Sergio Fernandez, um homem singular, fiel aos seus princípios, profundamente humano e comprometido com a sua profissão, partiu a 25 de março, de forma serena, com essa mesma discrição que sempre pautou a sua vida.
Nasceu no Porto, em 1937. Diplomou-se em Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1965, num período marcado pelo Inquérito à Arquitectura Popular e pela luta de um espaço para, num tempo politicamente difuso, se fazer diferente, para se ser moderno. Viana de Lima, que acompanharia ao CIAM, em Otterloo, Fernando Távora, Álvaro Siza ou Arnaldo Araújo tornaram-se referências permanentes, como assim foram as experiências imersivas e estruturantes que teria em Rio de Onor, em trabalho de campo para obtenção do CODA, ou, já após 1974, ao liderar a Brigada do SAAL para o Bairro do Leal, no Porto. Nelas encontrou a raiz sólida e o sentido para o seu modo de fazer arquitetura, a partir do real e ao serviço da comunidade. Por diversas vezes referiu que a esses inesquecíveis momentos de aprendizagem da vivência coletiva corresponderam os períodos mais felizes da sua vida. A sua casa de férias, em Caminha, a Vill´Alcina, projetada com poucos meios entre 1971 e 1974, num engenhoso apagamento com a paisagem que a envolve, é hoje um paradigma da arquitetura moderna portuguesa. É ainda durante a década de 70 que vai fundar, juntamente com Alexandre Alves Costa, o Atelier 15. Desde então, partilharam a autoria de uma obra maioritariamente construída, que desde a pequena casa aos grandes equipamentos, foi somando reconhecimento, nacional e internacional, atualmente quase toda publicada.
Sergio Fernandez assumia-se como um arquiteto fundamentalmente do projeto e da obra, que resilientemente acompanhava na sua materialização. Sabia, porém, comunicar e tinha inscrito na sua natureza ser professor. Para as provas de agregação à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde foi Vice-Presidente do Conselho Directivo (1988-1994) e Director do Centro de Estudos (1990-1997), escreveu Percurso: Arquitectura Portuguesa, 1930/1974, uma reflexão sobre como a situação política e social do país foi formatando a arquitetura que se fazia, numa clara ressonância do seu próprio percurso. Publicado em 1988, acabou por se tornar uma obra de consulta indispensável para os investigadores em arquitetura portuguesa. Na capa, um desenho seu feito em Tblisi, pois também as viagens contribuiram para a expressão da sua mundivisão.
Este Professor Emérito da Universidade do Porto foi também regente da disciplina de Projecto I do curso de Arquitectura da Universidade do Minho, entre 1997 e 2005, e exerceu igualmente a docência a nível internacional, orientando seminários e leccionando em Angola, Holanda, União Soviética, Finlândia, Itália, Brasil, Panamá e Colômbia. Teve ainda ampla atividade de comunicação de arquitectura, participando em inúmeros encontros científicos ou assinando múltiplos artigos publicados em revistas e outras edições nacionais e internacionais, como, entre muitos outros títulos, Architectures à Porto, Tendenze dell´Architettura Contemporanea, Casabella, Lotus International, Wonen Tabk, Electa, Deutsches Architektur Museum, Revista Monumentos e Boletim da Universidade do Porto.
Sergio Fernandez recebeu, em 2008, com Alexandre Alves Costa, o Prémio AICA/MC (Associação Internacional de Críticos de Arte/Ministério da Cultura) pela qualidade e contemporaneidade das suas propostas arquitetónicas, pelo rigor e cuidado histórico das muitas intervenções sobre o património construído e pelo notável percurso ao serviço do ensino da arquitetura. Foi agraciado com a Medalha de Ouro da Cidade de Vila Nova de Gaia (2013) e foi-lhe atribuído o título de Sócio Honorário da Ordem dos Arquitectos.
Sempre foi um defensor da Fundação Marques da Silva e do projeto que ela representa. A esta instituição viria a doar, em 2022, juntamente com Alexandre Alves Costa o seu acervo profissional. Neste preciso momento, encontra-se em exposição, no Instituto Basco de Arquitectura, documentação do seu acervo relativa ao projeto para o Bairro do Leal, num sinal que a sua memória, a sua obra, permanecem agora enquanto herança presente e transmissível.