Atividade de investigação em Biotecnologia Marinha
É detentor de um percurso vasto e diversificado que atravessa a biologia molecular e a ecologia, passando pelas ciências do ambiente. Quais os momentos cruciais que destacaria como os principais responsáveis por moldar os seus interesses de investigação e escolhas académicas e científicas?
O meu interesse pela investigação vem desde miúdo em que tinha imensa curiosidade sobre o funcionamento da natureza, desde o comportamento das formigas à vida subaquática, passado pela química das cores das plantas. As minhas prendas favoritas de Natal, enquanto criança, foram um pequeno microscópio e kits de química e de minerais. A Biologia sempre foi a minha escolha embora inicialmente, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e enquanto estudante, não perspetivasse desde o início ser cientista pois, nessa altura, ser professor de Biologia era o destino de mais de 90% dos biólogos formados. O contacto com os organismos nas aulas de sistemática, em especial de animais dado que a minha formação inicial foi em Zoologia, e os trabalhos de campo de Ecologia moldaram a minha formação científica para a Ecologia, em especial, para conhecer o funcionamento dos ecossistemas aquáticos. Fiz o meu trabalho de fim de curso nas salinas de Aveiro, estudando a ecologia do plâncton e o seu impacto na produção de sal. Encontrar valor económico e social na investigação foi sempre um dos meus interesses - seja em trabalhos iniciais de estudo do plâncton em albufeiras do Norte de Portugal para poder melhor gerir estes recursos, seja no meu doutoramento em toxicologia de cianobactérias que conduziu à inclusão destes parâmetros na legislação portuguesa para a qualidade da água e à elaboração e implementação de um programa nacional de monitorização de cianobactérias e suas toxinas em água de consumo humano. A integração no CIIMAR, em 2001, foi o marco principal e diferenciador que moldou o meu percurso científico, ao expor-me a um ambiente multidisciplinar, com colegas de diversas instituições. Nessa altura, criei o meu grupo de investigação e comecei um percurso crescente em captação de financiamento e recursos humanos, promovendo investigação e prestação de serviços em áreas relevantes de ecotoxicologia, qualidade ambiental e, mais recentemente, de biotecnologia azul.
Assume a direção do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR). Aliar a inovação biotecnológica à conservação da biodiversidade marinha será com certeza uma prioridade. Na sua opinião, de que forma poderemos equilibrar a exploração sustentável dos recursos marinhos com a preservação dos ecossistemas que os sustentam? Para além dos desafios científicos, que preocupações éticas se colocam?
A direção do CIIMAR, cargo que ocupo desde 2013, tem permitido colocar em prática um plano de ação que inclui o conhecimento do oceano nas suas diversas componentes, físicas, químicas e biológicas, de forma a melhor poder conhecer o seu funcionamento e os impactos a que está sujeito, decorrentes das alterações globais, muito motivadas por ações de origem humana. A utilização sustentável dos recursos marinhos só é possível se os conhecermos bem de forma a utilizar abordagens que minimizam impactos e numa base de economia circular. Aí, a biotecnologia desempenha um papel fundamental, pois permite por um lado utilizar soluções baseadas na natureza para o restauro de ecossistemas degradados e, por outro, utilizar biorrecursos marinhos para desenvolver novos produtos, processos e serviços que sejam soluções para problemas da nossa sociedade. Há mais de 40 anos que o esforço de pesca estabilizou a nível mundial, dado que não podemos explorar mais os recursos marinhos sem os conduzir a uma extinção não desejável, pelo que a aquacultura sustentável tem vindo a desenvolver-se de forma a suprir as necessidades de uma população mundial crescente. A aquacultura no mar (offshore) ou em terra (inshore) é assim a alternativa mais viável de suprir essa necessidade, tendo-se apostado na domesticação de novas espécies, na formulação de dietas funcionais com fontes alternativas de proteínas e ácidos gordos - como a de algas e insetos - e com inclusão de pré e probióticos que fortalecem a resistência dos organismos a doenças e produzem fontes de proteína mais sustentáveis. A monitorização do oceano que potencie a criação de mais áreas marinhas protegidas e a utilização para fins múltiplos das plataformas de produção eólica flutuante são também duas áreas importantes de investigação no CIIMAR.
