abstração resulta frequentemente num estranhamento que pode ser um catalisador para a experiência artística e que lhe dá a capacidade de ir de encontro ao mais profundo e enigmático dentro de nós. A música é misteriosa.
Podê-lo-íamos acompanhar pelo processo de criar uma performance audiovisual? Geralmente, o produto final é mais fruto do acaso ou de uma inspiração orgânica ou, diria, é um resultado metódico de uma intenção assumida?
Creio que em geral encontro os pontos de partida para os processos de criação em conceitos, mecânicas, ou ideias de processos mais ou menos abstratas que conduzem a uma exploração que pode ter tanto de sistemática como de intuitiva. É nessa experimentação que consigo descobrir e avaliar o potencial formal e expressivo dos sistemas, que se desenvolvem de forma progressiva e iterativa. Aqui podem também pesar fatores determinados pelas características de uma encomenda (para, por exemplo, teatro ou outro contexto multidisciplinar), por contextos de performance ou exposição, ou até por colaboradores. Gosto de trabalhar em torno de uma ideia, um processo, um conjunto de possibilidades, uma hipótese ou uma questão. E gosto de desenvolver essas ideias ao longo do tempo, de várias sessões de trabalho, vários dias em que as deixo fermentar e desenvolver relações com outras ideias, pessoas ou coisas, e crescer, ganhar forma, corpo e identidade. Um período em que elas se transformam e em que eu as descubro. Algumas das peças em que trabalhei com o Pedro Tudela[14] tiveram períodos de desenvolvimento muito longos, por vezes de anos, desde os primeiros esboços à sua forma final numa gravação ou em palco. O livro que publicámos sobre as nossas instalações sonoras[15] reúne peças desenvolvidas ao longo de 16 anos, mas não as apresenta cronologicamente, mas kairologicamentemas. Esta é, também, uma razão por que gosto de revisitar trabalhos, mesmo aqueles aparentemente finalizados, mas que se encontram simultaneamente em estados de fluxo e podem ser expandidos, continuados, etc. Um exemplo disto é a performance audiovisual que criei com o Pedro Tudela e o Rodrigo Carvalho e que estreámos no final de 2024, um trabalho que partiu de objetos sonoros e conceitos inicialmente desenvolvidos numa instalação em 2005[16] mas que neste novo contexto foram integralmente reinventados e levados em direções absolutamente novas, num espetáculo em palco e uma série de edições a ele associadas.[17]
É fascinante perceber que detém um portfolio onde a figura humana simplesmente não existe. Podemos experimentar, por outro lado, uma abundância de luz, cor e movimento. O que está por trás desta escolha, assumidamente (diríamos) conceptual e estética?
De facto, não tenho por hábito trabalhar com a representação da figura humana, ou com narrativas que envolvam humanos, ou até com a voz humana (embora aqui existam algumas exceções). Aquilo de que gosto bastante é de criar contextos ou campos de possibilidades para que os humanos se envolvam com as peças, criar espaços em que podemos desenvolver relações estéticas com o outro (sendo este outro a obra ou outras pessoas ou sistemas) mas, fundamentalmente, connosco próprios. Por isso podemos pensar que o humano está sempre lá, não como representação, mas como condição essencial para a atualização da obra e para a experiência da arte.
Que outros artistas, performers ou músicos o inspiram? Que formas de arte gosta particularmente de desfrutar que nos poderiam surpreender?
Atrai-me em particular o trabalho de artistas que questionam e desafiam as fronteiras da arte. Artistas que compreendem que hoje a arte se desenvolve na confluência de tradições estéticas que informam tanto os atos criativos como as relações estéticas que podemos desenvolver com as obras. Mas estes artistas também percebem que as ações do artista que desenvolve uma obra de arte, não são ações absolutamente prescritivas, mas sim contributos para a definição de um campo de possibilidades em que as relações estéticas e a experiência da arte se podem desenvolver. Algumas referências, por ordem alfabética, de autores que estão ativos e cujo trabalho admiro e me inspira: Agnieszka Kurant, Aram Bartholl, Domagoj Smoljo & Carmen Weisskopf (!Mediengruppe Bitnik), Eliane Radigue, Eva & Franco Mattes (0100101110101101.org), Florian Hecker, Hito Steyerl, Ian Cheng, Jan Robert Leegte, Joan Heemskerk & Dirk Paesmans (JODI.org), Olia Lialina, Pedro Tudela, Pierre Huyghe, Rob Brown & Sean Booth (Autechre), Rosemary Lee, Ryoji Ikeda, Trevor Paglen. Embora esse não tenha sido um critério para a seleção desta lista, é interessante constatar que vários destes artistas têm trabalho muito relevante enquanto pensadores e teóricos.
[1] Alva Noë, Strange Tools: Art and Human Nature (Hill and Wang, 2015).
[2] Timothy Morton, Ecology without Nature: Rethinking Environmental Aesthetics (Harvard University Press, 2007). [3] Alva Noë, The Entanglement: How Art and Philosophy Make Us What We Are (Princeton University Press, 2023).
[4] Rosemary Lee, The Limits of Algorithmic Perception: Technological Umwelt (2018). [5] Brian Upton, The Aesthetic of Play (The MIT Press, 2015).
[6] Timothy Morton, Spacecraft (Bloomsbury Academic, 2022). [7] Timothy Morton, Realist Magic: Objects, Ontology, Causality (Open Humanities Press, 2013).
[8] Alan Kay e Adele Goldberg, "Personal Dynamic Media," in The New Media Reader, ed. Wardrip-Fruin and Montfort (The MIT Press, 2003). [9] Miguel Carvalhais, Art and Computation (V2_Publishing, 2022).
[10] Joanna Zylinska, Ai Art: Machine Visions and Warped Dreams (Open Humanities Press, 2020).
[11] Miguel Carvalhais e Pedro Cardoso, Empathy in the Ergodic Experience of Computational Aesthetics (Faculty of Arts and Design, Durban University of Technology, 2018).
[12] Miguel Carvalhais, "…, Magia, Ritual, Techné, Subjetividade," Interact, Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia, no. 39-40 (2024), https://revistainteract.pt/39-40/magia-ritual-techne-subjetividade/.
[13] Morton, Ecology without Nature: Rethinking Environmental Aesthetics.
[14] Num coletivo em que colaboramos desde 2000 e que designamos por @c: https://at-c.org
[15] Miguel Carvalhais e Pedro Tudela, Installations / Instalações (Crónica, 2022).
[16] A instalação 30×1, apresentada na Solar Galeria de Arte Cinemática, em Vila do Conde, em 2005. https://at-c.org/installations/30x1.php
[17] A performance 30×N e as três edições associadas que foram produzidas até este momento, 30×N — VRD1, 30×N — LRJ1 e 30×N — LRJ2. Estas são parte de uma série em desenvolvimento e que se expande também a colaborações com outros artistas como, até ao momento, Jordan Rita Seruya Awori & Marc Behrens, Joana de Sá, Jos Smolders, Matilde Meireles, Síria. https://at-c.org/performances/30xn/
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