Uma equipa liderada por Sofia Costa de Oliveira, docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e investigadora do RISE-Health, estudou aqueles que são os primeiros casos confirmados de infeção no sangue e colonização por Candida auris em Portugal.
“As nossas conclusões acrescentam importantes contributos sobre os potenciais determinantes genéticos da tolerância e da resistência aos fármacos antifúngicos”, explica a coordenadora do estudo, que chama a atenção para “a importância da deteção precoce em doentes de risco” e da “aplicação rigorosa de medidas de controlo de infeção”.
Considerada uma ameaça à saúde pública global, a Candida auris está amplamente disseminada em vários continentes, atingindo cerca de 60 países. A emergência e rápida disseminação deste patogénio preocupa os especialistas, sobretudo devido à elevada taxa de mortalidade, que pode chegar a 60% dos doentes infetados.
A Candida auris é uma levedura que pode colonizar a pele e causar infeções invasivas em doentes com fatores de risco, como doenças graves, tratamentos invasivos e uso de antibióticos e imunossupressores. Esta espécie distingue-se pela resistência a múltiplos fármacos antifúngicos e pela capacidade de persistir em superfícies e equipamentos, o que pode facilitar a transmissão em unidades de cuidados de saúde. O microrganismo não é transmitido pelo ar, mas sim por contacto entre doentes, entre profissionais de saúde e doentes, ou com superfícies e equipamentos contaminados.
Os resultados deste novo estudo, publicado na revista científica Journal of Fungi, permitiram classificar a estirpe do fungo presente nos oito casos identificados em 2023, num hospital da região Norte. A coordenadora do trabalho ressalva que “nenhuma das três mortes dos casos de infeção invasiva reportados esteve exclusivamente associada à infeção, mas sim a comorbilidades severas dos doentes”.
Os investigadores também detetaram “uma nova mutação genética do fungo, nunca antes descrita em espécies de Candida auris, e os perfis de resistência deste microrganismo aos fármacos antifúngicos habitualmente utilizados no tratamento de infeções fúngicas”.
Segundo Sofia Costa de Oliveira, “a caracterização dos mecanismos envolvidos na resistência à terapêutica antifúngica é fundamental para investigar alternativas farmacológicas mais eficazes. O próximo passo será explorar o impacto real das novas mutações detetadas na progressão da infeção e na resistência antimicrobiana da Candida auris, de forma a tentar controlar esta ameaça global para a saúde”.
Em Portugal, os números de infeção por este fungo são bastante inferiores aos de outros países europeus. A docente da FMUP reforça, porém, que é preciso continuar a seguir “uma estratégia de prevenção e controlo de infeção eficaz na prevenção de infeções associadas aos cuidados de saúde”.
“É fundamental que as instituições dedicadas ao ensino e à investigação se articulem com os hospitais e ULS, no sentido de uma investigação translacional integrada, de modo a reforçar a capacidade de resposta a desafios emergentes em saúde pública com base em evidência”, exorta.
O artigo publicado recentemente resultou de um trabalho de investigação envolvendo também Isabel Miranda, da FMUP e RISE-Health, Dolores Pinheiro, José Artur Paiva e João Tiago Guimarães, da FMUP e da ULS São João, Micael Gonçalves, do CESAM, e Sandra Hilário, da FCUP.