Os recursos microbianos aquáticos revestem-se de enorme potencial para o desenvolvimento de soluções inovadoras, desde novos medicamentos a produtos cosméticos ou agrícolas. Caminhamos a largos passos para a exploração otimizada deste potencial para transformar a qualidade da vida humana?
A exploração sustentada dos recursos vivos passa necessariamente pela utilização de recursos microbianos, que são passíveis de serem cultivados em laboratório ou à escala industrial, não causando qualquer impacto negativo nos ecossistemas ao contrário do que acontecia com a utilização de plantas terrestres ou de invertebrados marinhos para a indústria farmacêutica, por exemplo. Os microrganismos, por um lado, são um manancial inesgotável de novas moléculas de interesse biotecnológico pois estão no nosso planeta há muitos milhares de milhões de anos, resistindo a condições ambientais muito diversas e desfavoráveis à maior parte dos organismos macroscópicos que conhecemos. Desenvolveram uma maquinaria química muito diversificada que pode ser muito útil para soluções na área farmacêutica, mas também em outras aplicações industriais e ambientais. As ferramentas moleculares de que dispomos atualmente permitem-nos mapear o genoma destas fábricas de novas moléculas e produzi-las em laboratório sem ter de isolar e cultivar o microrganismo. Por outro lado, temos mais informação e competências para isolar e cultivar estes microrganismos, mesmo os de ambientes mais extremos e mantê-los em coleções de culturas que ficam disponíveis para a comunidade científica, a nível mundial. Devo salientar o Biobanco Azul do CIIMAR, que integra duas coleções vivas de microrganismos: a LEGE_CC, uma das maior coleções do mundo de cianobactérias e microalgas e a CM2C, uma coleção de bactérias heterotróficas que contêm centenas de estirpes de microrganismos com capacidade de degradar contaminantes ambientais ou produzir novas moléculas com interesse biotecnológico. A produção controlada destes microrganismos em biorreatores permite otimizar a produção de moléculas de interesse.
O futuro da biotecnologia marinha é promissor, sendo muitas as áreas em expansão. Quais as questões ou pistas de investigação que, neste momento, mais o motivam? Num futuro próximo, o que poderemos vir a destacar como um bom catalisador para mudanças e impactos decisivos, não só do ponto de vista científico mas também societal?
Por um lado temos de falar dos biorrecursos com maior potencial, nomeadamente as micro e macroalgas, as bactérias - através do seu cultivo - e os organismos superiores, como peixes e invertebrados, através da utilização dos subprodutos das indústrias da pesca e da aquacultura. Depois temos de falar dos setores mais importantes que têm cadeias de valor bem definidas e outros emergentes: aquacultura, restauro e biorremediação ambientais, alimentação humana e animal, nutracêutica, cosmética, agricultura, farmacêutica, novos materiais, têxtil e calçado. Temos também de pensar a uma escala global, pois não tendo ainda uma indústria biotecnológica potente em Portugal teremos, por enquanto, que colaborar internacionalmente. Mas creio que, a médio prazo, Portugal tem condições para se tornar um HUB internacional de Biotecnologia, dado que temos um manancial de recursos naturais ainda pouco conhecidos e muito diversificados, recursos humanos altamente qualificados, capacidade científica e de inovação reconhecida e um país acolhedor, com bom clima e gastronomia que proporciona excelente qualidade de vida com segurança. Temos de saber atrair grande empresas internacionais que se queiram cá instalar apresentando todas estas mais valias. Com isso estaremos a criar emprego qualificado, potenciando a retenção do nosso talento e criando valor de forma sustentável a partir dos nossos biorrecursos.
Ainda que a nossa seja uma sociedade progressivamente mais sensibilizada para os desafios globais e ambientais, como sejam as alterações climáticas ou a poluição marinha haverá desafios, porventura menos abordados, que entende carecerem de resposta urgente?
Ainda há muito trabalho a fazer nesse sentido e é por isso que o nosso programa de literacia científica é vasto e abrangente, impactando anualmente cerca de 150 mil pessoas. Temos de fazer com que a maior parte das pessoas conheça o oceano. Mais do que uma simples ida à praia para usufruir de todas as vantagens de estar junto ao mar, é preciso conhecer o que está por debaixo daquele horizonte azul que vemos quando olhamos o mar. Para respeitar há que conhecer. Há que mudar hábitos pois, por exemplo, a poluição por plásticos no oceano é proveniente em mais de 90% da contaminação terrestre. As campanhas que fazemos de recolha de plásticos e de lixo em geral nas praias não têm quase nenhum impacto na poluição geral, mas servem para sensibilizar para a diminuição do uso de plásticos de utilização única. Os maiores desafios são o de um consumo sustentável, sazonal e local sempre que possível. Se consumirmos cada vez mais produtos do mar e da agricultura sazonais diminuímos a pegada de carbono e as emissões de CO2. Consumir regularmente frutas e vegetais fora de época não faz sentido nem é sustentável. Ter uma alimentação menos rica em proteína animal, consumindo quinoa do Peru ou soja americana ou do Brasil também não faz sentido. O mesmo se aplica aos produtos do mar. Podemos começar a consumir mais algas dos maiores produtores mundiais China ou Coreia, ou salmão do Chile, mas isso também não é sustentável. A alteração de hábitos de consumo será um dos maiores desafios. O outro será a compatibilização dos usos do oceano. Há que saber compatibilizar a pesca com áreas marinhas protegidas, com a aquacultura, com as energias renováveis e com o turismo e o transporte marítimo.
Destacaríamos, de uma notável carreira profissional, académica e científica, uma voz ativa em prestigiadas instituições nacionais e internacionais – é atualmente membro do Conselho Científico das Ciências Naturais e do Ambiente da FCT, do Conselho Científico do Museu nacional de História Natural de Paris e dos Conselhos consultivos da Associação Portuguesa para a Bioeconomia Azul Blue BioAlliance, e do Ciência Viva. Desta perspetiva, as instituições científicas são suficientemente escutadas para o desenho de políticas que promovam mudanças sustentáveis? Considera que o conhecimento gerado pela ciência tem sido eficazmente traduzido em ações concretas no contexto político?
Aqui também creio que há caminho a fazer, mas cada vez mais temos de ser nós a abrir esse caminho e a dar esse contributo. Aprendi isso durante o meu doutoramento em que mapeei a ocorrência de cianobactérias tóxicas em águas doces portuguesas, em especial as albufeiras e rios usados para produção de água para consumo humano. Os meus resultados foram muito relevantes e preocupantes, até à data desconhecidos das autoridades competentes, e assim que os publiquei em revistas internacionalmente prestigiadas fui bater às portas dos Ministérios da Saúde e do Ambiente munido dessa informação. Felizmente, nessa época tive interlocutores à altura e passado uns anos este parâmetro foi introduzido na legislação portuguesa, muito à frente da maioria dos países europeus. Temos de saber traduzir o nosso conhecimento em algo entendível pela classe política e pelos nossos gestores aos níveis regionais, nacionais e internacionais. Neste momento sou co-coordenador da Plataforma Regional de Especialização Inteligente da CCDR_Norte na área dos Recursos e Economia do Mar. Temos a oportunidade de, juntamente com dezenas de colegas de outras instituições, contribuir para o desenho dos modelos de financiamento regionais nesta área tão importante da nossa economia. No âmbito de um enorme projeto financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), O Pacto da Inovação Azul, coordeno a formação de uma rede – Biobanco Azul de Portugal – e contribuímos, com a coordenação da NOVA School of Law, para a criação de uma proposta legislativa para regulamentar o acesso aos biorrecursos marinhos, que será agora conduzida para a Assembleia da República. Há que saber aproveitar as oportunidades criadas ou sermos os motores da criação dessas mesmas oportunidades.
No curriculum conta ainda com a organização de mais de 50 atividades de Educação Ambiental, para além de assumir funções de avaliação de projetos de investigação, tanto a nível nacional como internacional. Tudo isto reflete uma visão prática e orientada para resultados. Quais considera serem os fatores mais importantes para o sucesso de um projeto de investigação? Na sua opinião, quais as melhores práticas e estratégias para o garante de financiamento?
A educação ambiental, ou a literacia ambiental como prefiro chamar, é um dos pilares fundamentais do CIIMAR enquanto instituição científica produtora de conhecimento. É hoje em dia um instrumento fundamental para que os resultados de um projeto ou de uma tese de doutoramento tenham valor real e impacto na sociedade. Hoje em dia, um projeto de investigação tem de produzir conhecimento novo, que pode ou não ter aplicação imediata. Temos de perceber que os investigadores necessitam de ter a mente criativa livre que lhes permita fazer perguntas cuja resposta pode não resolver necessariamente um problema. Por isso é tão importante financiar a dita investigação fundamental. A nível europeu temos as bolsas financiadas pelo European Research Council (ERC) que servem esse propósito, mas em Portugal o financiamento deste tipo quase não existe. No CIIMAR criámos uma tipologia de pequenos projetos chamados “out of the box” exatamente para financiar ideias fora da caixa e que não têm necessariamente que levar a um resultado aplicável. Mas cada vez mais somos chamados a resolver problemas concretos e, por isso, um projeto que nasça de uma necessidade real terá mais probabilidade de ter sucesso e impacto rápido. O contacto com empresas ou entidades que precisem de resolver determinados problemas é um bom caminho. Elas indicam-nos o problema e nós tentamos encontrar a solução – projetos em co-criação.
As novas gerações de investigadores são o futuro da renovação, criação e transferência do conhecimento científico. Quais diria serem os maiores desafios e oportunidades para os jovens cientistas das ciências marinhas e ambientais? De que forma procura cultivar, junto das equipas de investigação, estudantes e jovens investigadores, o espírito crítico e a capacidade de inovar?
Esse é também um grande desafio. A carreira científica não é uma carreira fácil ou muito atrativa financeiramente e, tendo melhorado recentemente, não é muito competitiva do ponto de vista de estabilidade. Para abraçar esta carreira há que ter paixão pela ciência. Há que ter paixão por ter liberdade criativa de responder às perguntas que temos na nossa mente e que sirvam para mudar o mundo, à nossa maneira, à nossa escala. Há que ter ambição. A ambição impulsiona-nos a descobrir fontes de financiamento, projetos e serviços que visem resolver problemas reais, que nos impactem e que impactem o que está à nossa volta. Há que ter espírito crítico apurado. Ser um cientista não é seguir receitas, isso é função de um técnico, um elemento essencial no processo criativo. Ser cientista é criar as nossas próprias receitas que darão lugar a novo conhecimento que terá um impacto mundial. Temos de ter a ambição de que somos agentes de mudança. Somos influenciadores com conhecimento. Somos criadores de tendências que não se esfumam num evento efémero. Um cientista não tem medo de errar. Errar é chato, mas faz parte do processo de crescimento e da inovação, pois sabemos que, se errámos, já não seguimos esse caminho. Um cientista não se acomoda: incomoda, no sentido de não estar nunca satisfeito com o resultado. Ficamos felizes com um bom resultado, queremos transmitir isso aos nossos pares, mas no dia seguinte queremos mais. Um cientista é contagiante, queremos que quem está ao nosso lado brilhe connosco e siga o nosso caminho. E mais tarde o seu caminho próprio. Nada é mais gratificante do que ver os nossos estudantes, pós-doutorados, membros da equipa a ganhar a sua independência, ainda que seja fora de portas. Tornam-se nos nossos embaixadores e, com isso, brilham por nós.
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